O poeta esguio ( o meu encontro com fernando pessoa)
Vejo do outro lado da rua o homem de chapéu
de rosto esguio, olhos pequenos, a olhar a vida
nua e crua, quase cruel.
É ele o poeta que põe o pensamento no papel.
(?) Ideias ou pesadelos. Tanto faz!
De passo largo, apressado, o poeta esguio
prende-se á vida por um fio.
É ele o poeta de todas as coisas e de coisa nenhuma !
É ele o homem que tem paixão pela inutilidade de tudo !
Caminho pelo passeio de uma rua que está
a todas as horas á minha espera.
A cada passo, a cada inspiração
a cada esquina, o poeta esguio vê o mundo.
E meu corpo mergulha numa paz imensa.
Meu coração estende-se por todos e todas as coisas.
Desdobro-me em pensamentos do terrível e do maldito.
Do inatingível!Do inevitável!
Viajo pelo mundo, aceno ao mar e ele vem-me abraçar.
Voo no meu pensamento pelo limite do espaço todo.
Serei eu, oh luz do inútil e do nada,a coisa nenhuma de tudo ?
Estarei eu mesmo aqui e agora, vivo, a respirar este ar, este desassossego, esta intranquilidade de tudo
o que sou de inconformado (?)
Resta-me este tempo de vida e de morte
de tempestades que assolam o meu cérebero.
De mares que batem de encontra meus rochedos
que são meu corpo e em meu corpo eu vivo
e guardo todos os meus segredos.
E em meu espírito vagueiam meus medos.
E minha alma e meus pensamentos só a mim pertencem !
Ah como eu gostaria que tudo fosse a antítese de tudo!
O contrário de mim mesmo.
O contrário do contrário.
Que eu fosse o único dentro de mim e só para mim.
Que os outros fossem , também eles,o contrário deles!
Todos o contrário de tudo em si!!!
Resta-me este passeio a pé.
Resta-me este estar vivo no meio do nada.
Não! Não me resta mais nada a não ser isto mesmo!
Coisa nenhuma!
Oh inesquecíveis e únicos estes momentos
em que o meu pensamento se escusa a sê-lo!
Prefiro parar de pensar. Não me quero magoar mais.
Já estou magoado o suficiente.
O homem de chapéu, que é poeta esguio, está impaciente.
Por isso o melhor é parar mesmo!
Mudar dentro de mim o que já não há para mudar
neste percurso maldito das coisas.
Do tudo ao contrário.
A cidade está silenciosa. Nada quase respira.
É a natureza tranquilamente morta.
Tranquilo este dia sem sóis e sem luas.
Estão por dentro de mim escuras estas ruas.
O meu pensamento vagueia de novo
por todos os lugares.
Avisto todas as coisas, todas as almas
corpos dilacerados, espíritos violados.
Tudo,tudo a magoar-me por demais
em círculos á minha volta.
Sou eu só! Solitário de tudo, como o tempo.
Apenas com amor e com revolta.
O tudo e o nada que resta no meu pensamento
percorrem, em passeio a pé
nesta manhã de um dia qualquer
o meu corpo e a minha alma.
E eis-me emergido de um mar galopante
de sensações, de ódios, de visões
que completam o meu descontentamento.
Acerca-me e toma-me definitivamente o poeta esguio.
Conquista meu corpo e minhas entranhas.
Estranhas estas sensações de guerra e paz interior.
Olho e vejo, do outro lado da rua, o homem esguio
de chapéu, de passo largo e apressado.
O homem que é poeta.
E que vejo eu (?) para além do homem que é poeta
e que está do outro lado da rua.
(?) Quem sabe se o tempo todo, envolto num véu
ou talvez tudo isto não passe de um leve torpor das ideias que insistentemente bailam dentro de mim.
Será que é ele que sou eu, ou sou eu que sou assim !?
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