No silêncio vazio desta noite calma

No silêncio vazio desta noite calma, demasiado calma, para ser noite, para ser noite tal como conhecemos a palavra noite, calma e serena. Um choro melodioso fazia-se ouvir na sala. Pelas janelas, entravam outros sons que se juntavam a esta orquestra e misturavam-se com o silêncio da minha alma, e eu, continuava incansavelmente a matar mosquitos com a ponta do meu dedo.
As lamúrias distantes das ilhas perdidas na longitude infinita da memória dos piratas saqueadores de almas virgens perdem-se para lá do horizonte vertical dos gritos e das pálpebras cerradas como túmulos ancestrais. As lâminas, as lamentações dos desterrados da vida, são melodias sonolentas, quase sonâmbulas, que vagueiam no vento solar até nós. Nós, que massacramos as distâncias, cortando-as com lâminas afiadas, que as rasgam, de igual forma, como os gladiadores e piratas rasgam as entranhas da carne e causam as vagas da dor nas suas vítimas.
Nos jardins, floresce a vegetação da dor, das almas agonizantes, e o jardineiro da morte, tal como funcionário encarregue da sua função, corta sem pudor, com a moralidade de quem respira, os ramos que ainda não brotaram, ao som melodioso de gemidos de mulheres grávidas, como gatas, no cimo de uma torre, em frente ao jardim, num andar acima das nuvens invisíveis, e quando chove as lágrimas da dor, os ramos suicidam-se em vez de lutar por saciar a sua sede.
A fertilidade, a fecundação dos cadáveres antigos, milenares, dos quais nascem os filhos do inicio do tempo, os filhos de Deus que o criaram. Aqui espero. Espero e não me arrependo de esperar pelas horas passadas, que no futuro serão as mesmas horas, porque o tempo é assim mesmo. E arrependo-me pela quadragésima terceira hora, quando cansei-me de esperar, arrependido de ter-te deixado partir. E no copo que seguro, cresce o infortúnio, a desgraça que demora a chegar, e demora porque o tempo é assim, nem mais de pressa nem mais devagar, é tempo simplesmente que passa nas areias das minhas clepsidras partidas, como o infortúnio e a desgraça que partiram e tardam a chegar. Então enquanto tarda e tardo em tardar a minha embriagues, na esperança, já perdida, em que o tempo passe sem passar. Na verticalidade dos castiçais nascem e transbordam nascentes de sangue. Na horizontalidade do chão alagam-se os dias de espera, num alagar vermelho e negro de uma espera obliqua á realidade, á existência, á lógica, até mesmo ao sentido destas palavras.
Numa noite indistinta das outras, dei por mim a olhar um rio, um rio sem água, sem rio…mas na verdade é que era um rio, porque na noite tudo se transforma, e o rio deixa de ser rio para ser o leito onde jazem os arcanjos atingidos por flechas. Eu sei, porque noutra noite…noutra hora nocturna que não esta, mas igual a esta, eu era uma arcanjo…quase morto. Mas continuo a ser o arco que atira flechas acima e abaixo da minha altura. Eu sou também o luar de prata na noite, sou o reflexo na água durante o dia e sou igualmente o NADA que há em tudo.
Talvez seja também, a janela indiscreta, esta de onde vejo este jardim nocturno, vejo o mundo, os telhados, não este último telhado, mas os próximos que estão para lá do meu olhar, que entre a chuva que não cai, é igual a todos os outros.
As luzes são as mesmas, só que repetidamente diferentes. E o resto que confunde-se com o nocturno céu e mistura-se com a minha alma.
Sombras eternas. Cantos infinitos de ninfas mortas, cujos corpos flutuam nos rios sangrentos da minha alma que se mistura com o nocturno céu e que é tudo, a reentrância do eco na sombra da noite.
- Estás ai? É bom saber que não estás, mas sei que és um fantasma, uma visão do nada, da sombra invisível de ti.
Subi a eterna escadaria que há em ti e parei no teu olhar. E o beijo! Não, não sou um Cristo, mas fui beijado por um Judas, cujo nome é vida, existência, destino.
Quero atirar para longe o Passado! Quero esquecer o futuro e arder o presente neste instante em que escrevo. Quero acabar com o universo! Sou a entropia, o chão dentro disto, disto que não é nada, que sou eu, quando não quero ser o que sou. Matei a solidão e morri. Morri tal como me conheci, agora quero encontrar-me e estou perdido no labirinto que há em mim.
As escarpas da luz cegam-me. O vazio dos anos é eterno, como paredes cálidas e cândidas da escuridão que habita em mim. O fim é inevitável e cruelmente frio das almas humanas. Há momentos em que queremos que tudo desapareça, inclusive aquilo que achamos gostar. Por favor deixem-me da mão.
As cicatrizes das lâminas antigas ficam eternamente, como crucifixos cruzados na alma, e os Cristos, nelas pregados com pregos de ansiedade, jazem em mim, como os pregos nas cruzes.
As cicatrizes nos meus olhos são raios de sombra, que são luzes noutro mundo paralelo a este, e ao outro e ainda a outro que é oblíquo ao primeiro e vertical ao último.
Pior que tudo isto, pior que o céu e o universo e que todos os universos paralelos ao meu, que são mundos distantes, o pior que tudo isto é ficar só, e ficar só porque queremos, e ver quem gostamos, mas gostamos mesmo, está num horizonte distante, mais distante que a verticalidade obliqua da minha existência.
As lâminas, as cinzas, a obscuridade da minha existência, ate mesmo a ignorância de saber tudo o que não sei, ou do que sei e caiu no esquecimento da minha memória. A dor eterna como uma lâmina infinita espetada na minha alma, neste corpo que, cuja alma, já se desfez no espaço eterno que existe no labirinto entre o ter e o ser.
E eu que nunca fui ninguém, ou melhor, nunca quis ser ninguém, tenho que viver com a incógnita inconscientemente de nada ser...e gostar de mim próprio é errar e escrever é magoar-se eternamente até que tudo seja escrito.

Só posso coloca-lo na poesia, pois embora seja uma prosa, o foi escrito como uma poesia.

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Miércoles, Abril 7, 2010 - 16:36

Poesia :

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archangel

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É poderoso o que a poesia nos faz sentir, está um bom poema!

:-)

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