Esquizofilia Artistica

Um livro disse-me um dia:
“Cala-te! Que nada sabes, tu não sentes!”
… razão das páginas, certas palavras…

Ninguém sabe sem sentir!

Encontrei esse mesmo livro há dias:
“Como estás, que tens feito?”
… sem resposta, com o olhar apenas…

“Sou um transtorno residual…
defino-me a cada dia, pelo que fui,
sem cura.”
“Sou um transtorno residual…
defino-me a cada dia, pelo que fui,
sem cura.”

Um dia, hei-de escrever-te, prometi…
_____________________________

A pele, a membrana, a barreira rota da mente indivisa do impulso. Em todos os momentos encaro frontal e corajosamente as verdades que sobre mim se abatem de modo invisível, aquelas palavras gritantes que me comandam: “EU NÃO SOU DIFERENTE!”

Se nasci eu inteiro com duas mãos, se vim ao mundo eu todo com dois pés, dois olhos, dois ouvidos e esta minha boca… então agarro-me ao meu mundo, em que caminho nas direcções que são verdadeiras, vejo as cores e os seres que me perseguem, ouço-os constantemente gritar injurias contra mim e…

Porque não me deixam responder… com esta boca, tão minha…? Porque me prendem e me sujeitam a mil torturas? Porque me levaram os pássaros e as cores, e os sons do mundo, dos meus passos, das minhas mãos?

Porque me roubaram a música? Onde estou? Porque aqui estou? Quem és? Porque aqui estás?
Miro o meu reflexo no chão, sou um espectro desviante e trémulo, as minhas mãos parecem água e os meus pés não se sujeitam ao meu comando, sentado num qualquer leito que não é meu, suporto o cheiro da minha saliva morta e dos cigarros que não me lembro de fumar… onde estão os meus cabelos negros e a minha barba… sei que aquele reflexo moribundo é de um homem doente, mas serei eu? Quem sou eu? Onde estou? Porque aqui estou?

Aquela figura branca voltou, tenho medo, muito medo, sei que me fará mal. Sei que fala de mim para o mundo, vem de noite roubar-me as ideias mais belas da minha mente, é única explicação para não conseguir mais escrever, nem pensar, nem sentir, nem saber quem amo nem quem me ama!

Tenho sede, quero água, estão-me a matar, esfaqueiam-me as nalgas sempre que falo, tenho medo de falar, não posso pedir nada, podem até chegar a matar-me esse alienígenas de branco, que falam de mim e tudo me roubam…

Porque me levam para uma sala cheia de loucos? Porque querem que jogue às cartas, se eu já não sei jogar! Roubaram-me as ideias e as jogadas! Tirem-me daqui… preciso de fumar…

Onde está o meu tabaco? Onde o meti? Não o tenho… tiraram-mo…

opah..! Tu! Sim, tu enfermeiro, o meu tabaco?”

“Como assim não tens o meu tabaco?”

“Não me deste nada o meu tabaco, porque não me lembro, ninguém me deu o meu tabaco e eu agora não o tenho!”

“Pára de gozar comigo, roubas-me o tabaco e ainda gozas comigo…”

“Mas tenho calma o quê pah! Tas parvo! Tiras-me as coisas e agora não me dás a merda de um cigarro? Fodace!”

“Isso não…! Eu calo-me…”

“… mas isso não… por favor sr. Enfermeiro…”

Deu-me um cigarro, não é dos meus, não me sabe a nada, não é como os meus… o fumo deste cigarro não entra e não bate… escorrega-me pelo nariz e não me faz nada… sei que queria chorar mas não tenho lágrimas, de facto, os meus olhos nem sequer rodam ultimamente, ficam apenas estáticos…

“Não quero comer, deixa-me em paz…”

“Como assim, medicamentos? Vocês tão é sempre a drogar-me…”

“Puta que pariu, eu tomo a merda dos comprimidos, deixa-me em paz, fodace lá para as injecções…”

Roubaram-me hoje também o apetite… e o sabor do pão, da manteiga, do leite… o peixe mete-me nojo e a carne… a carne não sei de onde vem, mas o cheiro é de gente, não vou comer carne de gente…

“… não… deixa-me… ficar na cama… fecha… a porta…”

“… não tenho fome…”

“… não tenho sede…”

“… eu já não tenho… uma mãe… por isso ninguém me visita… não me mintas…”

Perdi as vontades, perdi os meus contos, as minhas historias, perdi tudo…

Eu, que fui o aluno mais inteligente da minha turma durante todos os anos em que me obrigaram a estudar.

Eu, que fui o académico mais popular da minha faculdade e arranjei emprego mais depressa… eu… que fui rei… até aos dias em que o nevoeiro assumiu o cheiro de tecidos queimados, e me rodeou cada vez mais nas ruas… o som dos passos das pessoas começou a ditar-me equações alfanuméricas “tic-toc 3, 4, 3, 4, 5… 5… 5… xxxiiisss… - Passa por cima seu estupor!”

As linhas das passadeiras pareciam engolir-me os pés e em todos os cafés onde entrasse sempre havia alguém que me conhecia e me olhava, sempre com algo para sussurrar sobre mim, mas nunca dizendo nada que indicasse que me queria cumprimentar, como se tivessem todos em conjura para me mal-falar…

E foi no dia em que os paralelos da avenida me subiram pelas pernas acima, mordendo e esfarrapando, enquanto eu estava colado ao banco de jardim que se derreteu para me reter dentro de si, que ao invés de ajudarem a sacudir aquele mal, me trouxeram para este sitio…

Em que nada é meu…
Nenhuma história é minha…
Eu sou um mito…
Roubaram-me a musica…
Roubaram-me os sabores…
Deram-me roupas largas e sapatos sem cordões…
Uma cama de borracha…
Um chão frio… um tecto sujo…
Dão-me tabaco de hora a hora…
Drogas 5 vezes por dia…
O relógio já não faz qualquer som…
Nada sinto… nada quero…

Nada tenho… nem ninguém… nem eu… nem tu…
Quem sou…? Quem és…?

“um fantasma, residual, do que um dia fui…”

____________________________________

Tenho a dizer, muito claramente e sem segundos significados, que muito se fala de esquizofrenia, que muito se vende sobre esquizofrenia... mas pouco se lida com esquizofrenicos...

Dedico este texto ao "Joãozinho", que em 3 meses, tanto me ensinou...

O entendimento não se atinge com contos romanticos. A vida é trágica para muitos de nós.

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Lunes, Agosto 16, 2010 - 16:33

Poesia :

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Obscuramente

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Comentarios

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Re: Esquizofilia Artistica

Obrigado Ex-Ricardo ;)

Ainda bem que gostas.

Abraço.

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Re: Esquizofilia Artistica

Muito bom!

Magnífico!

Parabéns André.

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Re: Esquizofilia Artistica

Obrigado Nanda e Ana Lyra.

A cura é um ajuste da pessoa individual ao uma realidade que se pretende comum, digo que se pretende porque nunca se atinge. Todos temos nuances sem padrão ou paralelo nos semelhantes, de onde vem e por quem é traçada a linha tenue da doença? Na disfuncionalidade, no perigo para si proprio e para os outros? ou apenas na divergencia de percepção?

Muitas questões matam a mente ao invés de lhe dar conforto.

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Re: Esquizofilia Artistica

Já pensei diversas vezes em ir para esta area. Só para ter um crachá saber quem sou, além é claro do fumo livre a da chave dos remédios.
A despersonificação do distúrbio mental. Sempre pergunto-me o que é pior a cura ou a doença.
Muito bem escrito, grande abraço.

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Re: Esquizofilia Artistica

André,
Bendita esquizofilia...
Quem assim escreve é detentor da maior sanidade artística.
Beijo
Nanda

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Re: Esquizofilia Artistica

Honrado, como sempre, pela tua opinião e agrado ;)

Não sei comentar comentários, por isso, apenas obrigado pela leitura atenta e pelo favorito, não é todos os dias que levo com dois ;P

lol

Abraço.

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Re: Esquizofilia Artistica

Obrigado pelo comentário Libris Scripta Est. ;)

Há dias em que sou olhos de quem não vê... ou ouvidos de quem não ouve... há dias que sou artista, nos outros todos sou um fantasma de branco...

;)

beijo, tambem gosto muito de ti.

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Re: Esquizofilia Artistica

Obrigado Alex Moraes.

;)

Abraço.

Imagen de Librisscriptaest

Re: Esquizofilia Artistica (a ler e pensar)

Fogo...
Fizeste-me chorar...
É por esta tua sensibilidade, por esta tua forma de sentires tanta coisa aí dentro, pela magnifica beleza q trazes ao mundo qd te dás q eu afirmo que sim, gosto mesmo muito de ti!
És um ser-humano fantástico e maravilhoso nessa tua forma peculiar de sentires...
Este teu escrito, tocou-me profundamente, pela realidade sem rodeios q nos mostras, sem nuvenzinhas cor de rosas, sem pirilampos mágicos...
Admiro-te muito, a tua escrita é apenas um reflexo da imensa riqueza q guardas dentro de ti!
Beijinho grande, grande, grande em ti!
Inês (A.S.)

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