Tudo Acaba - Nota Introdutória

Nota Introdutória:

Abre-se um foco diáfano de luz sobre a cena, e é tudo quanto se vê. Uma Luz sem cor, sem vida, um estreito estilete de Lua que faz a vez de foco de palco.
Adães foi o primeiro de todos a aparecer com uma pistola na mão, o primeiro e único do grupo a morrer cedo demais, (talvez não!) foi assim, e era mesmo assim que tinha de ser, Tudo Acaba, mas no resultado ulterior destes acontecimentos nenhum reparo negativo lhe foi feito, dir-se-ia até que lhe tinham perdoado a vida desperdiçada que ali terminava.
Nunca mais se tornou a falar disso como se de um crime ou falta se tratasse, e nenhum castigo lhe foi aplicado. Era livre da punição merecida, mas não dos remorsos que carregou a vida inteira e que certamente o haveriam de assombrar no além.
Suspirou fundo, uma, duas, três vezes, o terceiro suspiro assombrado já havia sido em demasia, entalou-se desastrosamente com o fumo gotejante do cigarro, este era o derradeiro, o último cigarro que fumava, (assim quis crer). Tossiu o escarro esverdeado que lhe entupia o goto, e cuspiu-o fora vendo-o cair no mar à sua frente, qual sapo em vésperas de explosão, viu-o nitidamente afundando-se tranquilo iluminado pelo brilho ocre da lua, no escuro prateado das águas, e antes deste se afundar pareceu-lhe mais iridiscente no mesmo luar, refulgente pelo brilho da sua cor natural.
- Enfim! -Tossia Adães. De garganta novamente limpa, voltou a suspirar, mas nenhum alívio lhe foi concedido.
Depois disso, com os bicos dos pés ainda calçados dentro das já acabadas botas pretas que nunca deixava que ela deitasse fora, entrou pela água dentro. E quando esta lhe cobriu as pernas pelos joelhos não se contorceu de frio, prosseguiu indômito. Até quando lhe atingiu a altura das virilhas queimando-lhe o dependuro do desejo com lâminas gélidas, mesmo assim seguiu em frente, justo até ao momento em que a água lhe chegou ao peito, aí sim parou. Estacou de medo, qual mula teimosa.
Deitou ao mar o cigarro que fumava nessa altura, e tirou outro do maço que tinha guardado na algibeira. Um polme de papel vazando água salgada. - Que sorte, - pensou. - ainda havia um intacto, o último. - Este sim o derradeiro. Acendeu-o, lançando o isqueiro e o próprio maço empapado ao mar inquieto de Inverno.
Fê-lo não porque tivesse absoluta necessidade de fumar, de bufar baforadas umas atrás das outras, mas pelo absoluto kitsch do momento.
Nada mais havia do que a planície de negrume á sua frente. Seguiu-a com o olhar até a perder finalmente no miudinho de um infinito que já não vislumbrava, - Pôrra já nem sequer me apetece fazer. - Restava-lhe o esteiro ondulante do cintilar prateado da Lua, que percorria arrepiado a vastidão defronte.
O carreiro torto de uma vida inútil terminava ali, e por tudo ou por nada, ali sempre deveria ter terminado. Era o seu jazigo de eleição e por suposto aquele onde se deixaria descansar “ad eternum”.
Como ele adorava o Mar! Meu Deus, como ele era parvo!
Mas adianto-me um pouco aqui. Atropelo a noção consciente do leitor com fatos que serão ainda, não são todavia reais. Penso eu que todos os romances poderão cingir-se a esta lógica estrutural. Mormente sendo um pouco reveladores, um pouco esquivos, tudo serve o propósito mais alto da escrita de ficção, e da mentira atroz que ela oferece. Mas acalmem-se, eu pretendo seguir a trilha da sinceridade, que o leitor compreenda o que realmente se passou, e não que seja atropelado pelos fatos há medida que estes se comecem a desvendar. Não quero um leitor apoquentado pelo trabalho de descobrir. Quero dizer-lhe. Não me vou insinuar com intricadas reviravoltas do enredo, nem sequer vou fazer grandes esforços por definir os contornos de cada personagem, vou lhe dizer abertamente como elas são. De qualquer forma não me atrevo sequer a presumir que escrevo assim tão bem quanto isso, portanto, o melhor será começar pelo princípio.

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Viernes, Abril 1, 2011 - 11:10

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