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Eurico, o Presbítero - A Visão

"No espelho da visão está a segurança da verdade."
Código Visigótico ‑ 1 ‑ 1 ‑ 2.
Presbitério. Antemanhã. Oito dos idos de abril da era de 749.

1

O sono ou a vigília, que me importa esta ou aquele? As horas da minha vida são quase todas dolorosas porque a imaginação do homem não pode dormir.

Para o povo, ignorante e impiamente crédulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva ele ouve um gemido de alma que vagueia na terra; em cada sombra de árvore solitária que se balouça com a aragem sente o mover de um fantasma; as exalações dos brejos são para ele luz de demônios, alumiando folgares de feiticeiras.

Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranqüilo. Ao cruzar os umbrais domésticos, esses terrores sumiram‑se com os objetos que os geraram. A sua alma parece despir‑se da fantasia grosseira, como o corpo se despe da estringe áspera que lhe res­guarda os membros.

Não assim eu. Quando as pálpebras cerrando‑se me escondem o mundo das realidades, os olhos do espírito volvem‑se para o mundo das existências ideais. Às vezes a felicidade e a esperança vêm consolar‑me então; muitas mais, porém, os sonhos maus me perse­guem; e por bem alto preço me saem os instantes de ventura transi­tória, trazidos por visões consoladoras.

Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria na fronte se não secou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.

Terribilíssimos foram os sonhos que Deus mandou ao prebístero; mas, porventura, mais terrível é a sua significação.

Diz‑me voz íntima que esse doloroso espetáculo a que assistiu minha alma é, ó Espanha, o mistério dos teus destinos.

E esta foi a visão:
2

Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava­‑me no viso mais alto do Calpe: traspassava‑me a medula dos ossos o vento frio da noite, e parecia‑me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia.

Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horizonte, como se a luz do sol o iluminasse.

O espetáculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondável fazia‑me erriçar os cabelos, que o norte me açoitava com o sopro gelado.

Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar ali alguns não sei se instantes ou séculos.

O mar cessou de agitar‑se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para a feitura de estátua colossal que resfriasse de súbito em vasta caldeira.

Era horribilíssimo ver convertido em cadáver, de todo imóvel e mudo, o oceano; aquele oceano que há mais de quarenta séculos nem um só dia deixou de revolver‑se e bramir em torno dos continentes, como o tigre ao redor da rês que jaz morta.

O sibilar das rajadas também cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, úmido, pesado, sem ranger, sem o movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.

Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuíssima foi avultando pouco a pouco, derramando‑se pelo horizonte e repintando a abóbada imensa dos céus.

Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham‑se aba­tido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando‑se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do vale fechado.

Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, afogueado, como a atmosfera que pesava em cima dele: e, além, jazia o cadáver do mar.

Eu, o Silêncio e a Solidão éramos quem estava aí!
3

Subitamente, naquele vasto horizonte, até então puro na sua luz horrenda, dois castelos de nuvens cerradas e negras começaram a alevantar‑se, um da banda da Europa, outro do lado de África.

Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam‑se, vomitando novos castelos de nuvens, que se difundiam, flu­tuando enoveladas com formas incertas.

E aquelas montanhas vaporosas e negras rasgaram‑se de alto a baixo em fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmen­tos informes e cambiantes vacilavam trêmulos em ascensão diagonal para as alturas do céu.

Ao aproximarem‑se, os dois exércitos de nuvens prolongaram‑se em frente um do outro e toparam em cheio, Era uma verdadeira batalha.

Como duas vagas encontradas, no meio de grande procela, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em cachões que espada­nam lençóis de escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore na mais possante, assim aquelas nuvens tenebrosas se despedaçavam, derramando‑se pela imensidão da abóbada afogueada.

Então, pareceu‑me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.

Mas este ruído foi‑se alongando e cessou: os bulcões alevantados da banda de África tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam rapidamente para o lado dos campos góticos.

Depois, senti lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabólico. Olhei: o Calpe esboroava‑se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava assentado vacilavam nos seus fundamentos.

Despertei. Tinha os cabelos hirtos, e o suor frio manava‑me da fronte aquecida por febre ardente.

Senhor, Senhor! foste tu que deste a ler à minha alma a última página do livro eterno em que a Providência escreveu a história do império godo?

Contam‑se coisas incríveis desses povos que assolam a África, chamados os árabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestígios da cruz. Quem sabe se aos árabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por eles, e para os repelir cumpriu que desembainhasse a espada o ilustre Teodomiro, o último guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei contigo. Na procela que se alevanta de África deixarei submergir o meu débil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajuntar os meus. Que me importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?

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domingo, abril 12, 2009 - 00:06

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AlexandreHerculano

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