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ICARO (Crônica)

Você despencou. Caiu no oceano de tristeza. Estava voando alto quando suas asas derreteram. Não ouviu os avisos. Acreditou que não fosse com você.Duvidou que poderia acontecer com você. Afinal, tudo estava indo tão bem. Sua vida era um conto de fadas!

Mas, você esqueceu que, em um relacionamento, a cobiça e o interesse não sustentam suas asas. É o amor verdadeiro que oferece a segurança. Não é o dinheiro, o status ou a moda que irão lhe proporcionar segurança. Foi um engano. Você se enganou e pagou por isso. A ilusão do interesse.

Há muito que seus olhos castanhos fascinavam-se pelo brilho do astro rei. Você queria aquela lugar para você. Lá, bem no alto. Acreditou que poderia brilhar - mesmo não tendo luz própria - mas, de tão próxima a estrela, tomaria emprestado todo o seu fulgor. Era isso. Nada mais importava!

O plano era perfeito. Você tinha o material e a mão de obra estava disponível. Você encontrou alguém que se dispôs a lhe ajudar a montar suas asas.Na verdade o iludiu e fez com que ele acreditasse que tudo era parte de um objetivo nobre, valoroso e singular. Assim, conseguiu que ele se comprometesse, de corpo e alma, a levar adiante algo que era apenas superficial e que não tinha nada de verdadeiro em se tratando dos teus propósitos.

Quando tudo estava pronto, você abriu suas asas o máximo que pode, maravilhou-se com o brilho do sol que refletia nas penas e na cola feita com mel. Orgulhou-se de si mesma e da capacidade de criar um artifício tão belo e imponente. Os bajuladores lhe incentivaram, abstiveram-se em apontar as falhas na estrutura preferindo lhe dizer que tudo era divino e maravilhoso. E você convenceu a si mesma de que nada lhe impediria. Apenas uma voz se levantou e lhe avisou sobre o perigo de aproximar-se tanto daquela luz. Mas você já estava cega com a ambição e cobiça e não deu ouvidos a ela. Mandou que se calasse e afastou de você.

Então você alçou voo. Todos se impressionaram! Você estava maravilhada. Lá de cima, as pessoas pareciam insignificantes para você. Quanto mais subia, mais leve sentia-se, pois seu vazio interior aumentava. Seu companheiro observava tudo atônito. Ele não entendia porque você não permitiu que ele voasse ao seu lado.

E assim, cada vez mais alto e mais alto até que por fim, você estava quase a tocar o sol. Sentiu o poder dele, seu calor, toda a sua majestosidade a luz! E você se considerou como parte dele! Havia conseguido o que queria! Era isso!

Lá embaixo todos observavam impressionados! Até que, de repente, algo aconteceu! A cola feita de cera e mel começou a derreter! Não havia o componente fundamental, o amor. O interesse e a cobiça, os elementos majoritários, não te protegeram. Então veio a surpresa, o choque, a agonia, o desespero e, por fim, a queda. A longa queda.

Você despencou. Ainda pode observar o sol que se afastava até se chocar contra a superfície dura do mar. Você submergiu e sentiu o frio e a solidão, a tristeza e a escuridão que aumentava gradativamente. E todos viram que você caiu.

Só que, ao contrário da Fênix, você não conseguiu ressurgir das cinzas. Apenas arrastou-se até a praia e está ali até hoje observando à distância o sol por entre as nuvens. Todos lhe abandonaram. A você, resta apenas a lembrança daquele momento. De uma mentira que não se sustentou.

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terça-feira, outubro 14, 2014 - 15:25

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Daniel Kobra

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