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O SÁBIO, O LOUCO E O TOLO

    "No rodopiar dos ciclos, coligem as gentes!" - clamava o louco na praça. Passava por ali o sábio que intrigou-se com o clamor do louco e, observando nele um quê de lucidez, investigou:

     - Que tens, ó louco? - indagou o sábio.

     - Te turbaste? Não sabes que a loucura não dá contas, mesmo à sabedoria? - respondeu o louco.

     Irou-se com o atrevimento do louco, mas como sábio conteve-se, porém intrigado mais ainda com a resposta. Retirando-se a seu caminho e deixando o louco com sua loucura, foi interpelado pelo tolo que estava assentado em um banco na praça:

     - Deixaste em casa tua sabedoria? - riu o tolo.

     Sabiamente reteve seu espírito, mostrou-se impassível e continuou seu caminho fingindo desprezar o escárnio do tolo, num terrível esforço para conter a ira aumentada pela soma dos atrevimentos.

     O sábio havia sido designado pelo rei a convencer o proprietário de um valioso campo a vendê-lo por metade do seu preço utilizando sua sabedoria, e havendo êxito na empreitada seria posto à mão direita do rei, como o segundo no reino.

     Chegando ao local onde se situava o campo encontrou um homem reparando o portão de madeira da propriedade e perguntou:

     - Caro amigo, és tu o proprietário deste campo?

     - Não. É meu senhor, porém não se encontra.

     - Onde poderei encontrá-lo? - perguntou o sábio.

     - É o tolo. Passa o dia assentado na praça. - respondeu o homem.

     O sábio disfarçou o espanto causado pela surpreendente revelação, ao que continuou o homem:

     - O campo é grande e fértil, com muitas reses, e digo que não foi por sua tolice que meu senhor o alcançou, nem o poderia. Antes, o sombrio capricho do destino o entregou pela mão da morte de seu pai, que porventura morreu de desgosto da tolice do filho, e não faz muito tempo.

     Agradeceu o sábio ao homem, e retornou a fim de encontrar o tolo. Se assenhorou dele uma grande confiança. Não seria um comerciante experimentado a quem deveria convencer a vender o valioso campo pela metade de seu preço, o que poderia agregar à tarefa grande esforço em sabedoria e tempo, mas trataria com o tolo e presumiu em seu coração que a empreitada lhe seria muito mais fácil do que havia se disposto a realizar.

     Alcançando a praça, viu o tolo assentado em um banco, e o louco ainda clamando. Caminhou em direção ao tolo e sentou-se a seu lado, calado, sabendo que o tolo se dirigiria a ele.

     Disse o tolo:

     - A que vens? Investigar a loucura do louco? - e riu-se.

     - Não! - respondeu o sábio - É a ti quem procuro. Soube que herdaste um belo campo de teu pai, e tenho interesse em comprá-lo.

     - Como tolo, desprezo tanto a sabedoria em que há enfado para se adquirir, quanto o campo que para manter requer o enfado da sabedoria, então, me deleito aqui apreciando a loucura do louco - disse-lhe o tolo.

     “Não só tolo como preguiçoso”. - pensou o sábio. Lembrou-se do atrevimento do louco e do tolo, e viu a oportunidade de tomar vingança, ao menos do tolo defraudando-o, anistiando o louco pela sua inimputabilidade.

     - Se desprezas o campo, certamente quererás vender-me, te livrarás do enfado junto com ele e ganharás tanto. - disse o sábio apontando-lhe a metade do valor do campo em dinheiro.

     - É tentadora a proposta, mas como tolo proponho que tomemos conselho com o louco. Atenderei à sua loucura. - respondeu o tolo.

     O sábio estremeceu sem se deixar perceber. Instou com o tolo para aceitar sua proposta, mas o tolo decidiu, resoluto, se guiar pela loucura. Estava o sábio agora à contingência da loucura. Como manipularia o louco? Lembrou ter notado no louco uma sensatez que o intrigara. Teria o louco momentos de lucidez? Se assim fosse poderia aconselhar o tolo a não lhe vender o campo pela metade do preço, o que o tolo aceitaria não por sabedoria, mas por estar seguindo a loucura que admirava.

     Constrangeu-se ao se ver como o tolo, desejando a loucura. Ocultamente angustiado, suplicou ao tolo:

     - Deixa-me ao menos falar com o louco? - ao que concordou o tolo. Assim tomava em mãos as rédeas da situação.

     - Ó louco, sabias tu que tens dois admiradores, que deveras apreciam tua loucura? - dissimulou o sábio.

     - Quem seriam estes? O tolo já sei, pois a tolice é a irmã mais nova da loucura. Serás tu, ó sábio, o outro fã?

     - Sim, amigo louco.

     - Prova-me! - disse o louco.

     - Tão fã que, vindo eu fazer negócio com o tolo, decidimos que será feito conforme a loucura do teu conselho. - disse o sábio explicando ao louco, com encômios, as condições do negócio.

     Aconselhou o louco:

     - Como louco desprezo o dinheiro e o campo, por isso, por serem meus admiradores, os honrarei com o mais louco conselho: tolo, dá por nenhum dinheiro o campo ao sábio!

     Assim fez o tolo sem titubear, exultante. Tempos depois morreu o louco e o tolo assumiu o seu lugar, pois a miséria em que caíra por deitar fora a herança de seu pai o enlouquecera, e passou a clamar na praça:

     - No rodopiar dos ciclos, coligem as gentes!

     O sábio foi o segundo no reino e ainda se apoderou da metade do valor do campo do tolo, dizendo ao rei que assim havia pago, apesar de nada ter pago.

     Tempos depois descobriu o rei a verdade e encarcerou perpetuamente o sábio no calabouço, com castigos, e este enlouqueceu. Dizem que até o último dia de suas forças clamava do calabouço:

     - No rodopiar dos ciclos, coligem as gentes!

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terça-feira, maio 17, 2016 - 03:07

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Marcio de Assis

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