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Recomecar de Novo

Aqui está o início de uma história que me surgiu na mente. O que acham? Tem pés e cabeca para continuar?

"Ao contrário de todos os rapazes e raparigas ali presentes estava calmo. Sabia que ia passar à próxima fase, já estivera naquela situação antes e passara. Mas num outro contexto, numa cidade diferente. Nesse dia, há pouco mais de um ano estava a centenas de quilómetros na escola secundária dele. Junto estavam os seus dois melhores amigos. Estremecia ante a lembrança deles, Rúben e Leonor. Não namoravam (publicamente) mas sempre houve muita química entre os dois. Rafael sempre pensara que namoravam às escondidas e não lhe contavam para que não se sentisse constrangido. Deviam conhecê-lo melhor.
Vestia um casaco preto abotoado até ao pescoço e calças de ganga com botas castanhas. Era muito reservado e nervoso, apesar da confiança que sentia. Tinha tiques, mexia rapidamente a perna esquerda e depois a direita. Tocava constantemente no queixo, roendo as unhas e piscando os olhos. Depois endireitava-se, olhava para o papel que teria que ler e voltava a mexer a perna. Parava então, pensava no quanto estava a arriscar, a sua vida e a dos seus irmãos. Olhava nos olhos das centenas de pessoas que o olhavam e após algum contacto visual desviava o olhar e voltava aos tiques.
Parecia ausente, mas ao mesmo tempo bem presente, consciente da situação. Não devia arriscar tanto mas no entanto era também os seus sonhos que estavam em risco. A família ou os sonhos? Queria responder que a família, mas a sua irmã afirmou que ele podia ser exibido perante a televisão nacional após lhe terem ligado.
Agora, mais perto de ser colocado em direto, tremia mais. A câmara a fazer ziguezague pela sala, as máquinas fotográficas faziam-no ficar tonto. Abanava as pernas enquanto debruçado lia pela vigésima vez o pequeno texto que teria que recitar em voz alta.
Olhou para o público. Todos observavam a rapariga que lia no microfone mas havia um vulto que não parava de o observar. Faria parte da corporação que o queria matar? Não seria uma morte rápida, antes pelo contrário. Queriam todos os segredos que ele detinha - e não eram poucos. Olhava para ela - já descobrira que era uma ela - com o seu cabelo comprido e óculos.
Estava mais próximo o seu momento. Agora a câmara apontava para ele. Tentou desviar o olhar, suspirava. Olhava para o teto e perguntava-se como podia a irmã ter aceite ser filmado.
-Rafael.
Era ele. Principiou a ler e piscava os olhos. Não gaguejava mas a respiração era pesada. Parou para respirar, suspirou e continuou a ler. Mantinha os olhos no papel. O tique na perna continuava, mesmo nas luzes da ribalta. Já fora ele. Mas agora, daqui a 4 pessoas seria ele novamente. Teria de fazer um anúncio. Olhava outra vez para o papel, agora já com menos nervosismo. Brincava com o pé mas de forma mais lenta. Olhava agora um ponto à distância mas rapidamente voltava para a rapariga. Ainda não tirara os olhos dele. Porque teria de estar ali? Sim, ele participara de forma livre, mas nunca pensar. Quer dizer, sabia que ia passar mas não que estaria na prova oral. Okay, sim, suspeitava que passasse mas pensava que a televisão não estaria ali.
Piscava os olhos várias vezes. Ela não era bonita mas tampouco era feia. Usava óculos vermelhos, um lenço rosa por cima de um casaco preto com calças de ganga. Tinha o cabelo atado num elástico e sorria muitas vezes.
Agora já gaguejava. Hesitava várias vezes. Estava a correr-lhe mal. Não fazia anúncios como os se outros, hesitou muitas vezes e, além de se culpar a si próprio por ceder ao nervosismo, culpava o facto de graças a ele não poder ser filmado com medo de serem apanhados.
Ouvia os outros a relatarem os seus anúncios e sentia-se triste. Rafael era moreno e, com as luzes pelas quais as centenas de pessoas os viam parecia ainda mais moreno. Estava interessado nos outros, tudo para fugir das câmaras dos quais ainda se ouviam os flash. Ria das patifarias que os colegas, inconscientes do perigo que ele passava, faziam. Achavam que os pais deles eram apenas muito conservadores. Mas ele não tinha pais. Não queria pensar nisso agora, enquanto esperava os resultados. Saberia daqui a pouco se ganharia ou não. Sabia que a irmã diria quando ele chegasse a casa de mãos a abanar. Ficaria triste por ele mas, pensava ele, nunca saberia a terrível verdade. O júri achara-o desinteressado quando fizera o anúncio publicitário. E tinha razão, exceto por um pequeno aspeto. Não estava desinteressado, fingia estar. E, bom ator como era, correra tudo como ele queria. Ou pensava querer.
Não queria nada mais que isto. Sonhava ser editor ou até escritor. Ler centenas de obras e publicar as que estavam melhores. Ajudar os pequenos escritores a tornarem-se conhecidos. Publicar ele próprio livros. Era o sonho de uma criança, de um rapaz com 17 anos, mas um sonho impossível.

Não que ele fosse mau a escrever, antes pelo contrário. Mas não podia ser conhecido, nunca. Tudo por causa da sua memória infalível e da sua curiosidade. Bolas Rafael! Perdera o concurso e? Encolhia os ombros e via as horas. Já sabia. Fizera-o de propósito mas mesmo assim custava-lhe. E não era pouco. Nem triste parecia. Saiu do palco e quase que correu para a sua professora. Atrás dela estava a rapariga.
-Vamos embora, vamos já.
-Rafael correu bem.
-Não percebem - Não podia contar porque andava sempre a mudar a casa dentro da mesma cidade. Não poderia explicar porque nunca convidava ninguém para a sua casa. Ou porque era reservado. Tampouco podia explicar porque surgira a meio do ano letivo anterior com três irmãos à pendura e fora morar para um apartamento pobre. Não podia explicar a ninguém porque não se podia exibir, mostrar os seus dotes culinários e a sua veia de escritor. Não podia participar em nenhuma rede social ou autorizar a tirar fotos. Tudo por causa dele. Lamentava-se poucas vezes mas quando o fazia sabia que havia alguém pior que ele. E nem era preciso sair de casa. Os seus irmãos passavam o mesmo que ele, senão pior. A sua irmã mais velha, Beatriz, fora ginasta de competição e chegara a ir aos Jogos Olímpicos. Agora, devido a um erro dele não podia fazer mais que brincar nas barras que tinham em casa ou observar as antigas colegas que ainda competiam. O seu irmão pequenino ainda não sofria como ele mas, longe dos seus amiguinhos da primária e num meio totalmente novo, sentia-se triste. Não viviam sozinhos, mas era como se fosse. De semanas a semanas aparecia uma assistente social e de dois em dois dias passava por lá um guarda que ficava toda a noite à espreita. Durante o dia havia alguns professores incumbidos de o vigiar. Era cansativo ser protegido. Exaustivo não poder dizer a todo o mundo quem era o Rafael Luís Pedro. Era irritante ter que tirar Bom, ou seja 16 para não dar nas vistas. De vez em quando "despistava-se" e lá vinha um 19 ou um 20. Nessas alturas, avisado que não podia tirar notas altas tinha de escrever nas provas o suficiente para um 12 ou ser mal comportado nas aulas.
Tudo começara quando eles viviam ainda em Pombal. Rafael sempre fora um aluno brilhante, apesar de não ser marrão. Também não prestava grande atenção nas aulas – antigamente. O que o distinguia das outras pessoas e acabara por ser a grande causa da desgraça da família deles ( juntamente com a sua infindável curiosidade) fora a sua doença. Esta doença não era como as normais – tinha tantos prós como contras. Não fora devido a um vírus que ele a apanhara. Nascera com ela. Na cabeça daqueles que não a possuíam não era uma maldição, mas sim um milagre. Não precisava de estudar, de cadernos para apontar as coisas nem pouco de ouvir as coisas duas vezes.
Só poucas pessoas no mundo a possuíam e ele era, infelizmente, uma delas. Já se perguntara qual a probabilidade de em milhões e milhões de pessoas ele ter o azar/sorte de ter uma memória infalível. Nascera com a doença, mas não a notara imediatamente. Só perto dos oito, nove anos é que se desenvolvera. Começara com simples coisas, decorar, sem dar por isso, números de telefones, nibs, e inclusive ser capaz de descrever um quarto apenas por o olhar durante meia dúzia de segundos.
Os seus humildes pais não deram muita importância; portadores de poucos ou nenhuns estudos não sabiam que ter a memória que o filho demonstrava ter era algo raro, quase único. Fora educado, ao contrário dos colegas, com pulso de ferro. Apesar de ter levado alguns tabefes, sentia saudades da voz autoritária do pai que lhe indicava sempre o caminho certo, em especial agora que sabia ser o causador da desgraça da família, e que tanto precisava de conselhos.
-Rafael estás bem?
-Diga? – Submerso nos seus pensamentos não reparou que a professora estava a falar com ele até que os seus colegas o abanaram.
-O que disse?
-Perguntei se estavas bem. – Respondeu de forma ríspida. Odiava que os alunos não lhe prestassem atenção. Olhou para ele, um rapaz solitário e voltou a dirigir-lhe a palavra, de forma mais doce – Não te preocupes. É a primeira vez que participas, para o ano correrá melhor. – Sorriu como que a encorajá-lo.
Primeiro não percebeu ao que se referia, até que se apercebeu que esta pensava que era a primeira vez que ele era escolhido para ir à fase Nacional. Claro que pensava. Para eles, ele não passava de um rapazinho tímido, burro, que cabulava (era a única explicação lógica para ele ter notas tão irregulares)."

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terça-feira, setembro 11, 2012 - 10:07

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