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Um conto - 2009

Aqui estava eu, numa ilha desabitada à procura de comida e um lugar para dormir quando encontrei uma casa escondida atrás de uma rocha gigante. Devem-se estar a perguntar como é que há uma casa numa ilha desabitada. E como é que eu estava numa ilha desabitada. E como é que encontrei a casa. Vou explicar-vos: Até há bem pouco tempo eu era uma bióloga marinha de sucesso e também uma grande aventureira e quando me propuseram viajar pelo Oceano Pacífico durante seis meses para observar espécies marinhas, não recusei.
Partimos numa Sexta-feira 13. Toda a tripulação estava com receio de irmos nesse dia. Houve alguns que imploraram e outros que nos ofereceram dinheiro para partirmos noutro dia e houve outros que inclusive se foram embora, sendo muito supersticiosos. Eu não acredito nisso. A sorte somos nós que a fazemos.
Lá consegui convencer a tripulação a partir, com a ajuda de outro biólogo marinho, um homem elegante, que tal como eu se ria da tripulação. Partimos finalmente às três da tarde, quatro horas depois do que deveria ter sido a nossa partida. A tripulação era constituída, maioritariamente, por homens. Havia apenas 8 mulheres, 5 das quais trabalhavam no navio. Éramos 10 biólogos, 2 biólogos marinhos, 4 aéreos e 4 terrestres. Só depois de três dias de viagem e de estarmos já longe da costa é que nos contaram o que íamos fazer: íamos explorar um arquipélago perto do Cabo Horn (o Cabo Horn fica na ponta da América do Sul, um cabo muito perigoso de se passar) que tinham descoberto há pouco tempo. Não tínhamos informação nenhuma sobre o arquipélago, e pelo que estava a reparar, as pessoas que nos tinham contratado também pouco sabiam. Apenas nos disseram que este arquipélago tinha sido descoberto há poucos meses e que tinham logo decidido contratar apenas os melhores biólogos para explorar a ilha, porque nós conhecíamos todas as espécies e poderíamos verificar se lá havia espécies em vias de extinção ou espécies que não poderiam viver com o ser humano ao mesmo tempo. Senti-me orgulhosa de ser uma das pessoas que tinham escolhido mas mesmo assim, estava aborrecida.
“Ou seja, tirando o discurso todo, temos de arriscar a nossa pele e ir para um arquipélago cheio de espécies que poderão ser carnívoras” pensei eu mas o que disse foi completamente diferente:
-Que máximo! Vai ser uma experiência completamente diferente… Quando chegaremos lá?
-Quando é que vocês lá chegarão, é a melhor pergunta. Nós só vamos até meio caminho. Quando avistarmos uma das ilhas vocês vão nos barcos até lá. Vão ser separados em duas equipas e cada equipa vai para uma ilha. E ficarão lá durante os seis meses, sozinhos. – Informou uma das pessoas que nos contrataram.
Fiquei de boca aberta a olhar para ele. Sozinhos…? Seis meses…? Fantástico! Embora tenha de admitir que era um pouco arriscado. Ia para perguntar sobre a comida quando o Daniel, o outro biólogo marinho, fez essa mesma pergunta.
-É claro que levarão comida! Nós não somos nenhuns assassinos capazes de vos mandar para as ilhas sem comida!
-Ai não? Quem nos separa em equipas sabendo muito bem que poderá ter animais carnívoros e que juntos teremos mais hipóteses, e nos manda para umas ilhas que nunca foram exploradas sem nos avisar de nada, é muito bem capaz disso, não acha? – Perguntou Daniel, afastando-se de seguida.
“Será que ele teria alguém de muito importante na sua vida e não se tinha despedido? A sua mulher, talvez?” perguntava-me enquanto via a sua silhueta musculada desaparecer pela porta. Estava tão aborrecida quanto ele, mas encarava esta estadia no arquipélago como uma aventura e achava que se ele também o encarasse assim, seria muito mais feliz.
Por isso, num impulso fui atrás dele, enquanto os meus colegas ficavam lá trás a olhar para mim, espantados. Bati à porta antes de entrar e quando entrei, ele estava deitado na cama a olhar para o tecto, com um olhar abstraído.
-Estás zangado por não te teres despedido de alguém? - Fui directa ao assunto. De que valia enrolar a conversa até perguntar o que realmente queria?
-Não estou zangado. Estou com medo.
-Medo que quê? De poderes morrer? – Perguntei suavemente enquanto me sentava na cama dele.
-Nada disso. Tenho medo de ficar separado de ti quando fizerem a distribuição de pessoas pelas ilhas. – Respondeu-me, sentando-se na cama, pegando-me na mão e olhando para mim.
Não era esta a resposta que estava à espera. Não era mesmo. Eu e ele tínhamo-nos tornado próximos nos três dias de viagem, não fazendo nada separados mas nunca tínhamos falado da vida pessoal um com o outro. Ambos sabíamos que a viagem só duraria seis meses e depois, o que aconteceria? Ele era Inglês e eu era Americana mas ambos falávamos português um com o outro, fazendo assim com que nenhuma outra pessoa a bordo percebesse o que dizíamos. Eram todos chineses, japoneses e Ingleses. Não era nada a resposta que estava à espera, mas agradava-me. Peguei-lhe na cara com as mãos, suavemente e beijei-o. Beijou-me também e ficamos ali, a beijarmo-nos até que soou a sineta para o jantar. Saímos dali juntos, de mãos dadas.
Nessa noite aconteceu algo que iria mudar a minha vida para sempre. Eram cerca das dez da noite quando ouvi os gritos. Levantei-me rapidamente da cama e acordei o Daniel. Ele levantou-se assim que o chamei, vestimos ambos um robe e saímos para o convés. Parecia que estava num pesadelo: as velas voavam ao vento, as ondas passavam por cima do barco, inundando tudo, e toda a tripulação estava a tentar lutar contra a força da tempestade. Vimos o capitão do navio, um sujeito largo de ombros e muito forte cair ao mar, e a ser arrastado pelas ondas enquanto esbracejava. O Daniel abraçou-me para me impedir de ver aquele espectáculo desastroso. O barco balançava-se de um lado para o outro e o Daniel agarrava-me para não cair borda fora. Vi os meus colegas a gritarem, agarrados uns aos outros. A última coisa que vi foi o balançar das ondas enquanto o Daniel e os meus colegas me punham nos botes e eles entravam também.
-Daniel…
-Sossega querida. Já estamos a salvo. – Disse, enquanto remava afastando-se do navio. Nesse preciso momento o bote virou.

Agora já sabem como aqui vim ter. Quando acordei não sabia onde estava. Cheirava-me a maresia e levantei-me quando senti uma onda a molhar-me. Olhei em volta e vi árvores à minha frente. Virei-me ao contrário e vi o mar. “ Onde estou?” perguntei-me antes de a resposta me vir imediatamente ao pensamento. “ Numa ilha”. Subitamente a noite anterior veio-me ao pensamento.
-Daniel? – Gritei. Ninguém me respondeu e pensei logo o pior. “Estará morto?” Não… não pode ser…. De repente o meu estômago roncou. “E agora?”. Tentei lembrar-me de mais alguma coisa da noite anterior mas após o bote ter virado não me lembrava de nada. “Onde estará o bote?” Olhei para o mar e não o vi em lado nenhum, nem sequer destroços. “Talvez esteja do outro lado da ilha. Vou procurá-lo, mas antes tenho de comer”. Comecei a andar a custo para dentro das árvores. “ Espero que não haja espécies carnívoras como eu e o Daniel temíamos”. Parei com um arquejo. Pensar no  Daniel fazia o meu coração começar aos pulos. “Ora, bolas. Estou mais apaixonada do que deveria estar.” Entrei nas árvores que afinal faziam parte de uma imensa floresta.
Já sabem como é que cheguei à ilha e quem sou. Agora é tempo de continuar a minha aventura pela ilha “Lama”.
Estava a andar há uma hora e meia, sem quase nada no estômago, descalça quando encontrei uma bananeira ao pé de uma rocha gigante. Estava com tanta fome que comecei a trepar a bananeira para apanhar bananas. A Bananeira era muito alta, tinha uns dez metros de altura (eu sei, é mesmo muito alta, mas tudo nesta ilha era gigante). Comecei a trepar a árvore e quando lá cheguei acima (nem sei como cheguei; a árvore era mesmo alta) olhei à minha volta e reparei que conseguia olhar por cima da rocha. Fiquei estática e ia caindo da árvore abaixo com o que vi lá bem ao fundo, do outro lado da rocha. Uma casa! Como…? Uma casa…? Numa ilha, aparentemente deserta…?
“A única explicação era ter ido parar a uma ilha habitada, mas com o que já caminhei já devia ter encontrado pessoas ou então bati com a cabeça e estou a ver coisas… Ou então vive aqui alguém, nesta ilha deserta!” Animei-me com esta hipótese e comecei a descer a Bananeira, rapidamente. Quando cheguei ao chão, apercebi-me de um pequeno pormenor. “ Como é que se vai ter à casa?”. Boa pergunta. E também deve ter uma boa resposta… agora tenho é de saber qual é.
Mexi e remexi na pedra, apalpando todos os centímetros, até que desisti, e estafada e esfomeada, sentei-me no chão. Pousei a mão no chão e senti uma superfície mole abaixo da minha mão. Carreguei nela e o chão começou a tremer. Deitei-me no chão (pensava que era um tremor de terra) mas só durou 20 segundos. Continuei deitada no chão pois podia ter réplicas. Como nunca mais tremeu, procurei com a mão a rocha para me apoiar para conseguir-me levantar. Procurei e procurei mas não a encontrei. “ Mas que…?”Olhei para onde supostamente estava a rocha só conseguia ver a casa lá ao fundo. “Uau” era só o que conseguia pensar. Atravessei a rocha e enquanto me ia aproximado cada vez mais da casa (que não era uma casa mas sim um casarão) ia ficando com a boca cada vez mais aberta e o meu coração pulava de excitação. Do lado direito da casa estava um campo de searas infindável com bananeiras, macieiras, laranjeiras, árvores de fruta-pão (não sei como se chama a árvore, mas a fruta-pão é muito boa), entre muitas outras; o campo tinha também plantas, bancos, esculturas… Era uma paisagem linda.
Do meu lado direito estava um lago gigante, rodeado por estátuas de estranhos animais: pareciam camelos mas a cara era mais achatada e não tinham bossas. No lago havia imensos animais a beberem água e a lavarem-se e o mais importante, a coexistirem pacificamente.
Surpreendida e maravilhada avancei para a casa lentamente. Quando lá cheguei bati à porta e observei melhor a casa. “ É feita de mogno e de carvalho”, pensei. Como ninguém veio à porta (e eu não esperava que viesse) entrei… e estaquei. Linda é a única palavra que eu tenho para aquela casa. Toda feita com mogno e carvalho, tinha aquele cheirinho característico da floresta e fez-me sentir em paz comigo mesma. Olhei em volta e para cada sítio que olhava soltava uma exclamação. Por fim, não resisti mais e percorri a casa toda até chegar à cozinha. Um banquete estava posto na mesa como se alguém soubesse que eu iria chegar e me tivesse preparado comida. Nem sequer pensei duas vezes e comecei a comer. Era tudo feito à base de vegetais, frutos e ovos caseiros, e estava uma delícia! Satisfeita, levantei-me e percorri o resto da casa até mais uma vez parar. Fui ter ao quarto. Eram quatro e só vi o primeiro e o segundo. O primeiro estava cheio de recordações. Parecia que quem tinha vivido aqui tinha tido uma vida muito feliz e cheia de recordações. Imagens a aguarelas de cães, gatos e de um homem. Suspeitei que não tivesse sido ele a pintar a sua própria imagem mas outra pessoa, talvez a sua mulher. Não entrei no quarto, só fiquei à porta porque tinha demasiadas recordações e não queria perturbar o espírito daquele homem, provavelmente já morto. Fui até ao outro quarto, mesmo ao lado e mal entrei, vi um papel na cama. Fui até lá (este quarto parecia despido, e tinha a coberta puxada para trás e além disso tinha um pijama ao pé do papel, como se mais uma vez, alguém soubesse que eu iria para ali) e peguei no papel. Lá estava escrito o seguinte:

Querida Max,
Deves estar-te a perguntar quem sou, como me chamo, como sei o teu nome e onde estás. Bem, em relação à primeira pergunta não te posso responder, pensa apenas que sou quem vai tomar conta de ti até faleceres. Chamo-me Ângelo, e sei o teu nome porque eu vou cuidar de ti, e para isso preciso de te conhecer. Esta ilha chama-se ilha Lama e aquelas estátuas que viste no lago são Lamas. Os Lamas são da família dos camelos, daí as suas parecenças. Não te assustes, nem faças nenhuma maluquice como por exemplo (não o faças!) ires para a água e tentares sair daqui a nado. Nem sequer tentes fugir de barco, porque, lamento dizer-te, não vais conseguir. Eu sei isso, porque já tentei. Muita vez. Sou aquele homem que está pintado na aguarela. Bolas, não te deveria ter dito isto. E, não, eu não morri. E, sim, fui eu quem me pintei a mim próprio. Eu, tal como tu, vim ter a esta ilha desabitada de seres humanos e, contra tudo o que se poderia esperar, adorei viver aqui. Os animais não me atacavam, apenas ficaram um pouco perturbados quando aqui cheguei, porque não sabiam o que lhes ia acontecer. Então, comecei a construir esta casa. Quando acabei, foi precisamente no momento em que os barcos, sabe-se lá como, localizar esta ilha e vieram imediatamente para aqui. Assustado, corri para aqui, e trouxe todos os animais que consegui e fechei a única saída com a rocha. Deves estar-te a perguntar como é que os trouxe e porque é que não fui com eles. Simples, primeiro odiava a minha vida e gostava de aqui viver com os animais e segundo à medida que os dias passavam comecei a conseguir comunicar com eles. Não tenho tempo para dizer mais nada. Apenas que amanhã dir-te-ei uma coisa e, essa sim, mudará a tua vida. Dorme bem.
P.S: Veste o pijama, deita-te e respira bem fundo.

  Mecanicamente, sem saber o que pensar ou dizer, vesti-me, deitei-me, respirei bem fundo e uma calma invadiu-me como há muito tempo que não acontecia e adormeci.
Quando acordei não sabia onde estava, mas um papel ao lado da minha cabeça e o cheiro a floresta fez-me recordar. Sentei-me e vi outro papel aos pés da cama. Apanhei-o e quando o li, saltei da cama, vesti-me e corri para a praia.

Querida Max,
Dormiste bem? Sem grandes paleios, vou dizer-te algo. Acho que saberás o que fazer quando leres o que te digo. Ah, já agora, antes disso, todos os dias haverá comida na mesa e tudo o que precisam. Só precisam de tratar bens os animais e viverão felizes.
Aqui vai o que te queria dizer: Aquele cujo faz o teu coração bater quando nele pensas está vivo e de boa saúde e acabou de chegar agora à praia.
Quando lá cheguei não vi ninguém mas tive um pressentimento que daí a nada já o teria nos meus braços. Uma onda desenrolou-se na praia e nela vinha o objecto dos meus sonhos. Estava inconsciente e corri para o tirar da água. Deitei-o no chão e vi que não estava a respirar, mas sorri porque sabia que ele iria viver e que viveríamos os dois felizes naquela ilha chamada Lama.

Fiz respiração boca-a-boca e quando estava na terceira tentativa de o fazer voltar à vida, ele tossiu e abriu os olhos. Quando olhou para mim parecia desorientado mas assim que me reconheceu, sorriu-me, eu sorri-lhe e inclinei-me para o beijar.

Levantou-se, a custo, com a minha ajuda.
-Onde estamos?
-Isso importa saber neste momento?
-Não. Como saímos daqui?
-Não saímos.
-Ai não? Tencionas ficar aqui até morreres?
-Não. Tenciono ficar aqui até morrermos.
Olhou para mim, como se eu estivesse doida e quando se apercebeu do que queria dizer, sorriu-me e beijou-me.
Caminhámos juntos até à nossa nova casa e fiquei feliz ao ver que ele gostava tanto como eu da ideia de estarmos sozinhos, numa ilha que era nossa e que tínhamos todo o tempo do mundo para nos conhecermos melhor e para sermos felizes, juntos.

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sábado, fevereiro 18, 2012 - 18:38

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