A mensagem na garrafa - conto de Natal (AjAraujo)

"... Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo." (Dom Hélder Câmara)

Cenário

Era uma bela manhã de sábado, caminhava bem cedo na estreita faixa de praia, as ondas suaves molhavam meus pés, a maré estava baixa. Ainda havia restos das festas de réveillon, da virada do ano, como pequenos barcos, palmas de Santa Rita e flores, das oferendas dos cultos afro-brasileiros.

Em alguns trechos da areia havia gente dormindo, após a ressaca das comemorações, além de muitas latas e garrafas de cerveja, uísque e espumante. Os garis trabalhavam já bem cedo para recolherem as sobras da festa, para trás ficavam as lembranças do ano que passara, e a maré não demorava a batizar a praia do novo ano.

O sol já despontava no horizonte, os primeiros raios douravam o manto d´água, tendo ao fundo belíssima paisagem na Praia das Dunas, em Cabo Frio. Enquanto caminhava absorto em meus pensamentos, e porque não admitir “revendo as minhas promessas” para o novo ano, eis que, subitamente, avisto uma garrafa boiando sob as ondas.

Em princípio blasfemei interiormente, como podem jogar objetos cortantes na areia? O meu primeiro impulso fora o de recolher a garrafa e colocá-la em uma das lixeiras próximas. Havia sempre o risco de o vidro quebrar-se com o impacto das ondas na maré alta, ao meio dia. Mas, ao aproximar-me tive grata surpresa, parecia de um vidro bem antigo.

Então, dei asas à imaginação, quem sabe provinha de alguma embarcação, talvez algum marujo afogando a solidão marítima com goles de rum, havia oferecido a Netuno um pouco da bebida.
Quando olhei mais de perto pude observar que havia algo no interior da garrafa. Ah, de imediato, recordei de estórias contadas em minha juventude. Imagina que brincadeira é esta?

Mas, de queixo caído, então vi perplexo, um velho papel amarelado estava enrolado dentro da garrafa. Então, cuidadosamente retirei a rolha de cortiça que estava bem presa e puxei o que na verdade era um pergaminho.

Ao abrir, havia uma mensagem em inglês arcaico, talvez vitoriano, com letras bem escritas, possivelmente a pena. Então, recolhi o raro objeto, me certifiquei que não era observado e resolvi interromper o passeio matinal e ir direto para o apartamento de praia, para buscar ajuda nos dicionários para traduzir aquele texto, tamanha era a minha curiosidade.

Então, após várias tentativas buscando dicionários atuais e antigos na internet, o que consegui chegar mais perto foi esta tradução livre do texto:

Os homens são seres feitos para viajar!
Então, o que estás esperando?
Toma teu barco e desbraves os mares,
- Ainda que te assustes com as tempestades -

Não tenhas medo!
Sigas as correntes e os ventos do viver.
Pois, de todas as viagens que farás,
Aquela que mais próximo de ti chegará

Será aquela cujas barreiras internas
Tu transporás, enfim conseguirás
Assim no silêncio fecundo d'alma,
O teu despertar encontrarás...

Epílogo

Fiquei longo tempo lendo, relendo e meditando sobre esta mensagem da garrafa, afinal o que ela queria me transmitir?

Como a célebre frase de Teilhard de Chardin: “Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual, somos seres espirituais passando por uma experiência humana”, a vida é repleta de sinais, que transformam esta experiência terrena em um caminho para a evolução espiritual.
Após intenso mergulho nos mares plácidos d´alma, acordo suado, olho no relógio, já são 16 horas, como dormira tanto tempo?

Olhei para a mesa e vi o rascunho da tradução da mensagem, mas quanto à garrafa onde se encontrava? Foi então que me dei conta, que naquele período havia devolvido a garrafa ao mar, afinal o criador da mensagem poderia desejar ela fosse encontrada por outras pessoas em outras partes do mundo.

Havia muitos oceanos para percorrer e, muitas praias a visitar, a garrafa com a mensagem foi uma benção no primeiro dia do ano.

AjAraujo, o poeta humanista.

Este Conto está no livro que recentemente publiquei pela Amazon.com "A Chaminé - e-book de contos e fantasias de Natal", disponível no site: 
https://www.amazon.com.br/Chamin%C3%A9-Contos-fantasias-Natal-ebook/dp/B...

Submited by

Sunday, December 4, 2016 - 12:46

Prosas :

No votes yet

AjAraujo

AjAraujo's picture
Offline
Title: Membro
Last seen: 7 years 31 weeks ago
Joined: 10/29/2009
Posts:
Points: 15584

Add comment

Login to post comments

other contents of AjAraujo

Topic Title Replies Views Last Postsort icon Language
Poesia/Intervention Orfeu Rebelde (Miguel Torga) 0 7.741 02/22/2012 - 11:57 Portuguese
Poesia/Meditation Os homens amam a guerra (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 2.883 01/22/2012 - 11:13 Portuguese
Poesia/Dedicated Eppur si muove [Não se pode calar um homem] (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 4.114 01/22/2012 - 10:59 Portuguese
Poesia/Intervention O Leitor e a Poesia (Affonso Romano de Sant´Anna) 0 10.985 01/22/2012 - 10:48 Portuguese
Poesia/Intervention Um despertar (Octavio Paz) 0 4.029 01/21/2012 - 23:14 Portuguese
Poesia/Aphorism Pedra Nativa (Octávio Paz) 0 6.448 01/21/2012 - 23:10 Portuguese
Poesia/Intervention Entre Partir e Ficar (Octávio Paz) 0 4.617 01/21/2012 - 23:05 Portuguese
Poesia/Aphorism Fica o não dito por dito (Ferreira Gullar) 0 3.852 12/30/2011 - 07:19 Portuguese
Poesia/Intervention A propósito do nada (Ferreira Gullar) 0 4.185 12/30/2011 - 07:16 Portuguese
Poesia/Intervention Dentro (Ferreira Gullar) 0 11.814 12/30/2011 - 07:12 Portuguese
Poesia/Thoughts O que a vida quer da gente é Coragem (Guimarães Rosa) 2 4.364 12/26/2011 - 20:55 Portuguese
Poesia/Dedicated Adeus, ano velho (Affonso Romano de Sant'Anna) 0 4.562 12/26/2011 - 11:17 Portuguese
Poesia/Meditation Para que serve a vida? 0 4.552 12/11/2011 - 00:07 Portuguese
Poesia/Dedicated Natal às Avessas 0 4.151 12/11/2011 - 00:03 Portuguese
Poesia/Intervention A voz de dentro 0 5.996 11/18/2011 - 23:14 Portuguese
Poesia/Intervention As partes de mim... 0 3.553 11/18/2011 - 23:00 Portuguese
Poesia/Thoughts Curta a Vida "curta" 0 4.627 11/13/2011 - 12:46 Portuguese
Poesia/Intervention Lobo solitário 0 7.257 11/13/2011 - 12:46 Portuguese
Poesia/Thoughts A solidão na multidão 0 8.552 11/13/2011 - 12:43 Portuguese
Poesia/Thoughts Não permita que ninguém decida por você... Seleção de Pensamentos I-XVI (Carlos Castañeda) 0 13.666 11/12/2011 - 11:55 Portuguese
Poesia/Thoughts Não me prendo a nada... (Carlos Castañeda) 0 5.004 11/12/2011 - 11:37 Portuguese
Poesia/Thoughts Um caminho é só... um caminho (Carlos Castañeda) 0 6.258 11/12/2011 - 11:35 Portuguese
Poesia/Meditation Procura da Poesia (Carlos Drummond de Andrade) 0 3.713 11/01/2011 - 12:04 Portuguese
Poesia/Intervention Idade Madura (Carlos Drummond de Andrade) 0 5.222 11/01/2011 - 12:02 Portuguese
Poesia/Meditation Nosso Tempo (Carlos Drummond de Andrade) 0 6.661 11/01/2011 - 12:00 Portuguese