Os meus gastos dias

OS MEUS GASTOS DIAS
Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar no livro, não posso vingar-me completamente nas palavras por a solidão ter agarrado tempo de mais a minha juventude. Os meus dias, os meus gastos dias levados como um galope de cavalo que revolve a terra e que mostra em segredo a distancia de eu não ter corpo e de já não ter pensamento. Eu fico um pouco alegre por ninguém saber a idade do rio. Nunca ninguém pergunta sobre a idade dele, nalgum romance pode surgir um por de sol e um homem que se apaixona e não arrasta a margem dos anos para o seu peito enamorado e jovem. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta salpicar o rosto de água salgada e fumar o amarelo cigarro enquanto o fumo è uma nuvem ou um pássaro doente que me olha enquanto eu olho o diário. Estou com o rio, não estou perto dele, na verdade não estou com ele, mas falo-lhe quando os homens ficam fechados e as mãos não se abrem, mesmo que não esteja com ele, ele dá-me água e limpa-me os meus olhos tristes e mesmo que tenham sido muitas vezes aquela è a vez em que eu sou criança e sinto vontade de mexer os braços da vida e de ser tão completo como uma cor a germinar o céu. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que por mim passam as estações e eu deixei de inventar aquela que todos os dias me amava quando eu não acreditava e agora não acredito nas palavras mas quero o fogo e as pessoas pois tenho frio e è melhor um pouco de calor, è melhor quando aceito este momento e consigo chorar porque o rio não me faz perguntas e o vento atira-me para a terra quando já não consigo dançar com a vida. Agora que os meus gastos dias vão se aproximando eu tento uma longa viagem, podem as estrelas acompanhar-me e podes tu lembrar num relance de olhos que a eternidade è o livro que fica e a gota do vinho que resta no copo e tu escutarás a mesma musica e do resto fica a sombra e o pó dos caminhos selvagens. Os meus dias os meus gastos dias, já não tenho sangue para verter mas se ainda puder ouvir vidas de encantar e utopias de não sentir morrer. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho e o tabaco e o perfume, só isso sobre a terra, quero renascer e se a chuva cair que o rio me proteja e a noite tenha o direito de me abandonar. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar completamente no livro, nem vingar-me nas palavras que fazem o ódio nos homens. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho ou umas asas para voar se eu tiver coragem para me lançar da janela infinita. Os meus dias, os meus gastos dias, dias gastos a procurar e a esconder, dias em que se tentou fazer de novo o amor e o teu corpo febril ficava no meu e havia um espaço entre o desejo que eu tinha e o teu modo de experimentares a mão da natureza e a minha mão no teu sexo. Os meu dias, os meus gastos dias, a cama onde ainda cheiro o teu corpo que espera e nós agora juntos na mesma esperamos que seja o momento de ficarmos dissolvidos no mesmo coração, no mesmo habito de entrelaçar nos dedos as nossas seguras duvidas do amor e da vida e da morte absoluta que è o prazer de tudo isto. Os meus dias, os meus gastos dias agora que me falta ver um cão a dormir no livro sujo e o vagabundo a vomitar nas escadas do museu de arte contemporânea, agora que o cão me ama e o vagabundo não me julga e agora que ainda há álcool no copo e a fogueira ainda está acesa, Ò minha amiga ò meu amigo peço as vossas mãos, não as vossas palavras, mas as vossas mãos, assim talvez a minha viagem e o meu segredo possa ficar entre mim, vocês e o rio.

Lobo 05

Submited by

Tuesday, May 19, 2009 - 17:02

Prosas :

No votes yet

lobo

lobo's picture
Offline
Title: Membro
Last seen: 8 years 9 weeks ago
Joined: 04/26/2009
Posts:
Points: 2592

Add comment

Login to post comments

other contents of lobo

Topic Title Replies Views Last Postsort icon Language
Poesia/Love Ao contrário 0 2.984 09/20/2011 - 16:08 Portuguese
Poesia/Thoughts A noite no meu corpo 0 1.789 09/20/2011 - 14:31 Portuguese
Poesia/Love Como posso esquecer 1 2.250 09/20/2011 - 01:17 Portuguese
Poesia/Thoughts Queria vê-la fixe 0 2.758 09/19/2011 - 14:43 Portuguese
Poesia/General Batata quente 1 3.455 09/19/2011 - 00:51 Portuguese
Poesia/General Ela era o meu atraso 0 2.575 09/17/2011 - 21:20 Portuguese
Poesia/Thoughts O meu gato 0 2.694 09/16/2011 - 17:10 Portuguese
Poesia/General Guardando no bolso os recados 0 2.016 09/13/2011 - 15:05 Portuguese
Poesia/Meditation Eu rezo 2 3.155 09/13/2011 - 01:11 Portuguese
Poesia/Love Se o olhar me cortar as lágrimas 0 4.884 09/05/2011 - 11:41 Portuguese
Poesia/Thoughts Quando a noite foge do corpo 1 1.959 08/23/2011 - 21:49 Portuguese
Poesia/Dedicated O esquecimento mata a liberdade 0 2.553 07/28/2011 - 15:32 Portuguese
Poesia/Disillusion Vou devagar 0 2.179 07/24/2011 - 18:05 Portuguese
Poesia/Dedicated A madrugada é uma flor 0 2.710 07/23/2011 - 18:23 Portuguese
Poesia/Thoughts Deitado com os braços no ombro imaginário 0 1.772 07/21/2011 - 20:48 Portuguese
Poesia/Song Senhora fada madrinha 0 2.257 07/20/2011 - 21:12 Portuguese
Poesia/Thoughts A casca do tremoço 0 4.685 07/19/2011 - 19:10 Portuguese
Poesia/Dedicated A pátria presa ao carro de bois 0 2.961 07/19/2011 - 13:39 Portuguese
Poesia/General O homem e o mar 0 1.696 07/18/2011 - 19:00 Portuguese
Poesia/Thoughts Se Lisboa fosse assim 0 2.700 07/17/2011 - 23:05 Portuguese
Poesia/Thoughts Se Lisboa fosse assim 0 2.508 07/17/2011 - 23:05 Portuguese
Poesia/Thoughts Como vamos ficar 0 3.047 07/14/2011 - 17:58 Portuguese
Poesia/Love Lembro aquela estrela 1 2.019 07/13/2011 - 14:42 Portuguese
Poesia/Thoughts A cidade é o meu vazio 0 1.865 07/13/2011 - 07:44 Portuguese
Poesia/Dedicated Os teus passos 1 3.439 07/12/2011 - 19:15 Portuguese