As Filhas do Sapateiro III (A Inveja)

A Inveja

O tempo corria entre as colinas como o vento primaveril que sopra no coração dos enamorados em dias repletos de felicidade. Aos dois amantes uniram-se anéis de profundos resguardos divididos entre o amanhecer do dia e o cair da noite. Absorvidos em admirações e encantos, permaneciam alheios ao veneno cuspido pelas entranhas do seu próprio lar, quando receberam na sua casa uma nova criada e futura mãe solteira que acolheram como se dela se tratasse.
No aconchego da Casa Grande, as irmãs brilhavam em trajes bordados de finas cores disfarçando o despeito que sentiam pela felicidade da jovem irmã, como se tivessem sido despojadas de algum amor que outrora lhes pertencera. Viviam como donas e senhoras da vida alheia dispondo de suas vontades junto à criadagem impondo ordens e disparando desejos.
O tempo da caça marcava uma época de aproximação entre nobres que se envolviam nas caçadas entre florestas durante dias. Grandiosos bosques foram plantados para que senhores cavalgassem acompanhados por seus cães na caça ora à raposa por divertimento, ora por caçar animais a seu bel-prazer.
Renitente, o futuro pai evidenciou a sua vontade em aguardar o nascimento do filho, preferindo acompanhar de perto as dores da sua amada e toda a felicidade daí resultante, porém foi convencido pelas duas cunhadas a acompanhar a caçada.
Os rapazes nasceram com uns lindos sinais que lembravam o quarto crescente na testa de um e o quarto minguante na testa do outro, figurando as marca da lua. O trabalho de parto, assegurado pelas irmãs e assistido pela criada mais velha e experiente da casa, foi demorado deixando a jovem mãe num abatimento total pelo esforço ao nascimento de dois bebes.
Quis a coincidência, que a criada acolhida tivesse dado à luz algumas horas antes um belo rapazinho de corpinho, pés, mãos e rosto pequeninos. Os olhos da criada ainda brilhavam na emoção de ser mãe, quando a irmã mais velha aperta o perfeito rosto pequenino contra uma toalha, sugando-lhe a vida!
A troca foi efectuada com tanta rapidez, como um raio saído numa noite escura em que o barulho ensurdecedor se entranhou no medo de quem assistiu.
As mãos da parteira queimavam com o peso das jóias e da perseguição ao zelo, enquanto saía escondida com os bebés dentro de um cesto, incumbida de os matar.

(continua)

Carla Bordalo

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Friday, March 12, 2010 - 11:23

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mariacarla

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Re: As Filhas do Sapateiro III (A Inveja)

Um Universo bem construido, história bem sedimentada e com emoções á flor da pele.
Lindissimos momentos em nós cravados, a cena da caça, as más linguas de serviço, ao serviço da inveja.
O parto em si...Um passado ludico e bem contruido, um fiel retrato de uma época, e vou lendo e gostando...muito!

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