filho
Hoje lembrei-me do filho mais velho. Lembrei-me com nostalgia. Como me aquecia, morno. E como ainda me aquece lembrar-me dele. Recordo quando o vi pela primeira vez, tão pequeno. E como o amei desde o inicio. Aquecem-me as memórias das suas brincadeiras desajeitadas, da troca de carinhos, dos nossos arrufos. Aqueço. E depois as minhas ausências. Que tinham de ser, porque a vida assim o exigia. E como a sua mãe me contava o quanto ele me sentia a falta. O quanto ele me queria. Que quase chorava quando eu partia. E nessas alturas, o como eu ficava orgulhoso. Custava mas ficava orgulhoso de saber que gostava dele como ele gostava de mim. Sabe tão bem sabe-lo. Redimia-me daquelas vezes que lhe ralhava e nos chateávamos, ou mesmo das alturas que não lhe ligava porque não estava para ralhar, só porque não. Na redenção, dava-lhe carícias, e doces, e prendas, mimos gratuitos que sempre tiveram troco. Sempre.
Custou-me quando saí de casa. Custou-me mais ainda quando, saído de casa, o soube doente. Morri mais um pouco quando o quis ver, e por muros e barreiras intransponíveis, levantados pela dor infantil de adultos, não lhe consegui tocar. Nunca mais. Nunca pensei que fosse algo demasiado grave, pois todos sabiam o quanto o gostava e nunca me esconderiam algo relevante. Errado.
Liguei para lhe ouvir a voz. Para falar. Para saber dele. Para ele saber de mim. Sempre quis saber. E sempre nada. Sempre me lembro dele e sempre gosto dele.
Lembro-me de o ver com o mais novo a brincar. Inseparáveis, os rufias. O mais novo, com os dentes tortos desde sempre, com as brincadeiras ruins, a aleijá-lo, e ele nada. Pacifico. Que rufias os dois.
No natal o telefone tocou. Era grave afinal. Estava doente, dizia ela a chorar. Era grave e nada me disse. E morreu. Morreu. Quis ofende-la. Queria lhe bater. Não me disse. Não me deixou vê-lo. Nem uma ultima vez me deixou vê-lo. Nem para me despedir. Nem me despedi. Não o vi pela última vez. Morreu. Morreu e nem o vi pela última vez.
Lembro-me de ti, filho. Não me esqueço. Quero a minha última vez.
Não me esqueço.
Submited by
Prosas :
- Login to post comments
- 1191 reads
other contents of Moon_T
| Topic | Title | Replies | Views |
Last Post |
Language | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Prosas/Others | luta de mim | 1 | 1.052 | 11/13/2009 - 20:06 | Portuguese | |
| Prosas/Lembranças | Cinco da manha | 1 | 952 | 11/13/2009 - 18:51 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Amo-te cansa | 4 | 882 | 10/30/2009 - 17:13 | Portuguese | |
| Poesia/Gothic | crepusculo de pesadelo | 4 | 809 | 10/28/2009 - 22:38 | Portuguese | |
| Poesia/Passion | Casa Vazia | 6 | 731 | 10/23/2009 - 19:44 | Portuguese | |
| Prosas/Lembranças | Amolador de facas | 0 | 1.087 | 10/23/2009 - 18:16 | Portuguese | |
| Prosas/Thoughts | Tenho tanta coisa para escrever | 0 | 1.081 | 10/18/2009 - 12:31 | Portuguese |
- « first
- ‹ previous
- 1
- 2
- 3
- 4






Add comment