Por Ti Seguirei... (17º episódio)

(continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/48845.html)

- “Entretanto, tu, Avelda, escolhe mais dois camaradas e vão substituir estes nossos bravos, que acabam de chegar. É essencial vigiar as manobras dos Romanos e mantermos sempre um passo à frente deles. Nós seguimos para ocidente, com travessia dos píncaros Cantábricos. Se os inimigos iniciarem marcha, regressem com o vento a avisar-nos”, instruiu Alépio.
Segundo as sortes traçadas, os grupos partiram para os seus destinos. O principal dirigiu-se para a montanha. Certamente que os Romanos logo o saberiam, através da sua bem dotada rede de informadores. Era premente ganhar alguma vantagem sobre os que os iriam perseguir.
Com as energias repostas e ansiosos por pôr pé a caminho retomaram a jornada com as montanhas a ganharem crescente dimensão. Os trilhos eram poucos, estreitos e sinuosos, mas bem calcorreados, sobretudo pelos pastores. Seguiam numa estendida fila e, praticamente, todos aos pares, por cada um dos cavalos. Dado o esforço dos animais, acrescido pela inclinação do terreno, decidiram revezar-se na montada. Por todas as razões, a deslocação perdeu dinâmica e tendeu a arrastar-se.
A delonga tinha também a sua vantagem: estavam numa daquelas zonas sagradas de fronteira entre as paisagens já marcadas pela mão do Homem e as áreas elevadas e virgens da natureza, redutos secretos dos Deuses e onde ao ser humano só era permitido aceder por breves momentos, de passagem. A Primavera espreguiçara-se sobre os domínios dos senhores e dos servos, evidenciando mais um ciclo afortunado e abençoado. Regalava a vista.
Durante os 3 primeiros dias, os Celtas não se aproximavam das aldeias que iam encontrando. Passavam à distância e de forma oculta. Quando careciam de mantimentos, nomeadamente, o pão de bolota, enviavam apenas dois ou três elementos para os adquirirem. Todavia, a sua presença era notada por muitos dos que, nas suas actividades, deambulavam pela montanha.
Prestes a entregarem-se aos desígnios que os aguardavam nos picos das serranias, decidiram repousar num dos últimos lugares arborizados. O souto que os recebia era magnífico. Árvores ancestrais, de cintura larga e feições maduras, expunham engalanados os belos e viçosos ouriços, ainda pequenos, mas muito prometedores. Preparavam a recompensa futura, resguardada, em desafio, dentro de uma formidável couraça de espinhos. Lembravam-se os Celtas que deveriam ser como os ouriços, se os Romanos lhes queriam roubar a sua pátria.
Enquanto ai permaneciam e os demais dormitavam, Rubínia divertia-se a entrelaçar flores silvestres, formando coroas, as quais ia acumulando, ora na cabeça de Tongídio, ora nos seus braços e armas. Este, imbuído da mesma felicidade, ria-se e devolvia com a mesma e outras brincadeiras. Pareciam um casal de recentes núpcias.
Num momento de perseguição alegre, em correria - num daqueles em que o predador quer ser a presa -, Tongídio foi o primeiro a ver aproximar-se um cavalo a passo lento. Percebia-se que trazia alguém com o dorso tombado sobre a crina. Pelas insígnias e outros sinais, era Celta! Cerrou o sorriso e correu ainda mais, direito ao animal.
Confirmava-se: tratava-se de Reburrino, um dos guerreiros enviados para espiar o inimigo. Estava moribundo, ferido por duas setas, uma que trespassara o ombro e outra no flanco baixo das costas. Tinha perdido muito sangue e estava inconsciente, contudo ainda respirava.
Tongídio recolheu sobre si Reburrino, com o cuidado de não piorar os ferimentos. Logo outros se aprestaram em ajudá-lo e também a tratar o heróico animal que o havia levado até ali, até aos seus.
Rapidamente lhe fizeram uma liteira e deitaram-no de peito para baixo. Rubínia, a mais experiente no tratamento de feridas de guerra, começou por partir as hastes das setas, enquanto pedia que fervessem água e lhe fossem buscar certas ervas. Depois e aproveitando a dormência compulsiva do ferido, Rubínia, munida de um punhal bem afiado e previamente incandescido no fogo, rasgou o suficiente do corpo do infortunado para lhe retirar a ponta de seta que tinha embebida junto dos rins. A de cima, que tinha vazado o ombro, foi apenas necessário puxar pela frente o corpo do projéctil, através da sua ponta de ferro. Reburrino estremeceu brevemente e continuou ausente. Lavaram-no com as ervas e a água. Ficou a descansar, com um respirar mais natural.
Devido aos recentes acontecimentos, o grupo celta acabou por adiar a viagem e pernoitar naquele lugar, desconhecendo o risco que se abeirava.
Já próximo do raiar do dia, Reburrino começou a manifestar-se, despertando totalmente a semi-dormente Rubínia, que passara toda a noite em vigília e cuidado, combatendo a febre do padecente com contínuos panos frescos sobre o rosto e limpando as feridas lacrimantes, em constância. De tal modo que, pela alba, Reburrino recuperou a consciência e mostrava-se ansioso por falar, apesar da sua frágil condição. Rubínia chamou Alépio e os restantes representantes dos clãs.
Em silêncio, rodearam o convalescido e aguardaram. Não tardou a ouvirem-no. Com os olhos muito vivos, tomou-lhes a atenção com a voz mais firme que encontrou: - “Meus amigos e, entendo agora, minha senhora de guarda, Rubínia, - de quem serei servo de ora em diante e se viver -, é preciso fugir, fugir! Cada movimento do sol no céu é uma oportunidade perdida. Os Romanos estão sobre nós!
Não tivemos tempo de os avisar com antecedência. O inimigo surpreendeu-nos! A perto de meio dia de nos despedirmos, encontramos pelo caminho aquele que parecia ser mais um prisioneiro evadido. Fiquei escondido, enquanto Avelda e Munir foram ao encontro do estranho. Quando os companheiros trocaram palavras com o sujeito ele gritou: “Fujam!”. De imediato, todos os três foram atingidos por lanças e setas. Os Romanos estavam escondidos, em cilada. Já vinham em nossa demanda e traziam um isco.
Queria ir socorrê-los, porém, entendi que era mais importante cumprir a minha missão: avisar-vos. Incitei o cavalo, e quando já pensava estar a salvo, cruzei-me com um bando de Arevacos. Lutei e matei dois deles, evitando escaramuças desnecessárias dada a presença do inimigo principal. Contudo, chegaram mais Arevacos e atingiram-me com flechas. Cavalguei sem parar e mantive a consciência até bem perto deste lugar, até que Bandu toldou a minha visão e me ordenou adormecer.
Sei que os Romanos, talvez com a orientação dos Arevacos estão próximos. Via-os, muitos, ao longe, quando passava em lugar alto, sobranceiro a planície. A Legião, inteirinha, vem aí! Não deve estar a mais de um dia de distância… Temos de seguir. Coloquem-me num cavalo que eu aguento”.
Alépio suspirou. Afinal o destino tinha-se antecipado aos seus planos. Mas nada estava perdido. Tinham apenas de fazer algumas adaptações – pensou - para se focar e orientar os camaradas.
-“Que Avelda e Munir tenham ganho os seus machados sagrados e as graças do soberano do reino ulterior dos guerreiros. A ti, Reburrino, saúdo e venero a tua coragem e padecer pelo bem dos outros.
Partimos pois, que é urgente. Até parece que já sinto o cheiro emproado do respirar dos romanos. Estamos quase a alcançar o rio Ebrol, vamos acompanhá-lo na direcção da sua nascente. Deve haver um sítio onde o possamos atravessar. Quanto mais para o interior e alto da serra arrastarmos a Legião romana, mais possibilidades teremos de sucesso. Lá em cima não têm fontes de alimento, nem conseguem utilizar o seu extraordinário arsenal e táctica militar. Assim como, o número de efectivos terá um valor muito relativo”.
(continua…)

Andarilhus
XXV : VIII : MMX

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Wednesday, August 25, 2010 - 22:20

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