Aquele que...

No berço da nua terra erudida
Desponta a anónima flor do Homem.
No horizonte acende-se um original sol acolhedor,
Assinala a madrugada da redenção do amor!

A fúria do parto irrompe em torrente de aguas mansas,
Para célere afogamento do leito de cascalho dos corações secos.
Da humilde manjedoura rebentam as raízes da imponente árvore frondosa,
Abrigo e refúgio de todas os espíritos cansados e famintos.

Alguém chega para dar o sinal de partida
Da epopeia pela mais bela rota do universo sagrado da alma.
Alguém declara guerra para justificar a paz
Entre consciências adormecidas no torpor do egoísmo.

Um singular carpinteiro talha com a precisão de mestre
A rija matéria da intolerância humana:
Desbasta a madeira bruta, paciente e graciosamente,
Até que do sofrimento faz emergir a obra desejada.

O pescador caminha sobre as águas, como em exemplar pedestal,
Orientando passos tresmalhados ao encontro das sandálias da virtude.
O pescador lança redes de seda sobre cardume humano,
Inspirando, na sabedoria de suas malhas, a rendida multidão.

Da boca do filósofo transbordam palavras como marés de chuva,
Acolhidas sofregamente pelos pensamentos mais sedentos.
Um orador brilhante irradia as cores da partilha,
Colírios para os olhos fatigados pelo remorso da cobiça...

O arauto do futuro fulmina o presente com exemplos do passado.
Exorta à renovação e anuncia a revolução do amor!
O profeta dos tempos filtra doces visões de esperança,
Cativa e espevita os sentidos da assembleia dos incrédulos.

Um novo político abala o sistema com ideologias humanistas:
Revolta-se contra as desigualdades mundanas e revela a democracia espiritual.
O partido inovador ameaça as instituições corruptas;
Escuda-se com a verdade, investe com a tenacidade da paixão!

O peregrino enfrenta o pântano das inconveniências apoiado no bastão da fé,
Pelos trilhos do destino irriga com suor as raras flores do deserto.
O eremita tentado em dúvida confronta a sombra
Ansioso por revelações que o conduzam ao destino traçado.

A boa-vontade atravessa os portões da cidade eterna.
Serpenteia conformado nos meandros do marginal oásis de oliveiras.
Um condenado abdica da liberdade do corpo,
Empenhando-se, com convicção, pelo retorno de um beijo.

O mártir, humilhado, arrasta-se para o vértice do juízo
Carregando humildade e sofrendo a dor alheia.
O carpinteiro morre enfim, feliz, no madeiro a que dera forma,
Como o castor, preso na sua obra, sufoca após trasbordante cheia...

Andarilhus “(º0º)”
MCMXC

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Friday, March 21, 2008 - 14:42

Poesia :

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Andarilhus

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MariaSousa's picture

Re: Aquele que...

A História descrita num poema.
Muito bom!

Feliz Páscoa!

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