Claustro Fobia.

Prisão de sonho envolto em pó dourado,
onde me abraças esperançado...
Claustro do meu rasto solto,
envolto em betão cego e morto,
cimento que sopras no meu pulmão,
enquanto me acenas de gaiola na mão...
Os comedores estão cheios?
Admiras orgulhoso os poleiros
que me construíste...
Quando decidiste ser meu dono?
As asas das minhas guias foram cortadas
por dentadas...
Entro...
Os braços medem o espaço que os confinam,
os pulmões definham num ar a conta-gotas...
E eu não grito porque não posso...
As ampulhetas viraram-me as costas,
Os passos confinados no chão,
a mão tacteando limites impostos,
rostos que me analisam a toda a hora...
Clausura insegura de olhos perscrutantes,
que me condena em pena, à pena,
nas penas que me despiram..
Não me roubes o ar...
Morta de que te valho?
Sobrevivo melhor longe,
meus pulmões são velas soltas,
ou velas acesas...
Temo e corro...
E morro na areia do tempo...
Deixo-me ir para um purgatório metafórico...
Dizes e pensas que me amas...
Mas matas-me às migalhas...
Há um escrutínio cruel nos teus dedos de pincel...
Que só me tocam para ler mensagens subliminares,
para ver se eu gemo ou temo alto o suficiente...
Queres marcar-me a carne com um ferro em brasa?
Etiquetar-me?
Por-me uma corrente à volta da alma?
Vendas-me os olhos
mas eu mesmo
cega vejo o mundo la fora...
Agora está na hora de abrir a gaiola...
Encerro a minha porta à tua lupa,
fecho-me em casa...
Desculpa...
Mudei-me e não deixei contacto,
num acto irreflectido e protegido...
Odeio caixas fechadas e mulheres amordaçadas...
Quanto mais me apertaste,
mais escorri entre os dedos...
Não tenho segredos,
nem símbolos secretos...
Por baixo da minha pele, só carne e sangue...
O espaço da prisão que detens na tua mão,
esta preenchido por ti...
És o maior grilhão da tua perna,
essa angustia eterna é a tua tumba...
Desculpa, apaga a lupa, apaga a luz,
apaga a dor...
O amor não se vê...
Sente-se...
Aqui a única gaiola sempre foi tua...

Inês Dunas
Libris Scripta Est

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Lunes, Septiembre 20, 2010 - 00:20

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Comentarios

Imagen de MargaridaRibeiro

Re: Claustro Fobia.

Há pessoas cuja força de nos matarem é tão grande que morremos vivas em cada odor que nos toca a pele. Morre-se pelo amor demasiado que se nos pega e aprisionamos o pássaro do eu num querer mais comum só porque um dia pareceu tão bom...

Há pessoas com esse poder: de esgotar a luz, ficando mais belas ao apagar da candeia...enquanto a Lua se desdobra no céu quase parece ser possivel esquecer a cama sombria que serve de leito.

Poema muito bonito. Sentimentos fortes.

:-)

Imagen de Henrique

Re: Claustro Fobia.

Claustro do meu rasto solto,
envolto em betão cego e morto,
nesse cimento que sopraste no meu pulmão,
enquanto me acenas de gaiola na mão...

Odeio caixas fechadas e mulheres amordaçadas...

Desculpa, apaga a lupa, apaga a luz,
apaga a dor...
O amor não se vê...
Sente-se...
Aqui a única gaiola sempre foi tua...

Poema em tom de aviso, um socorro vindo do profundo da alma até à tona das tuas sempre poéticas palavras!!!

:-)

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