CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

Arras por Foro de Espanha - Capítulo I: A arraia-miúda

O sino das ave-marias ou da oração, tinha dado na torre da Sé a última badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do castelo e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores, enquanto as ruas, tortuosas e imundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles boas tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada do que a própria Rua Nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia aí desacostumado e estranho eram o completo silêncio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o Paço de a par S. Martinho, onde então residia el-rei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente caído na calmaria e sonolência que vem após a procela.

E assim era, com efeito, como o leitor poderá averiguar por seus próprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado quiser entrar connosco na mui afamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da Sé, na rua que sobe para os Paços da Alcáçova, sete ou oito portas acima dos Paços do Concelho.

A taberna de micer Folco Taca, genovês que viera a Portugal ainda impúbere, como pajem de armas de famoso almirante Lançarote Pessanha, e que havia anos abandonara o serviço marítimo para se dar à mercância, era a mais célebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço, e pela bondade dos líquidos encerrados nas cubas monumentais que a pejavam, mas também porque, em um aposento mais retirado e interior, uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos os escabelos ofereciam todo o cómodo aos tavolageiros de profissão para perderem ou ganharam aí, em noites de jogo infrene, os belos alfonsins e maravedis de ouro ou as estimadas dobras de D. Pedro I, o qual, ao contrário dos seus antecessores e sucessores, julgara ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso do que roubando-lhe o valor intrínseco e aumentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no começo do seu reinar.

Micer Folco soubera estender grossas névoas sobre os olhos do corregedor da Corte e de todos os saiões, algozes e mais família da nobre raça dos aguazis sobre a ilegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que ele empregara para produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse; mas é certo que não se perdeu com a alquimia, porque se vê que ele existe em mãos abençoadas, produzindo, ainda hoje, repetidos milagres, em tudo análogos a este.

Era, pois, na taberna-tavolagem da Porta do Ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequência da vizinhança dessa porta da antiga cerca, onde os ruídos vagos e incertos que sussurravam pelas ruas da cidade soavam mais alta e distintamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava até o breve terreirinho da Sé, falando todos a um tempo, acesos, ao que parecia, em violentas disputas, que às vezes eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasfêmias, indício evidente de que o sucesso que motivava aquela assuada ou tumulto era negócio que excitava vivamente a cólera popular.

Já no fim do século décimo quarto era o povo, assim como hoje, colérico. Então cóleras da puerícia; hoje aborrimentos da velhice.

Se na rua o burburinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras ameaçadoras, sem que fosse possível perceber contra qual ou quais indivíduos se acumulava tanta sanha. ara outra parte, dentre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se revelava nos seus coromens de pano de arrás, nos cintos escuros, nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esganiçadas, nas quais se manifestavam, profundamente impressos, o descaro e a insolência daquelas desgraçadas. Em cima dos vufetes viam-se pichéis e taças vazias, e debaixo de alguns deles corpos estirados, que simulariam cadáveres, se os assobios e roncos, que, às vezes, sobressaíam através do ruído daquele respeitável congresso, não provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do entusiasmo, tinham adormecido na paz de uma boa consciência. Enfim, a composta e bem reputada taberna do antigo companheiro de glória de micer Lançarote estava visívelmente prostituída e nivelada com as mais imundas e vis baiucas de Lisboa. O gigante popular tinha aí assentado a sua cúria feroz, e pela primeira vez o vício e a corrupção tinham transposto aqueles umbrais sem a sua máscara de modéstia e gravidade. Sobre os farrapos do povo não têm cabida os adornos do ouropel. É a única diferença moral que há entre ele e as classes superiores que se crêem melhores, porque no ginásio da civilização aprendem desde a infância as destrezas e os mornos de compostura hipócrita.

O astro que parecia alumiar com a sua luz, aquecer com o seu calor aquele turbilhão de planetas, o centro moral à roda do qual viravam todos aqueles espíritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta anos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e cintilantes, cabelo negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bufetes que adornavam o amplo aposento e rodeado de uma grossa pinha de populares de ambos os sexos que o escutavam em respeitoso silêncio, a sua voz forte e sonora sobressaía no ruído e só se confundia com alguma jura blasfema que se disparava do meio das outras pinhas de povo ou com as modulações das risadas que vibravam naquele ambiente denso e abafado, de certo modo semelhante a clarão afogueado que sulcasse ràpidamente as trevas húmidas e profundas da cripta subterrânea de alguma igreja de sexto século.

De repente, dois cavaleiros, cuja graduação se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças de seda golpeadas e pelos cintos de pele de gamo lavrados de prata, entraram na taberna e, rompendo por entre o povo, que lhe alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circunstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daqueles cérebros vinolentos de o indagar; mas a mesma reflexão atou simultâneamente todas as mãos. Ao longo da coxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado direito e apertado no cinto, que a ponta erguida do capeirote deixava aparecer, escortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de consideração, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens de armas, principalmente besteiros, quase todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o pôr-lhe o visto popular.

Os dois desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que, de quando em quando, meneava a cabeça, fazendo um gesto de assentimento; depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma espécie de receio misturado de respeito, e foram sentar-se em dois dos escabelos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bufete, com as cabeças apertadas entre os punhos, ficaram imóveis e como alheios ao sussurro que começava a levantar-se de novo à roda deles.

Este durou breves instantes; um psiu do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquela banda. Subindo a um escabelo, ele deu sinal com a mão de que pretendia falar.

— Ouvide, ouvide! - bradaram alguns que pareciam os maiores daquela multidão desordenada.

Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas mãos calosas erguerem-se encurvadas e formarem em volta das orelhas de seus donos uma espécie de anel acústico. O orador principiou:

— Arraia-miúda!, tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos bem falantes e avisados para propor vossos embargos e razoados contra este maldito e descomunal casamento de el-rei com a mulher de João Lourenço da Cunha?

— Todos à uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques - respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios de uma das lâmpadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares. - Quem há aí entre a arraia-miúda mais discreto e aposto para tais autos que vós? Quem com mais urgentes razões proporia nosso agravo e a desonra e vilta de el-rei do que vós o fizestes hoje na mostra que demos ao paço esta tarde?

— Alcácer, alcácer!, por nosso capitão Fernão Vasques - bradou uníssona a chusma.

— Fico-vos obrigado, mestre Bartolomeu Chambão! - replicou Fernão Vasques, sossegando o tumulto. - Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a adúltera chega a ser rainha: pelo de amanhã terei as mãos decepadas em vida, se el-rei com as suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tende vós por averiguado, mestre Bartolomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da corda na garganta que eu o ponto em peitilho de saio ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnete de um cristão que a vossa enxó numa aduela de pipa!

— Nanja enquanto na minha aljava houver almazém, e a garrucha da besta me não estourar - exclamou um besteiro do conto, cambaleando e erguendo-se debaixo de um bufete, para onde o haviam derribado certas perturbações de entusiasmo político.

—Amen, dico vobis! - gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de estentor brigavam com o hábito de grosseiro burel e com as desconformes camândulas que lhe pendiam da cinta.

— Olé, Frei Roy Zambrana, fala linguagem cristenga, se queres vir nesse bodo por nossa esteira - bradou um petintal de Alfama que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores, barqueiros e baleotes daquele bairro, então quase exclusivamente povoado de semelhante gente.

— Digo por linguagem - acudiu o beguino - que ninguém como mestre Fernão Vasques é homem de cordura e sages para amanhã falar a el-rei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Teles, do mesmo modo que ninguém leva vantagem ao petintal Airas Gil em ousadia para fugir às galés de Castela e para doestar os bons servos da igreja.

Era alusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu à mordente desforra de Frei Roy, que abaixou os olhos com certo modo hipòcritamente contrito, semelhante ao gato que, depois de dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

Frei Roy era também, como Airas Gil, um ídolo popular, e a má vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascera da emulação; de uma dúvida cruel sobre a altura relativa do trono de encruzilhada, do trono de lama e farrapos em que cada um deles se sentava.

Se, pois, aquela multidão não estivesse persuadida da superioridade intelectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dois oráculos não lhe teria deixado a menor dúvida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de raízes que nascera num dia, e num dia lançara profundas raízes nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisonjeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dois resultados: o de ganharem mais crédito entre este e o de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broquéis populares.

Mas que auto era esse de que o povo falava? Sabê-lo-emos remontando um pouco mais alto.

O amor cego de el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço da Cunha, Dª Leonor Teles, havia muito que era o pasto saboroso da maledicência do povo, dos cálculos dos políticos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principais cavaleiros de Portugal, Dª Leonor, ambiciosa dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho pronto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favorável. Quanto a el-rei, a paixão violenta em que este ardia lhe assegurava a ela o completo domínio no seu coração. Mas as miras daquela mulher, cuja alma era um abismo de cobiça, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vanglória de ver a seus pés um rei bom, generoso e gentil. Através do amor de D. Fernando ela só enxergava o refulgir da coroa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas carícias, a idéia primordial de todas as suas idéias. Leonor Teles não amava el-rei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor dela; e este príncipe, que seria um dos melhores monarcas portugueses, e que a muitos respeitos o foi, deixou na história, quase sempre superficial, um nome desonrado, por ter escrito esse nome na horrível crónica da nossa Lucrécia Bórgia. Uma dificuldade, quase insuperável para outra que não fosse Dª Leonor, se interpunha entre ela e os seus ambiciosos desígnios. Era casada! Um processo de divórcio por parentesco, julgado por juízes afectos a Dª Leonor ou que sabiam até alcançava a sua vingança, a livrou desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, aterrado, fugiu para Castela, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a ocultas com ela, muito antes da época em que começa esta narrativa, viu enfim satisfeito o seu amor insensato.

Aqueles dentre os nobres que ainda conservavam puras as tradições severas dos antigos tempos indignavam-se pelo opróbrio da coroa e pelas consequências que devia ter o repúdio da infanta de Castela, cujo casamento com el-rei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no carácter de D. Fernando. Entre os que altamente desaprovavam tais amores, o infante D. Dinis, o mais moço dos filhos de Dª Inês de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco eram, segundo parece, os cabeças da parcialidade contrária a Dª Leonor: aquele pela altivez de seu ânimo; este por gratidão a D. Henrique de Castela, em quem achara amparo e abrigo no tempo dos seus infortúnios, e que o salvara da triste sorte de Álvaro Gonçalves Coutinho e de Pêro Coelho, seus companheiros no patriótico crime da morte de Dª Inês.

O casamento de el-rei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desaprovavam souberam transmitir ao povo os próprios temores, e a agitação dos ânimos crescia à medida que os amores de el-rei se tornavam mais públicos. D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução que tomara, e estes, posto que a princípio lhe falassem com a liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo as suas diligências baldadas, contentaram-se de condenar com o silêncio essa mal-aventurada resolução. O povo, porém, não se contentou com isso.

Conforme as idéias daquele tempo, além das considerações políticas, semelhante consórcio era monstruoso aos olhos do vulgo, por um motivo de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, como o será em todos os tempos em que a moral social for mais respeitada do que o era naquela época. Tal consórcio constituía um verdadeiro adultério, e os filhos que dele procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal e, por consequência, como fiadores da sucessão da Coroa.

A irritação dos ânimos, assoprada pela nobreza, tinha chegado ao seu auge, e a cólera popular rebentara violenta na tarde que precedeu a noite em que começa esta história.

Três mil homens se tinham dirigido tumultuàriamente às portas do paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozearia e o estrépido que fazia aquela multidão desordenada assustou el-rei, que por um seu privado mandou perguntar o que "lhes prazia e para que estavam assim reunidos". Então o alfaiate Fernão Vasques, "capitão e procurador por eles", como lhe chama Fernão Lopes, afeiou em termos violentos as intenções de el-rei liberalizando a Dª Leonor os títulos de má mulher e feiticeira e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento adúltero. A arenga rude e veemente do alfaiate orador, acompanhada e vitoriada de gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu el-rei a responder com agradecimento às injúrias, e a afirmar que nem Dª Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, prometendo ir na manhã seguinte aclarar com eles este negócio no Mosteiro de S. Domingos, para onde os emprazava. Com tais promessas, pouco a pouco se aquietou o motim, e ao cair da noite o terreiro de a par S. Martinho estava em completo silêncio. Como se, na solidão, el-rei quisesse consultar consigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidraças coradas das esguias janelas dos paços reais, que vertiam quase todas as noites o ruído e o esplendor dos saraus, cerradas nesta hora e caladas como sepulcro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrépido das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacilavam, ficavam imóveis, aglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se aglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como elas. Feroz na sua cólera razoada, ferocíssimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triunfo; e as estrelas de serena noite de Agosto, semelhantes a lâmpadas pendentes de abóbada profunda, alumiavam o sarau popular, as salas do seu folguedo, a praça e a encruzilhada. Era conjuntamente truanesco e terrível.

Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principais desta história, para inserir, talvez fora de lugar, o prólogo ou introdução a ela) as aclamações frenéticas dos populares tinham tornado indubitável que o "propoedor" para o ajuntamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Frei Roy era de todos os circunstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Airas Gil ajudava-o poderosamente com o ruído dos amplos pulmões dos galeotes de Alfama, contraídos como em voga arrancada, vitoriando o seu capitão. O alfaiate não pôde resistir, nem, porventura, tinha vontade disso, a tanta popularidade e, em pé sobre o escabelo, com a cabeça levemente inclinada para o peito, numa postura entre de resignação e de bem-aventurança, tremulava-lhe nos lábios semiabertos um sorriso que revelava uma parte dos mistérios do seu coração. Enfim, quando a grita começou a serenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça e com aspecto grave deu sinal de que ainda pretendia falar.

Fez-se de novo silêncio.

— Seja, pois, como quereis - disse o alfaiate -, mas vede o grão risco a que me ponho por vós outros. Falarei a el-rei com liberdade portuguesa; proporei vosso agravo e a desonra e feio pecado da sua real senhoria: mas é necessário que vós todos quantos aí sois estejais de alcateia e ao romper da alva no alpendre de São Domingos. Dizem que a adúltera é mulher de grande coração e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavaleiros seus parentes e parciais. Besteiros deste concelho, que não vos esqueçam em casa vossas bestas e aljavas! Peoada de Lisboa, levai vossas ascumas! Os trons e engenhosos do castelo - acrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitante - não vos apoquentarão, ainda que el-rei o quisesse, porque o alcaide-mor João Lourenço Bubal não é dos afeiçoados a Dona Leonor Teles. Santa Maria e Sant’Iago sejam convosco! Alcácer, alcácer pela arraia-miúda! A repousar, amigos!

— Alcácer, alcácer - respondeu a turbamulta.

— Morra a comborça! - gritou Airas Gil com voz de trovão.

— Morra a comborça! - repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens de arrás e cintos pretos que assistiam àquele conclave.

— Olha, Airas, que São Martinho fica perto, e contam que Dna. Leonor tem ouvido subtil - disse Frei Roy ao petintal com um sorriso diabólico.

Dor de levadigas te consuma, echacorvos! - replicou o petintal. Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcácer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castela e de feitiços!

O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcáceres; entre risadas e pragas; entre ameaças vãs e insultos inúteis, aquela vaga de povo contida na taberna de micer Folco espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas que nessa época jaziam, não raro, deitadas junto às raízes dos palácios na velha e opulenta Lisboa.

Com os braços cruzados, o alfaiate contemplava aquela multidão, que diminuía ràpidamente, e cujo sussurro, alongando-se, era comparável ao gemido do tufão que passa de noite pelas sarças da campina. Ainda ele tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto indelineável chamado povo, e já ninguém aí estava, salvo os dois cavaleiros, que se tinham conservado imóveis na mesma postura que haviam tomado, e Frei Roy, que se estirara sobre um dos bufetes e já roncava e assobiava, como em sono profundo.

Os dois cavaleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem não pungia nas faces; o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia caídas sobre os ombros à moda de Castela, e no rosto sulcado de rugas certificava ser já bem larga a história da sua peregrinação na Terra.

O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho, com um gesto de impaciência. Este olhou também para ele e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa, mas perceptível.

Este, como se caísse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu e, saltando do escabelo, onde ainda se conservava em pé, encaminhou-se ràpidamente para os dois cavaleiros.

— Senhor infante, que vossa mercê em perdoe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! À fé que, no meio deste arruído, quase me esquecera de que éreis aqui. Estais desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que amanhã não faltarão em São Domingos?

— Na verdade - respondeu o mancebo - que tu governas mais nele que meu irmão, com ser rei! Veremos se amanhã te obedecem, como te obedeceram hoje.

— És um notável capitão - acrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no ombro do alfaiate.

— Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens de armas, merecerias a alcaidaria de um castelo.

— Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, àquele que de mim tivesse preito e menagem.

— Bem dito! - interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que começara. - Se ta negarem, não será por não trazeres já bem estudadas as palavras do preito. Tem a certeza de que hás-de ir longe, Fernão Vasques; muito longe! Assim eu a tivera de que não me será preciso coser à ponta do punhal a boca de quem ousar dizer que o infante Dom Dinis e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do genovês Folco Taca.

Quando estas últimas palavras, proferidas lentamente, saíram dos lábios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais rápidos e trémulos.

— Quem é aquele echacorvos? - prosseguiu Diogo Lopes, apontando para Frei Roy, com gesto de desconfiança.

— É um dos nossos - respondeu o alfaiate -, um dos que mais têm encarniçado a arraia-miúda contra a feiticeira adúltera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos Paços de El-Rei. Por este respondo eu. Não ereis, senhor Diogo Lopes de lhe coser a boca à ponta de vosso punhal.

— Responde por ti, honrado capitão de arraia-miúda - replicou o velho cortesão. - Quem me responde por ele é o seu dormir profundo: quem me responderia por ele, se, acordando, nos visse aqui, seria este ferro que trago na cinta. Agora o que importa. Enquanto amanhã el-rei se demorar em São Domingos, um troço da arraia-miúda e besteiros há-de acometer o paço, e, ou do terreiro ou rompendo pelos aposentos interiores, é necessário que uma pedra perdida, um tiro em algum corredor escuro nos assegure que el-rei não pode deixar de atender às súplicas dos seus leais vassalos e dos cidadãos de Lisboa.

— Morta! - exclamou o infante, com um gesto de horror. - Não, não, Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como...

— Como ensanguentei os Paços de Santa Clara - atalhou Pacheco -, dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos disso, porque eu posso e valho com el-rei de Castela! Senhor infante, a ambição tem que saltar muitas vezes por cima dos vestígios de sangue! Vós passaste avante e não vistes os do sangue de vossa mãe! Porque hesitareis, ao galgar os do sangue de Leonor Teles? Senhor, infante, quem sobre por sendas íngremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fogo, se covardemente recua.

D. Dinis tinha-se tornado pálido como cera. Não respondeu nada: mas dos olhos rebentaram-lhe duas lágrimas.

Fernão Vasques escutou a prelecção política do velho matador de Dª Inês de Castro com religiosa atenção. E resolveu lá consigo não se deixar cair no fojo.

— Far-se-á como apontais - disse ele, falando com Diogo Lopes -, mas, se os homens de armas e besteiros de João Lourenço Bubal descerem do castelo...

— Não te disse, ainda há pouco, que João Lourenço ficaria quedo no meio da revolta? Podes estar sossegado, que não te certifiquei disso para animares o povo. E a realidade. Agora trata de dispor as coisas para que não seja um dia inútil o dia de amanhã.

Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saiu da taberna e tomou com ele o caminho da alcáçova. Fernão Vasques ficou um pouco cismado: depois saiu, dirigindo-se para a Porta do Ferro e repetindo em voz baixa:

— não me precipitarei no fojo!

Passados alguns instantes de silêncio, Frei Roy levantou devagarinho a cabeça, sentou-se no bufete e pôs-se a escutar: depois saltou para o chão, apagou a lâmpada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca, logo que o povo tumultuàriamente a inundara, chegou à porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da Sé da banda do norte e, como um fantasma, desapareceu cosido com a negra e alta parede da catedral.

Submited by

sábado, abril 11, 2009 - 23:29

Poesia Consagrada :

No votes yet

AlexandreHerculano

imagem de AlexandreHerculano
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 9 anos 28 semanas
Membro desde: 04/11/2009
Conteúdos:
Pontos: 282

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of AlexandreHerculano

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Fotos/ - Alexandre Herculano 0 676 11/24/2010 - 00:37 Português
Poesia Consagrada/Geral A Tempestade 0 620 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral O Soldado 0 443 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral D. Pedro 0 433 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Vitória e a Piedade 0 302 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Cruz Mutilada 0 843 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Voz 0 407 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Arrábida 0 591 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral Mocidade e Morte 0 395 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral Deus 0 430 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Noite do Amir 0 833 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Ao Luar 0 367 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - O Castro Romano 0 284 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Aurora da Redenção 0 519 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Impossível! 0 453 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Conclusão 0 591 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Semana Santa 0 381 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Recordações 0 452 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Meditação 0 364 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Saudade 0 472 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Visão 0 395 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - O Desembarque 0 419 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Junto de Crissus 0 690 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Traição 0 420 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Dies Irae 0 418 11/19/2010 - 16:52 Português