CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

Arras por Foro de Espanha - Capítulo II: O beguino

Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edifício imundo, miserável, insalubre, que por si só bastara a servir de castigo a grandes crimes, ainda vê na extremidade dele umas ruínas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janela gótica. Esta parede e esta janela são tudo o que resta dos antigos Paços de a par S. Martinho, igreja que também já desapareceu, sem deixar, sequer, por memória um pano de muro, uma fresta de outro tempo. O Limoneiro é um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e da segunda dinastia foram mais vezes habitados por eles. Conhecidos sucessivamente pelos nomes de "Paços de El-Rei", "Paços dos Infantes", "Paços da Moeda", "Paços do Limoeiro", a sua história vai sumir-se nas trevas dos tempos. São da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Santa Maria Maior, da venerando catedral de Lisboa, é um mistério! Se, transfigurada pelos terramotos, pelos incêndios e pelos cónegos, nem no seu arquivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas pode achar a certidão do seu nascimento e dos anos da sua vida! Como as da igreja, as ruínas da monarquia dormem em silencio à roda de nós, e, envolto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado delas, e nem sequer indaga porque jazem aí!

Na memorável noite em que se passaram os sucessos narrados no capítulo antecedente, essa janela dos Paços de El-Rei era a única aberta em todo o vasto edifício, mas calada e escura, como todas as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse atento do meio do terreiro enxergaria o que quer que fosse, alvacento, que ora se chegava à janela, ora se retraía. Mas o silêncio que reinava naqueles sítios não era interrompido pelo menor ruído. De repente, um vulto chegou debaixo da janela e bateu devagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou à janela, debruçou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegara subiu ràpidamente, e ambos desapareceram através dos corredores e aposentos do paço.

Em um destes últimos, alumiado por tochas seguras por longos braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil presença. Os seus passos eram rápidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando, parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando, às vezes, com os braços cruzados e como entregue a cogitações dolorosas.

Por fim, o reposteiro ondeou de alto a baixo e franziu-se no meio; mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, e após ela um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cinto de esparto, de onde pendiam umas grossas camândulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo de uma das paredes do aposento. O homem que passeava sentou-se também, no único escabelo que ali havia. Frei Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura abeatada.

— Aproxima-te, beguino! - disse com voz trémula el-rei; porque era el-rei D. Fernando o homem que se sentara.

Frei Roy deu uns poucos passos para diante.

— Que há de novo? - perguntou el-rei.

— O povo cada vez está mais alvorotado e jura falar rijamente amanhã a vossa senhoria. Mas essa não é a pior nova que eu trago!

— Fala, fala, beguino! - acudiu el-rei, estendendo a mão convulsa para o echacorvos.

— É que amanhã, enquanto vossa senhoria estiver em São Domingos, o áco será acometido. Pretendem matar...

— Mentes, beguino! - gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagais da Ásia. - Mentes! Podem não me querer rainha: mas assassinar-me! Isso é impossível. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as mercês que posso, não me há-de odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a opor-se ao nosso casamento; mas nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Teles.

— Prouvera a Deus que eu mentisse hoje. Seria a primeira vez na minha vida - replicou o echacorvos, com ar contrito. - Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução, haverá três credos, na taberna de Folco Taca.

— Miseráveis! - bradou, erguendo-se também, el-rei, a quem o risco da sua amante restituíra por um momento a energia. - Miseráveis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pai? Tê-lo-ão. Quem ousa ordenar tal coisa?

— Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fernão Vasques, o coudel dos revoltossos, e vosso irmão D. Dinis estava, também, com eles - respondeu Frei Roy.

O beguino era o espia mais sincero e imperturbável de todo o mundo.

— Velho assassino! - exclamou D. Fernando -, cobriste de luto eterno o coração do pai: queres cobrir o do filho. E tu, Dinis, que eu amei tanto, também entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que quase que enlouqueci!

O pobre e irresoluto monarca cobriu o rosto com as mãos, arquejando violentamente. Dª Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos lábios esbranquiçados revelavam mais ódio que terror, lançou-lhe um olhar de desprezo e, em tom de mofa, respondeu:

— Sim, senhor rei, na falta de vossos leais conselheiros, posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordai vossos pajens, que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandai-me amarrar a ele, para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me tranquilamente amanhã, sem profanar os vossos aposentos reais. Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu amor à vossa pessoa, da sua obediência aos vossos mandados.

— Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas! - gritou D. Fernando deitando-se aos pés de Dª Leonor e abraçando-a pelos joelhos com um choro convulso. - Que te fiz eu para me tratares tão cruelmente?

— Dom Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavaleiro, ou ele vem colocar a ascuma do peão sobre o trono real. Quem não sabe brandir o ferro cede; deixa-o reinar.

— Tens razão, Leonor! - disse D. Fernando, enxugando as lágrimas e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação. - Serei filho de Dom Pedro, o Cruel; serei sucessor de meu pai. Eu mesmo vou ao alcáçar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de São Martinho de pedras, de virotões e de cadáveres: os montantes e as bestas dos homens de armas e besteiros do meu alcaide-mor de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal será fiel a seu rei. Se necessário for, com minhas próprias mãos ajudarei a pôr fogo à cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que serás vingada.

D. Fernando voltou-se rápido para a porte do aposento. Frei Roy estava imóvel diante dele.

— João Lourenço Bubal - disse o espia, sem mudarde tom nem de gesto - é dos revoltosos. Ouvi-o da boca do próprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão Vasques. Os trons do alcácer estão desaparelhados, e a maior parte dos homens de armas e besteiros do alcaide-mor eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que eles chamam...

— Cala-te, beguino - gritou el-rei, empurrando-o com força e procurando tapar-lhe a boca.

O echacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar e ficou outra fez imóvel diante de D. Fernando, a quem este último golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

— ... a adúltera - prosseguiu Frei Roy acabando a frase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual no desempenho do seu ministério.

— Beguino! - atalhou Dª Leonor, com voz trémula de raiva -, melhor fora que nunca essa palavra te houvesse passado pela boca; porque, talvez, um dia ela seja fatal para os que a tiverem proferido.

— Mas que faremos?! - murmurou el-rei com gesto de indizível agonia.

— Havia ainda há pouco três expedientes - respondeu Dª Leonor, recobrando aparente serenidade -, combater, ceder, fugir. O primeiro é já impossível; o segundo! ... Porque não o aceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede à força: os teus vassalos o querem; qué-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!

— Esquecer-me de ti? Não te ver mais? Nunca! Obedecer à força? Quem há aí que ouse dizer ao rei de Portugal: "Rei de Portugal, obedece à força"? Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz, não crêem que a minha espada no campo da batalha corte arneses, como a do melhor cavaleiro? Bons escudeiros e homens de armas da minha hoste, por onde andais derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordará, como me acordou a mim; bramirá, como os lobos da serra, ao redor de vossas moradas; saltar-vos-á no meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares. No ardor de vossos amores, dir-vos-á: "Desamai!" Ele ousa já dizê-lo a seu rei e senhor... Oh, desgraçado de mim, desgraçado de mim!

— Não queres, pois, deixar-me entregue à minha estrela? - disse Dª Leonor, com voz entre de choro e de ternura, abraçando pelo pescoço o pobre monarca e chegando a sua fronte suave e pálida às faces afogueadas de D. Fernando, que, numa espécie de delírio, olhava espantado para ela.

— Não, não! Viver contigo ou morrer contigo. Cairei do trono ou tu subirás a ele.

Um sorriso quase imperceptível se espraiou pelo rosto de Leonor Teles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resignação, prosseguiu com voz lenta, mas firme:

— Então resta o fugir.

— Fugir! - exclamou el-rei. E só esta palavra era mais expressiva que narração bem extensa dos atrozes martírios que o mal-aventurado curtia no coração irresoluto, mas generoso, com a ideia de um feito, vil e covarde em qualquer escudeiro, vilíssimo num rei de Portugal, em um neto de Afonso IV.

El-rei olhou para ela um momento. Era sereno o seu rosto angélico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas iluminuras de antigos códices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do século décimo quinto, a arte moderna a muito custo pôde fazer ressurgir. O mais esperto fisionomista dificultosamente adivinharia a negrura de alma que se escondia debaixo das puras e cândidas feições de Dª Leonor, se não uniam entre os sobrolhos, contraindo-se e deslizando-se ràpidamente como as vesículas peçonhentas das fauces de uma víbora.

— Seja, pois, assim! Fujamos - murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o supliciado daria do alto do patíbulo o perdão ao algoz.

Dª Leonor tirou do largo cinto com que apertava a airosa cintura uma bolsa de ouropel e atirou com ela aos pés do beguino, que, de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semiabertos cravados na abóboda do aposento, parecia extático e engolfado nos pensamentos sublimes do céu.

— Vinte dobras de Dom Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu silêncio. O resto da recompensa tê-lo-ás um dia, se a adúltera atravessar triunfadora o portal por onde vai sair fugitiva.

O rir afável de que estas palavras foram acompanhadas dizeram correr um calafrio pela medula espinal do echacorvos, cujas pernas vacilaram. Mas o contacto das quarenta dobras que uniu imediatamente ao peito debaixo do escapulário lhe restituiu o vigor natural.

El-rei havia-se sentado, quase desfalecido, no escabelo único do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaixão. Quando o beguino levantou a bolsa, D. Fernando fitou nele os olhos e estendeu a mão para o reposteiro, sem dizer palavra.

Frei Roy curvou a cabeça, cruzou de novo as mãos sobre o peito e, recuando até à porta, desapareceu no corredor escuro por onde entrara.

Apenas os passos lentos e pesados do echacorvos deixaram de soar, Dª Leonor encaminhou-se para uma janela que dava para um vasto terrado e afastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excessível luz do sol. A noite ia em meio do seu curso, como o indicava o mortiço das tochas, que mal alumiavam o aposento, e a Lua, já no minguante, começava a subir na abóbada do firmamento, mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplêndido das estrelas. A janela estava aberta, e o escabelo de el-rei ficava próximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto belo e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado cismar, parecia alheio ao que se passava à roda dele e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolução que tomara. Leonor Teles, encostada ao mainel da janela, pôs-se a olhar atentamente. A cidade dormia, e apenas o ladro de algum cão cortava aquela espécie de zumbido que é como o respirar nocturno de uma grande povoação que repousa. Lá em baixo, uma faixa trémula, semelhante a uma ponta de luz, cortava oblìquamente o Tejo, de onde mais largo se curvava pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade, desde Sacavém até o promontório onde campeava, fora dos arrabaldes, o Mosteiro de S. Francisco, formavam uma espécie de floresta lançada entre a cidade e a sua imensa baía. Desde o terrado para o qual dava a janela até o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta íngreme e fechado com traveses e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma espécie de triângulo, cuja base assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e cujo vértice, voltado para ocidente, se coroava com a sinagoga, abrigada à sombra do vulto disforme da catedral. Pouco distante do terrado, entre o palácio e a judiaria, a claridade da Lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio arruinadas casas, que pela maior parte pareciam desabitadas. No meio dele, o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portal romano. Parecia ser uma ruína, um fragmento de edifício da antiga Olisipo, que esquecera ali aos terremotos, às guerras e aos incêndios, e ao qual finalmente chegara a sua hora de desabafar, porque uma alta escada de mão estava encostada à verga que assentava sobre os dois pilares laterais e os unia, como se ali a tivessem porto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.

Era para esse vulto que Dª Leonor se pusera a olhar atentamente.

Depois voltou o rosto para el-rei, que, com a cabeça baixa, os braços estendidos e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sobre o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaixão por alguns momentos e, estendendo para ele os braços, exclamou:

— Fernando!

Havia no tom com que foi proferida esta única palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas, no meio da brandura da voz de Leonor Teles, havia também uma corda áspera; alguma cousa do rugir do tigre.

El-rei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado uma faísca eléctrica; ergueu-se, e atirou-se a chorar aos braços de Leonor Teles.

— Amanhã - disse ele com voz afogada - o rei mais desonrado da cristande serei eu: o cavaleiro mais vil das Espanhas será Dom Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais nada. Porque não me pedem antes a coroa real, que para mim tem sido coroa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh, Leonor, Leonor!, serias a mulher mais perversa, se um dia me atraiçoasses.

Um beijo da adúltera cortou as lástimas de el-rei. A formosura desta mulher tinha um toque divino à claridade da lua. D. Fernando, embriagado de amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por ele.

— Fernando! - prosseguiu Dº Leonor -, jura-me ainda uma vez que serás sempre meu, como eu serei sempre tua.

Dizendo isto, afastou-o brandamente de si.

— Juro-to uma e mil vezes pela fé de leal cavaleiro que até hoje fui. Juro-to pelo céu que nos cobre. Juro-to pelos ossos de meu nobre e valente avô, que ali dorme junto do altar-mor da Sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado. Juro-to por mais que tudo isso: juro-to pelo meu amor!

— Bem está, rei de Portugal! - atalhou Dª Leonor. - Agora só uma cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça.

— Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruínas dela! Não me peças Lisboa, que talvez amanhã deixe de um chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quiseres.

— Quero que me dês as minhas arras: quero o preço do meu corpo, conforme foro de Espanha.

— Vila Viçosa é alegre como um horto de flores, e Vila Viçosa dar-ta-ei eu. O Castela de Óbidos é forte e roqueiro, são numerosos e prestes para defesa os seus engenhos, e o Castelo de Óbidos será teu. Sintra pendura-se pela montanha entre lençóis de águas vivas, e respira o cheiro das ervas e flores que crescem à sombra das penedias: podes ter por tua a Sintra. Alenquer é rica no meio das suas vinhas e pomares, e Alenquer te chamará senhora.

— Guarda as tuas vilas, Dom Fernando, que eu não tas peço em dote; quero, apenas, uma promessa de coisa de bem pouca valia.

— De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-ei o que me pedires.

Dª Leonor estendeu a mão para a espécie de portada romana que se erguia solitária no meio do terreiro deserto.

— É ali que tu me darás o preço do meu copo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo do teu jogo real.

El-rei lançou um rápido volver de olhos para onde Leonor Teles tinha o braço estendido, mas recuou horrorizado. O vulto que negrejava no meio do terreiro era o patíbulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldita!

— Leonor, Leonor! - disse el-rei com som de voz cavo e débil -, porque vens misturar pensamentos de sangue com pensamentos de amor? Porque interpões um instrumento de morte e de afronta entre mim e ti? Porque preferes o fruto do cadafalso às vilas e castelos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clérigo que há-de unir-nos pelo baraço áspero do algoz?

— Rei de Portugal! - respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha, com um brado de furor -, ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do ceptro de teu pai! Queres saber porque junto pensamentos de sangue a pensamentos de amor? É porque esses de quem eu o peço pediram também o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e de afronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quis também interpor entre nós a morte e saciar-me de afrontas. Queres que te diga porque prefiro o fruto do cadafalso às vilas e castelos que me ofereces? É porque para os ânimos generosos não há vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassalos que me perseguem serão também perseguidos, e que essa vil plebe que cobre de injúrias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem porque levo os seus caudilhos ao patíbulo. Este é o preço do meu acorpo. Sem esse preço, a neta de Dom Ordonho de Leão nunca será mulher de Dom Fernando de Portugal.

E com um braço estendido para o lugar sem nome do suplício e com o outro curvado, como quem afastava de si el-rei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.

— Tens razão, Leonor - disse por fim D. Fernando, depois de largo silêncio, em que se afectos inconstantes do seu carácter volúvel mudaram gradualmente. - Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desagravo: as línguas que te ofenderam calar-se-ão para sempre; os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu trono, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-á a crueza. Com Judas, o traidor, seja eu sepultado no Inferno, se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injúria.

A estas palavras, o aspecto severo de Dª Leonor Teles mudou-se em um sorrir de inexplicável doçura.

— Ah, como te hei-de amar sempre! - murmurou ela. E estas palavras caíam dos seus lábios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurou levado nas asas da brisa fresca da noite, selou esse pacto de ódio e de extermínio.

Submited by

sábado, abril 11, 2009 - 23:30

Poesia Consagrada :

No votes yet

AlexandreHerculano

imagem de AlexandreHerculano
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 9 anos 28 semanas
Membro desde: 04/11/2009
Conteúdos:
Pontos: 282

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of AlexandreHerculano

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Fotos/ - Alexandre Herculano 0 676 11/24/2010 - 00:37 Português
Poesia Consagrada/Geral A Tempestade 0 620 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral O Soldado 0 443 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral D. Pedro 0 433 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Vitória e a Piedade 0 302 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Cruz Mutilada 0 840 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Voz 0 407 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Arrábida 0 591 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral Mocidade e Morte 0 395 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral Deus 0 430 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Noite do Amir 0 831 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Ao Luar 0 365 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - O Castro Romano 0 284 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Aurora da Redenção 0 515 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Impossível! 0 451 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Conclusão 0 591 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Geral A Semana Santa 0 380 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Recordações 0 450 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Meditação 0 364 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Saudade 0 471 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - A Visão 0 395 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - O Desembarque 0 419 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Junto de Crissus 0 689 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Traição 0 419 11/19/2010 - 16:52 Português
Poesia Consagrada/Conto Eurico, o Presbítero - Dies Irae 0 418 11/19/2010 - 16:52 Português