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A Morte do Lidador - Capítulo III

Trinta fidalgos, flor da cavallaria corriam à rédea solta pelas campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por trezentos homens d´armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam. Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador, cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o peitoral da cota d´armas, e o terrível Lourenço Viegas, a quem pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era formoso espectaculo o esvoaçar dos balsões e signas, fôra de suas fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus, varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão.

Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada em demanda dos mouros; e no horizonte não se vêem os topos pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros, correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros; apparecem, somem-se, tornam a sair ao claro: mas no meio de tal lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito monótono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

A terra que pisam já é de mouros; é já além da fronteira. Se os olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo enxergariam Bejá. Bastos pinhais começavam já a cobrir mais ondeado território, cujos outerinhos aqui e alli se alteavam suaves como seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era necessário repousar, que o sol ia no zenith e abrazava a terra: descavalgaram todos à sombra de um azinhal, e sem desenfrear os ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas de um arroio vizinho.

Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se à rédea solta de uma selva extensa, que corria à mão direita; pouco, porém, correu; uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu desenfreado através das viegas, e desappareceu na selva. O almogavar dormia o ultimo sonno dos valentes em terra de inimigos, e os cavalleiros da fronteira de Béja viram o seu trance do repousar eterno.

"A cavallo! A cavallo! — bradou a uma voz toda lustrosa a companhia do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como aspirando os combates.

Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da direita. — "Allah! Almoleimar! — era o que dizia a grita.

Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros árabes saíram à rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos, apenas defendidas por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana iam ainda mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia árabes.

*Conto Popular Português de Autor Desconhecido, compilado por Alexandre Herculano

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sábado, abril 11, 2009 - 20:39

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