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O Alcaide de Santarém - Capítulo II

Nos paços de Azzahrat, o magnífico alcáçar dos califas de Córdova, há muitas horas que cessou o estrépito de uma grande festa. O luar de noite serena de abril bate pelos jardins, que se dilatam desde o alcâçar até o Guad-al-kebir, e alveja trêmulo pelas fitas cinzentas dos caminhos tortuosos, em que parecem enredados os bosquezinhos de arbustos, os maciços de árvores silvestres, as veigas de boninas, os vergéis embalsamados, onde a laranjeira, o limoeiro e as demais árvores frutíferas, trazidas da Pérsia, da Síria e do Catai, espalham os aromas variados das suas flores. Lá ao longe, Córdova, a capital da Espanha muçulmana, repousa da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o ilustre califa, vela pela segurança do império. A vasta cidade repousa profundamente, e o ruído mal distinto que parece revoar por cima dela é apenas o respiro lento dos seus largos pulmões, o bater regular das suas robustas artérias. Das almádenas de seiscentas mesquitas não soa uma única voz de almuadem, e os sinos das igrejas moçárabes guardam também silêncio. Ás ruas, as praças, os azoques ou mercados estão desertos. Somente o murmúrio das novecentas fontes ou banhos públicos, destinados às abluções dos crentes, ajuda o zumbido noturno da sumptuosa rival de Bagdad.

Que festa fora esta que expirara algumas horas antes de nascer a lua e de tingir com a brancura pálida da sua luz aqueles dois vultos enormes de Azzahrat e de Córdova, que olham um para o outro, a cinco milhas de distância, como dois fantasmas gigantes envoltos em largos sudários? Na manhã do dia que findara, Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fora associado ao trono. Os walis, wasires e khatebs da monarquia dos Benu-Umeyyas tinham vindo reconhecê-lo Wali-al-ahdi, isto é, futuro califa do Andaluz e do Moghreb. Era uma idéia, afagada longamente pelo velho príncipe dos crentes, que se realizara, e o júbilo de Abdu-r-rahman havia-se espraiado numa dessas festas, por assim dizer fabulosas, que só sabia dar no século décimo a corte mais polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno de Espanha.

O palácio Merwan, junto dos muros de Córdova, distingue-se à claridade duvidosa da noite pelas suas formas maciças e retangulares, e a sua cor tisnada, bafo dos séculos que entristece e santifica os monumentos, contrasta com a das cúpulas aéreas e douradas dos edifícios, com a das almádenas esguias e leves das mesquitas e com a dos campanários cristãos, cuja tez docemente pálida suaviza, ainda mais, o brando raio de luar que se quebra naqueles estreitos panos de pedra branca, donde não se reflete, mas cai na terra preguiçoso e dormente. Como Azzahrat e como Córdova, calado e aparentemente tranqüilo, o palácio Merwan, a antiga morada dos primeiros califas, suscita idéias sinistras, enquanto o aspecto da cidade e da vila imperial unicamente inspiram um sentimento de quietação e paz. Não é só a negridão das suas vastas muralhas a que produz essa apertura de coração que experimenta quem o considera assim solitário e carrancudo; é, também, o clarão avermelhado que ressumbra da mais alta das raras frestas abertas na face exterior da sua torre albarrã, a maior de todas as que o cercam, a que atalaia a campanha. Aquela luz, no ponto mais elevado do grande e escuro vulto da torre, é como um olho de demônio, que contempla colérico a paz profunda do império e que espera ansioso o dia em que renasçam as lutas e as devastações de que por mais de dois séculos fora teatro o solo ensangüentado da Espanha.

Alguém vela, talvez, no paço de Merwan. No de Azzahrat, posto que nenhuma luz bruxoleie nos centenares de varandas, de miradouros, de pórticos, de balcões que lhe arrendam o imenso circuito, alguém vela por certo.

A sala denominada do Califa, a mais espaçosa entre tantos aposentos quantos encerra aquele rei dos edifícios, devera a estas horas mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadários de muitos lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se em ângulos retos, servem de moldura ao almofadado de azul e ouro que reveste as paredes e o teto. A água de fonte perene murmura, caindo num tanque de mármore construído no centro do aposento, e no topo da sala ergue-se o trono de Abdu-r-rahman; alcatifado dos mais ricos tapetes do país de Fars. Abdu-r-rahman está aí sozinho. O califa passeia de um para outro lado, com olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como se esperasse ouvir um ruído longínquo. No seu gesto e meneios pinta-se a mais viva ansiedade; porque o único ruído que lhe fere os ouvidos é o dos próprios passos sobre o xadrez variegado que forma o pavimento da imensa quadra. Passado algum tempo, uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do trono, abre-se lentamente, e um novo personagem aparece. No rosto de Abdu-r-rahman, que o vê aproximar, pinta-se inquietação ainda mais viva.

O recém-chegado oferecia notável contraste no seu gesto e vestiduras com as pompas do lugar em que se introduzia e com o aspecto majestoso de Abdu-r-rahman, ainda belo, apesar dos anos e das cãs que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba negra. Os pés do que entrara apenas faziam um rumor sumido no chão de mármore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou túnica era de lá grosseiramente tecida, o cinto uma corda de esparto. Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos movimentos que nenhum espanto produzia nele aquela magnificência. Não era velho; e, todavia, a sua tez tostada pelas injúrias do tempo estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do califa, que ficara imóvel, cruzou os braços e pôs-se a contemplá-lo calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silêncio:

"Tardaste muito e foste menos pontual do que costumas, quando anuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua é sempre triste, como o teu nome. Nunca entraste a ocultas em Azzahrat, senão para me saciares de amargura: mas, apesar disso, não deixarei de abençoar a tua presença, porque Al-ghafir — dizem-no todos e eu o creio — é um homem de Deus. Que vens anunciar-me, ou que pretendes de mim?"

"Amir Al-muminin <1>, que pode pretender de ti um homem cujos dias se passam à sombra dos túmulos, pelos cemitérios, e a cujas noites de oração basta por abrigo o pórtico de um templo; cujos olhos tem queimado o choro, e que não esquece um instante que tudo neste desterro, a dor e o gozo, a morte e a vida, está escrito lá em cima? Que venho anunciar-te?... O mal; porque só mal há na terra para o homem que vive, como tu, como eu, como todos, entre o apetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre os seus eternos e implacáveis inimigos!"

"Vens, pois, anunciar-me uma desventura?!... Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta anos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambições têm sido satisfeitas; todos os meus desejos realizados; e, todavia, nesta longa carreira de glória e prosperidade, só fui inteiramente feliz catorze dias da minha vida<2>. Pensava que este fosse o décimo quinto. Devo, acaso, apagá-lo do registo em que conservo a memória deles e em que já o tinha escrito?"

"Podes apagá-lo — replicou o rude fakih -: podes, até, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Califa! vês estas faces sulcadas pelas lágrimas? vês estas pálpebras requeimadas por elas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se, em breve, as tuas pálpebras e as tuas faces não estão semelhantes às minhas."

O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pálido de Abdu-r-rahman: os seus olhos serenos, como o céu, que imitavam na cor, tomaram a terrível expressão que ele costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que, só por si, fazia recuar os inimigos. O fakih não se moveu, e pôs-se também a olhar fito para ele.

"Al-muulin, o herdeiro de Benu-Umeyyas pode chorar arrependido dos seus erros diante de Deus; mas quem disser que há neste mundo desventura capaz de lhe arrancar uma lágrima, diz-lhe ele que mentiu!"

Os cantos da boca de Al-ghafir encresparam-se com um quase imperceptível sorriso. Houve um largo espaço de silêncio. Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih prosseguiu:

"Amir Al-muminin, qual de teus dois filhos amas tu mais? Al-hakem, o sucessor do trono, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah, o sábio e guerreiro Abdallah, o ídolo do povo de Kórthoba?"

"Ah — replicou o califa, sorrindo — já sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde e que eu havia de sabê-la... Os cristãos passaram a um tempo as fronteiras do Norte e as do Oriente. Meu velho tio Almoddhafer já depôs a espada vitoriosa, e crês necessário expor a vida de um deles aos golpes dos infiéis. Vens profetizar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih, creio em ti, que és aceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrela dos Benu-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro, não hesitaria na escolha; fora esse que eu mandara não à morte, mas ao triunfo. Se, porém, essas são as tuas previsões, e elas têm de realizar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha, em al-djihed<3> contra os infiéis?"

Al-ghafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor sinal de impaciência. Quando ele acabou de falar, repetiu tranqüilamente a pergunta:

"Califa, qual amas tu mais dos teus dois filhos?"

"Quando a imagem pura e santa do meu bom Al-hakem se me representa no espírito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e inteligente do meu Abdallab, amo-o mais a ele. Como te posso eu, pois, responder, fakih?"

"E, todavia, é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento, entre um e outro. Um deles deve morrer na próxima noite, obscuramente, nestes paços, aqui mesmo, talvez, sem glória, debaixo do cutelo do algoz ou do punhal do assassino."

Abdu-r-rahman recuara ao ouvir estas palavras, o suor começou a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma firmeza fingida, sentira apertar-se-lhe o coração desde que o fakih começara a falar. A reputação de iluminado de que gozava Al-muulin, o caráter supersticioso do califa e, mais que tudo, o haverem-se verificado todas as negras profecias que num longo decurso de anos ele lhe fizera, tudo contribuía para aterrar o príncipe dos crentes. Com voz trêmula replicou:

"Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condenar no fim da vida a perpétua aflição, a ver correr o sangue de meus filhos queridos, às mãos da desonra ou da perfídia?"

"Deus é grande e justo — interrompeu o fakih. — Acaso, nunca fizeste correr injustamente o sangue? Nunca, por ódio brutal, despedaçaste de dor nenhum coração de pai, de irmão, de amigo?"

Al-muulin tinha carregado na palavra irmão, com um acento singular. Abdu-r-rahman, possuído de mal refreado susto, não atentou por isso.

"Posso eu acreditar tão estranha, direi antes, tão incrível profecia — exclamou ele por fim — sem que me expliques o modo como se deve realizar esse terrível sucesso? Como há-de o ferro do assassino ou do algoz vir, dentro dos muros de Azzahrat, verter o sangue de um dos filhos do califa de Kórthoba, cujo nome, seja-me lícito dizê-lo, é o terror dos cristãos e a glória do islamismo?"

Al-munliu tomou um ar imperioso e solene, estendeu a mão para o trono e disse:

"Assenta-te, califa, no teu trono e escuta-me; porque, em nome da futura sorte do Andaluz, da paz e da prosperidade do império e das vidas e do repouso dos muçulmanos, eu venho denunciar-te um grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te um filho. Sucessor do profeta, ímã<4> da divina religião do Corão, escuta-me; porque é obrigação tua ouvir-me."

O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o negro mistério que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Maquinalmente subiu ao trono, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que ele rematava, e, encostando ao punho o rosto desnudado, disse com voz presa: — "Podes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-ghafir!"

Tomando então uma postura humilde e cruzando os braços sobre o peito, Al-ghafir, o triste, começou da seguinte maneira a sua narrativa:

Notas

1. ↑ Príncipe dos crentes, título correspondente ao de califa.
2. ↑ Histórico.
3. ↑ Guerra santa.
4. ↑ Pontífice. Os califas reuniam em si o sumo império e o sumo pontificado.

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sábado, abril 11, 2009 - 21:03

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