CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Primeiro: Elementos de uma má reputação - Capítulo VI : A pança

Tal era Gilliatt.

As raparigas achavam-no feio. Gilliatt não era feio . Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do bárbaro antigo. Quieto, parecia um Dácio da coluna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admirável forma acústica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante.

Caíam-lhe os dois cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar saía-lhe firme de dentro da pálpebra franca, posto que ele tivesse aquele piscar de olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes.

Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quase negro. Não se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria más cara do vento e do mar.

Puseram-lhe a alcunha de Finório.

Diz uma fábula da índia: Um dia Brama perguntou à Força: Quem é mais forte que tu? A Força respondeu: É a Astúcia`. Diz um provérbio chinês: Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?

Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as coisas que ele fazia apoiavam o provérbio chinês e a fábula indiana. De estatura comum e força ordinária, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodígios de atleta.

Era um pouco ginasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.

Não caçava, pescava. Poupava os pássaros, não os peixes. Ai dos que são mudos.

Era nadador excelente.

A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dois aspectos. Às vezes mostrava o ar espantado, de que falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Caldéia teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava ver o mago.

Em suma, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provável que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador.

O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os ânimos símplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espírito de Gilliatt compunha-se, em partes quase iguais, de dois elementos, obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a ignorância - enfermidade; fora dele, o mistério -imensidade.

À força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no arquipélago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que aparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canais mais difíceis, tomou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admirável homem do mar.

Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superfície. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração submarina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e através dos arrecifes do arquipélago normando, que ele tinha debaixo da abóbada do crânio um mapa do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava tudo.

Conhecia as balizas melhor do que os corvos-marinhos que lá se vão empoleirar. As diferenças imperceptíveis. que distinguem as quatro balizas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de nevoeiro.

Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem sobre o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de LonguePierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barbées, com a baliza cauda de andorinha, de Moulinet.
Imagem:Separator.jpg

Mostrou singularmente a sua rara ciência de marítimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.

A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leva-la de Saint-Sampson à ilha de Herin, distante 1 légua, e traze-la de novo de Herin a Saint-Sampson. Manobrar sozinho um barco de quatro velas, não há pescador que o não faça, e a diferença não é grande; mas eis o que agravava o caso: primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, à moda de Roterdã, que os marinheiros do século passado apelidavam panças holandesas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construção da Holanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda dificuldade era a volta de Herin, volta complicada por um pesado lastro de pedras.

O prêmio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que navegara nela durante vinte anos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguém que quisesse governar o barco e decidiram fazer dele um prêmio de regata. A pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista.

Era mastreada na frente, o que aumentava a força de tração do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha sólida; pesada, mas vasta, e suportando bem o mar. Houve empenho em disputá-la; a luta era rude, mas o prêmio era magnífico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum deles pode ir a Herm. O último que lutou era conhecido por ter passado a remos, com tempo mau, o terrível redemoinho que há entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe ele a pança e disse: - É impossível. - Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e reze ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudência, e sem largá-la, o que lhe dava o domínio da vela grande, deixando a escota rolar à feição do vento sem descair, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de três quartos de hora estava em Herm. três horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que à gente da ilha salvava todos os anos, a 5 de novembro, em regozijo pela morte de Guy Fawkes.

Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu há 260 anos; foi uma grande satisfação.

Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.

Vendo isto, Mess Lethierry exclamou: - Ora, aqui está um marinheiro atrevido!

E estendeu a mão a Gilliatt.

Tornaremos a falar de Mess Lethierry.

A pança foi entregue a Gilliatt.

Esta aventura não lhe destruiu a alcunha de Finório.

Algumas pessoas declararam que a coisa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira silvestre.

Mas ninguém pode provar isso.

Desde esse dia Gilliatt não teve outra embarcação. Naquela pesada chalupa é que ele ia à pesca. Amarrava-a no excelente ancoradourozinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede às costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras secas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Daí fazia-se ao mar.

Pescava muito peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado à chalupa. Ninguém o viu nunca, mas toda a gente acreditava.

Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.

Os pobres aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruxado. Não se deve trapacear com o mar.

Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido, por instinto ou para distrair-se, três ou quatro ofícios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e até um pouco mecânico. Ninguém consertava uma roda como ele. Fabricava, de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma âncora, reze-lhe outra, ele só. Excelente âncora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguém lho ensinasse, achou a dimensão exata que devia ter o cepo da âncora para que ela não voltasse.

Substituiu com toda a paciência os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossível a ferrugem.

Deste modo aumentou muito as boas qualidades da pança. Aproveitava-se dela para ir de quando em quando passar um ou dois meses em alguma ilhota solitária como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: Olhem, Gilliatt está fora. Ninguém se incomodava por isso.

Submited by

domingo, maio 24, 2009 - 14:57

Poesia Consagrada :

No votes yet

VictorHugo

imagem de VictorHugo
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 11 anos 11 semanas
Membro desde: 12/29/2008
Conteúdos:
Pontos: 159

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of VictorHugo

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Fotos/ - Victor Hugo 0 760 11/23/2010 - 23:36 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo VII : Compradores noturnos e vendedor tenebroso 0 924 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo VIII : Carambola da bola vermelha e da bola preta 0 769 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo IX : Informação últil às pessoas que esperam ou receiam cartas de além-mar 0 1.052 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo III : A Canção Bonny Dundee acha um Eco na Colina 0 963 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo IV : Justa Vitória é Sempre Malquista 0 795 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo V : Fortuna dos Náufragos Encontrando a Chalupa 0 951 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo VI : Boa Fortuna de Aparecer a Tempo 0 890 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo I : A Palestra na pousada João 0 859 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo II : Clubin descobre alguém 0 999 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo III : Clubin leva uns objectos e não os traz 0 902 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo IV : Plainmont 0 907 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo V: Os Furta- Ninhos 0 986 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quinto : O Revólver - Capítulo VI: A Jacressarde 0 832 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo VI : Lethierry entra na glória 0 568 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo VII : O mesmo padrinho e a mesma padroeira 0 594 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo VIII : A melodia Bonny Dundee 0 537 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo IX : O homem que advinhou quem era Rantaine 0 616 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo X : Narrativas de viagens de longo curso 0 499 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo XI : Lance de olhos aos maridos eventuais 0 627 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo XII : Exceção no caráter de Lethierry 0 927 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Terceiro:Durande e Déruchette - Capítulo XIII : O desleixo faz parte da graça 0 860 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo I : Primeiros Rubores de Aurora ou de Incêndio 0 913 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Quarto: “O Bagpipe” - Capítulo II : Gilliatt vai Entrando Passo a Passo no Desconhecido 0 829 11/19/2010 - 15:54 Português
Poesia Consagrada/Conto Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Primeiro: Elementos de uma má reputação - Capítulo VII : Casa embruxada, morador visionário 0 703 11/19/2010 - 15:54 Português