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Milan Kundera - A Imortalidade

 Como podes pretender que não és o teu rosto? O que é que há por trás do teu rosto? Imagina que vivias num mundo onde não existissem espelhos. Sonharias com o teu rosto, imaginá-lo-ias como uma espécie de reflexo exterior do que houvesse em ti. E depois supõe que, aos quarenta anos, te mostravam num espelho. Imagina o teu pavor. Terias visto um rosto totalmente estranho. E terias percebido nitidamente aquilo que te recusas a admitir: o teu rosto não és tu.

Uma catástrofe ferroviária é horrível para quem viaja no comboio, ou para quem sabe que o filho o apanhou. Mas nas informações radiofónicas, a morte tem exactamente o mesmo sentido que nos romances de Agatha Christie  que é aliás a mais feiticeira de todos os tempos, porque soube transformar o assassínio em divertimento, e não só um assassínio isolado, mas dezenas de assassínios, centenas de assassínios, assassínios em série, perpetrados para nossa felicidade. No campo de extermínio dos romances dela Auchwitz foi esquecido, mas os fornos crematórios dos romances dela. Lançarão até à eternidade o seu fumo em direcção ao firmamento, e só um homem de grande candura diria que se trata do fumo da tragédia.

Qual é a eterna condição das tragédias? A existência de ideias, cujo valor é considerado mais alto do que o da vida humana. E qual é a condição de guerras? A mesma coisa. Obrigam-te a morreres porque existe, dizem, alguma coisa superior à tua vida. A guerra só pode existir no mundo da tragédia.

A grande cultura, é filha dessa perversão europeia a que chamamos História: quero dizer, dessa mania de continuar sempre em frente, de considerar a sucessão d gerações como uma corrida de estafetas em que cada um ultrapassa o seu predecessor para ser ultrapassado pelo seu sucessor. Sem esta corrida de estafetas a que chamamos História, não haveria a arte europeia nem o que a caracteriza: o desejo da originalidade, o desejo da mudança. Robespierre, Napoleão, Beethoven, Estaline, Picasso são outros tantos estafetas, correndo no mesmo estádio.

O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerem o que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpático possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será possível o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de amar(…)
É uma ilusão ingénua acreditarmos que a nossa imagem é uma simples aparência, por trás da qual estaria escondida a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo (…) o nosso eu é uma simples aparência, incaptável, indescritível, confusa, ao passo que a única realidade, quase demasiado fácil e de descrever, é a nossa imagem nos olhos dos outros. E o pior é que tu não és senhor da tua imagem. Começas por tentar pintá-la tu próprio, depois esforças-te por ao menos conservares certa influência sobre ela, controlando-a em vão: basta uma forma maldosa para te transformar para sempre numa criatura lamentável.

O erotismo é como a dança: há sempre um dos parceiros que se encarrega de conduzir o outro.

O que a mulher mais velha oferece ao homem mais novo é antes de mais a certeza de que o amor de ambos se desenvolve longe de qualquer perigo matrimonial.

O sentimento do amor logra-nos a todos através de uma ilusão de conhecimento.

O amor extra-coital: um caldeirão ao lume, dentro do qual o sentimento, atingindo o ponto de ebulição, se transforma em paixão e faz saltar a tampa que começa a dançar loucamente (…)

Quando um vivia ainda em Praga, contava-se a seguinte anedota sobre a alma russa: com uma rapidez aflitiva, um checo seduziu uma russa. Depois do coito, a russa disse-lhe com um desprezo infinito: “Possuíste o meu corpo. Mas nunca possuirás a minha alma”

Mychkine admira todas as mulheres que sofrem, mas a inversa não é menos verdadeira: assim que uma mulher lhe agrada, ele imagina-a sofrendo. E como não sabe calar-se expressa-se a explicar-lho. Trata-se aliás um excelente método de sedução… porque se dissermos a uma mulher” você sofreu muito” é como se lhe falássemos directamente à alma, como se acariciássemos essa alma e a exaltássemos. Qualquer mulher em qual, em tais circunstâncias, estará pronta a dizer-nos: “ Ainda não possuis o meu corpo , mas a minha alma já é tua!”

(…) a memória não filma, a memória fotografa. O que ela conserva de todas as mulheres, no melhor dos casos, são algumas fotografias mentais.

Imagina que te dão a escolher entre duas possibilidades. Passar uma noite de amor com uma bela mulher mundialmente célebre, uma Brigitte Bardot, ou uma Greta Garbo, sob a única condição de ninguém jamais a vir a sabê-lo; ou passares com ela na rua principal da tua cidade natal, com um braço por cima dos ombros dela, sob a única condição de nunca ires para a cama com ela. Gostava de saber a percentagem exacta de pessoas que escolhiam uma ou outra destas possibilidades (…)
O resultado claro, é de antemão seguro: toda a gente, até o último dos desgraçados, diria preferir ir para a cama com ela. Porque aos seus próprios olhos, aos olhos das mulheres, ou dos filhos, e até aos olhos do empregado calvo do gabinete de sondagens, todos queriam parecer hedonistas. Mas é uma ilusão deles.(…)
Digam o que disserem, se pudessem escolher realmente, todos, garanto-te, todos preferiam em vez de uma noite de amor um passeio na praça principal. A aparência e não a realidade.

Numa certa parte de nós mesmos, todos vivemos para além do tempo. Talvez só tomemos consciência da nossa idade em certos momentos excepcionais, permanecendo sem idade a maior parte do tempo.

(…) há só uma coisa que todos nós desejamos profundamente: que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores! Que os nossos vícios sejam comparados aos aguaceiros, às trovoadas, aos vendavais!

(…) um gesto é mais individual do que um individuo.

As pessoas não só já não tentam parecer bonitas quando estão com outras pessoas, como não tentam sequer evitar parecer feias!

(…) O mundo chegou a uma fronteira; quando a atravessar, tudo poderá degenerar em loucura: as pessoas andarão nas ruas com um miosótis ou dispararão umas sobre as outras. E bastará muito pouca coisa, uma gota chegará para fazer transbordar o copo: por exemplo: um automóvel, um homem ou um decibel a mais na rua. Há uma fronteira quantitativa que não deve ser ultrapassada; mas não há ninguém que guarde essa fronteira, e talvez ninguém conheça sequer a sua existência.

Fora a igualdade em pessoa que a proibia de estar em desacordo com o mundo onde todos vivemos.

A armadilha do ódio é que ele nos prende demasiado estreitamente ao adversário. Aí está a obscenidade da guerra: a intimidade do sangue mutuamente derramado, a proximidade lasciva de dois soldados que, olhos nos olhos, se trespassam um ao outro.

(…) não posso odiá-los, porque nada me liga a eles: não temos nada em comum.

A vocação da poesia não é deslumbrar-nos com uma ideia surpreendente, mas fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia.

A solidão: doce ausência de olhares.

(…) já ninguém pode esconder-se em parte nenhuma e que cada um está à mercê de todos os outros.

Quando amamos alguém, amamos o seu rosto e tornamo-lo assim diferente dos outros.

A cama comum: o altar do casamento; e quem diz altar diz também sacrifício. É aqui que eles se sacrificam mutuamente: ambos têm dificuldade em adormecer e a respiração de um desperta o outro: cada um deles se chega para o seu lado da cama, deixando um largo vazio no meio; um simula o sono na esperança de permitir ao outro que adormeça, virando-se e voltando a virar-se sem medo de o incomodar. Infelizmente, o outro nada ganhará com isso, ocupado que está igualmente (por razões iguais) a simular o sono, evitando mexer-se.

Não conseguir dormir e não se querer mexer: o leito matrimonial.

(…) porque toda a sua vida em comum assenta na ilusão do amor, uma ilusão que ambos cultivam e alimentam com solicitude.

Temos que distinguir a pequena imortalidade, recordação de um homem no espírito dos que o conheceram, e a grande imortalidade, recordação de um homem no espírito dos que não o conheceram.

A imortalidade- O homem velho e fatigado já não se importa com ela.

Contamos com a imortalidade e esquecemo-nos de contar com a morte.

O mundo perde pouco a pouco  a sua transparência, torna-se opaco, faz-se ininteligível, precipita-se no desconhecido, enquanto o homem traído  pelo mundo se evade para o seu foro íntimo, a sua nostalgia, os seus sonhos, a sua revolta e, atordoado pela voz dolorosa que sobe dentro dele, deixa de saber ouvir as vozes que de fora o interpelam.

O homem pode por fim à sua vida. Mas não pode pôr fim à sua imortabilidade.

Não conhecia consumação mais absoluta do amor do que a ingestão do bem-amado.

O corpo feminino, quanto mais inútil se torna, mais se torna corpo: pesado e volumoso; parece uma velha manufatura destinada à demolição, mas onde o eu de uma mulher é obrigado a ficar até ao fim na qualidade de porteira.

Quando damos um presente é por amor, é para oferecermos uma parte de nós próprios, um pedaço do nosso coração!

O poder do jornalista não assenta no direito de fazer uma pergunta, mas no direito de exigir uma resposta.

Nada exige do pensamento um esforço maior do que a justificação do não - pensamento.

(…) nunca descobrimos com e em quê irritamos os outros, em que é que lhes somos simpáticos e em que é que lhes parecemos ridículos; a nossa própria imagem é para nós o maior dos mistérios.

Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.

Uma criança pode aprender uma língua ilógica, porque uma criança não é dotada de razão.

Sim, tinha vergonha dela, ainda que se sentisse feliz na sua companhia. Mas só era feliz na sua companhia nos momentos em que se esquecia de que tinha vergonha dela.

O amor verdadeiro é incapaz de infidelidade.

O amor verdadeiro tem sempre razão mesmo quando erra.

Quando a dor se torna aguda, o mundo desvanece-se e cada um de nós fica a sós consigo mesmo. A dor é a Escola Superior do egocentrismo.

Se as pessoas dizem que um animal não pode sofrer tanto como um homem, é porque não seriam capazes de suportar a ideia de viverem no meio de uma natureza que é só atrocidade, atrocidade e mais nada.

(…) o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.

A vergonha não tem como fundamento uma falta que tenhamos cometido, mas a humilhação que experimentamos por ser aquilo que somos sem o ter-mos escolhido, e a sensação insuportável de que essa humilhação é perfeitamente visível.

A vida é para nós um valor no condicional, e só vale na medida em que nos permite viver o nosso amor.

O que é insuportável na vida não é ser, é ser-se o seu eu.

A soma da utilidade de todos os seres humanos de todos os tempos está inteiramente contida no mundo tal como ele é hoje. Por conseguinte: nada mais moral do que ser-se inútil.

O pudor significa que nos defendemos daquilo que queremos, ao mesmo tempo que experimentamos a vergonha de querermos aquilo de que nos defendemos.

O rosto é belo quando reflecte a presença de um pensamento, ao passo que o momento do riso é um momento em que se não pensa.

O riso é uma convulsão do rosto e na convulsão o homem não se domina, sendo ele próprio dominado por qualquer coisa que não é nem a vontade nem a razão.

O humor só pode existir quando as pessoas distinguem ainda a fronteira entre o que é importante e o que não é importante.

A mulher é o futuro do homem- Isso quer dizer que o mundo outrora criado à imagem do homem, vai ser moldado à imagem da mulher.

Se nos recusamos a dar importância a um mundo que se julga importante, e se não descobrirmos nesse mundo nenhum eco do nosso riso, só nos resta uma solução: tornar o mundo em bloco e transformá-lo num objecto do nosso jogo; transformá-lo num brinquedo.
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domingo, março 3, 2013 - 15:48

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