Compassos
Tento firmar-me no topo da montanha
De convicto e querido escarpado,
No cume do amor e desejo.
Escorregam-me os pés, aos poucos.
De cada vez que deixas cair expectativa
Lanço a corda do crer e do querer,
Mas o vento leva-me em sombra branca
De neve solta.
O beijo torna-se mais morno,
O abraço mais lasso;
O olhar pousa menos arrebatador,
A mão menos envolvida…
O elenco das carícias aparado.
Ainda não sei bem o que és…
Talvez o eco das vozes da terra,
Talvez o halo da minha busca de perfeição.
Sei que tudo o que temo está a teus pés
Arreigado na ponta dos meus dedos, sem guerra,
Pelos ditos das revoltas do coração.
Vem! Deixa teus pesos, as tuas sepulturas.
Espero-te em todas as marés,
Da penumbra ao alvor.
Remenda as feridas com novas costuras
Arremessa para longe a âncora da dor, do revés
E afaga as penas de Fénix renovador.
Vem! Não me deixes em pesos e sepulturas
Sacode-me, resgata-me de teus pés,
Asperge-me de sentir e calor.
Trava os rasgões da alma com fortes ataduras
Puxa-me para o barco que caio em negras marés
E caminha com quem sou, tira-me do teu andor…
Vem, vem nos passos que entenderes calçar.
Preferia-te na surpresa que, como maravilhado, te admirei;
Preferia-te na fera que, como presa, te concedi;
Preferia-te na atenção que, como estranho, te dediquei;
Preferia-te a bailar no que, como trovador, me imbui;
Prefiro-te na mulher que, como homem, me enamorei…
Mas vem, vem nos passos que entenderes calçar.
Eu sigo descalço, sempre, do modo como para ti cheguei ao mundo.
Andarilhus “(º0º)”
XXIII : V : MMVIII
Lírica: The Mission: Dancing barefoot
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Comments
Re: Compassos
Um texto com muita arte poética, razão e sentimento!!!
:-)
Re: Compassos
"Vem! Deixa teus pesos, as tuas sepulturas.
Espero-te em todas as marés,
Da penumbra ao alvor.
Remenda as feridas com novas costuras
Arremessa para longe a âncora da dor, do revés
E afaga as penas de Fénix renovador."
É dos trechos o mais bonito e o que me tocou mais profundamente.Compassos nos caminhos do amor.
Belíssimo.
Re: Compassos
"Talvez o eco das vozes da serra", onde tudo somos.
Ouvindo o nosso próprio eco, meditamos sobre o que de facto queremos. A caminhada é longa mas despindo-nos desta roupagem, talves consigamos lá chegar.
Um lindo poema, onde as palavras ganham força e nele me debrucei por um momento...momentos em que nos revemos.
Um beijo meu
Re: Compassos
Este poema sugere.nos que mergulhemos na introspecção absoluta sobre o que é de facto a vida e a vontade de a viver.
Gostei muito do que li,acredite.
Parabéns! Espero lê-lo mais vezes!
Vóny Ferreira
Re: Compassos
Neste compasso...dois tempos: em clave de sol, quiça em clave de lua, afirmam a maturidade de um imaginário próprio. Mistura a música, o amor, que se difundem, vibram no âmago dos versos em sol maior...quiça em lua maior,no topo de uma montanha.
beijo*