UMA CHUVA


Venta forte,
levanta poeira;
protegem-se os olhos;
voam do chão folhas, papéis, plásticos;
nuvens pesadas, escuras, pairam.

Escurece.
Troveja, relampeja...
Apressam-se os passos.
Até um cachorro passa apressado.
Caem os primeiros pingos,
esparsos, grossos.
Guarda-chuvas se abrem,
sombrinhas coloridas...
Cai a chuva com vontade;
intensifica-se o vento;
acumulam-se sob marquises;
o trânsito torna-se lento;
os carros, vidros suspensos...
Limpadores de para-brisa movimentam-se;
ônibus lotados, vidros embaçados;
rios d’água ladeiam os meio-fios;
água acumula-se sobre bocas-de-lobo;
ruas inundam...
A água sobe,
             sobe,
sobe...
O trânsito para.
Água sobe,
sobe,
sobe...
Água penetra nos carros.
Saem dos carros,
põem-se fora.
A água sobe,
sobe,
sobe.
A água entrou em lojas e residências.
Quase dois metros.
“Que prejuízo !”
Mercadorias estragadas;
mobílias prejudicadas.
Carros bóiam;
são arrastados.
Gente nos telhados
aguardam resgate.
Vem barco;
vem helicóptero.
Alguns nadam.
“Quanta água!”
“Quanta água!”
“É dilúvio...”
“Por que a água
não vai pro rio,
que vai pro mar?”
“Nunca vi
a água subir tanto assim!”
“Que lixo!”
“Não se vêem troncos de árvores boiando...”
Mendigos, menores de rua, desabrigados
estão a salvo:
puseram-se fora a tempo.
Mas houve vítimas fatais:
deslizamentos,
desabamentos,
desaparecidos na enxurrada.

No aconchego do lar
milhões vêem pela televisão,
Já com certa indiferença
a notícia da enchente.
Há quem ache um espetáculo;
há quem ache até engraçado,
mas, “...notícia corriqueira”,
“...na ordem da normalidade”
“Uma chuva...”
Mas antes de passar os gols,
ainda passam políticos
blablabando.

 

 

 

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Tuesday, June 28, 2011 - 21:00

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Hílton Neiva Jácome

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