Estranhos

Ficou preso no momento em que a viu dançar. A expressão era frágil e a postura firme. Os homens que a convidavam, coitados, teriam de se submeter a três minutos de música em que seriam completamente ofuscados pela parceira. Podiam pelo menos, nas suas paradas, pacatas e pategas vidas, ter um vislumbre do que seria segurá-la nos braços. Experienciar o rubor da sua face junto das suas. Podiam sentir-lhe o ar entre o pescoço e o maxilar. Ele, o estranho, sentado algures no local mais escuro que podia ter encontrado, fumava um cigarro enquanto se desconcertava por dentro, na tentativa de a observar sem que ela o notasse. Mas nada lhe escapava. Sabia que se focava nela e seguia dançando com um dos seus pares padrão. Os olhos da estranha não eram grandes. Nem precisavam. No momento em que os pousasse em alguém, ainda que na outra ponta do salão, podiam ser sentidos. Tudo o que o estranho sabia é que naquela noite não houve um único pesadelo que o invadisse. Pensou em tudo o que viu e sonhou a preto e branco. Respirava agora um novo ar e isso confundia-lhe os sentidos. Era o soldado desconhecido feito escrevinhador. O homem que preferia derramar o seu sangue por uma causa, a discuti-la. A criatura que acreditava em tudo menos em si. E estava agora irremediavelmente atraído por aquela estranha, que fitou numa noite de Inverno. Outrora, sem qualquer hesitação ou turbulência nas pálpebras, tudo o que tinha a fazer era segurar a mochila presa ao ombro direito, acender um cigarro e partir. Mas este, ah este era todo um novo cenário!  Não podia partir porque a magoaria mais do que a qualquer outra que o tivesse amado. E nem era uma delas. Por esta mulher nem sequer era conhecido, quanto mais correspondido no que quer que estivesse a sentir. No entanto a ideia de a deixar, sentindo-se só e sem valor, corroía-lhe o peito. Que raio de animal podia fazê-lo? Talvez o animal que ele era. Pelo menos aquele que era antes de a estranha irromper muralhas dentro e despertar a pouca humanidade que lhe restava. Aquela mulher, por mais magoada que tivesse sido no passado, não recuava. Era especial demais para que deixasse de a ver. Para permitir que se sentisse novamente um enorme nada, quando nela via tudo. Eram infinitas as possibilidades para o que  podia observar naqueles olhos pequenos. Grande a vontade de partir. Mas mais do que uma questão de honra, permanecer era uma questão de coração. Não permitiria que mais ninguém a diminuísse. Lembrá-la-ia do quanto é, do quanto vale e do quanto foi sonhada. Decidira então, pela primeira vez em anos, dar-lhe o que restava do homem que poderia ter sido. Beijá-la-ia com o olhar. Abraçá-la-ia em pensamento. Segurar-lhe-ia a mão em sonhos. Isso era o suficiente.    

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Viernes, Agosto 10, 2012 - 19:42

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