O principio do fim...

Já não caibo em mim...
Os contornos foram todos forçados,
os limites foram ultrapassados
por fronteiras patéticas
q me encurtaram o chão de manobra...
Saltam-me torneiras frenéticas dos olhos,
em desgarradas de agua fria e agua quente
sempre salgada...
E a garganta tem um ancinho q se arrasta devagarinho
a cultivar silabas mordidas
semeadas por um agricultor cruel
q mastiga a terra em vez de a amar...
Caminho sobre pregos para a frente e para trás
e nenhuma dor me faz feliz,
apesar de precisar da dor para me saber viva...
Quando já não doer
estarei ao colo de um anjo qualquer
q me beijará as nódoas negras
e as mãos ensanguentadas...
Porque me viraram as costas os anjos?
Afago-lhes as asas q de penas nada têm,
são arames farpados de desprezo
q me rasgam os olhos até escorrer
toda a cor da terra q albergam...
Antes o amor acariciava-me com as mãos
e beijava-me carnudo e fogoso...
Agora só esta morte andrajante
que me caminha nos seios...
Porque não me verga de uma vez,
nem a morte me faz sua amante
e eu jurei-lhe fidelidade eterna...
Sabe-me a sangue, o gosto,
num coagulado sombrio de cicatriz...
Maquilho-me de rosto feliz e saio p'ra rua
de garrotes nos braços,
cada dedo é uma lamina,
cada cabelo archote em chamas,
toda a gente se afasta,
como sempre se afastaram as gentes...
Basta de amar impotentes...
Já não caibo em mim,
nunca soube caber em alguém,
mas cá dentro,
houve um tempo em q coube um mundo inteiro...

Inês Dunas
Libris Scripta Est

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Jueves, Mayo 20, 2010 - 23:18

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Comentarios

Imagen de mariacarla

Re: O principio do fim...

Inês, achei este poema tão sentido e tão profundamente triste... que me comoveu de uma forma única!

Um beijinho, meu anjo!

Carla

Imagen de Gisa

Re: O principio do fim...

Um poema doloroso, e por isso ainda mais belo, em que se consegue sentir toda a amargura. Comovente. Abraços

Imagen de Mefistus

Re: O principio do fim...

Uma inundação de lágrimas contidas, nos limites do corpo ultrapassad.
Tanto mar, tanto sal em teus olhos escondidos.

Saltam-me torneiras frenéticas dos olhos,
em desgarradas de agua fria e agua quente
sempre salgada

O poder de stravassar numa folha de papel, um sentimento e defende-lo, ( sublime o andar em pregos), com essa veia da auto análise em ti.
Querida amiga, sorri que o sol chegou e encara o que há-de vir.
Porque algo bom sempre surgirá e redefinirás as fronteiras da tua dor

Gostei bastante
Um beijo

Imagen de nunomarques

Re: O principio do fim...

Inês,
fiquei sem muitas palavras de tão triste, ao mesmo tempo tão belo e por muito me dizer.

Iria sublinhar várias partes do poema, digo, teria mesmo que sublinha-lo por inteiro, logo
Favoritos*

Beijo
Nuno

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