sonho de mim

Não sei se vou ou se fico.
Todos os caminhos terminam no mesmo beco sem saída.
Rebento os tijolos com a cabeça.
De tanto sangrar por dentro, gelei por fora.
Tormento.
Nem oráculo, ou luz ou sorte.
Nem sina, ou mar, ou morte.
Para perder de vista o tempo
Que se verte a conta gotas.

Lanço o olhar ao horizonte.
Às luzes e aos telhados.
Aceito os dias, como segundos mal contados.
Ponteiros previsíveis, recortando o meu silencio.

Desta varanda avisto o mundo.
A cúpula verde da Câmara.
A Torre dos Clérigos.
Os cavalos do Palácio do Comercio.
Ao longe, a Sé.
Em pedra, e de pedra o meu sorriso
Esborrachado em queda livre
A partir do 5º andar.
Premeditado suicídio do passado, que não renego nem aprovo.
Foi a torrente de lama que me arrastou, ao sabor das circunstancias, para o outro lado do nada.

O que há a perder? O que há a ganhar?
A erosão provocada por duvidas existenciais, e muito medo de arriscar.
De procurar abrigo, onde não há tecto.
De procurar alento, onde não há esperança.
De procurar a luz, no fundo de uma caverna.
“Quando já se esta num buraco, não vale a pena continuar a escavar”
E se eu cavasse só o suficiente, para enterrar a cabeça na areia?
No sono da avestruz, poderia esquecer enfim as decisões que me atormentam, as duvidas que me trespassam, os dias de chuva e de sol.
O que passou. O que há-de vir.

Ferve no meu peito uma panela de pressão sobre si própria.
As minhas ilusões em sopa.
Ate a água do Douro evaporou!

Restos mortais do sonho de mim que ousei sonhar.

Anti-projecto mal planificado.
Rascunho de objecto personificado.
De tanto querer ser uma boneca, contemplo o meu reflexo num espelho de bonecas.
Autómato inerte que todos manipulam, que todos querem controlar.
Pegam, trocam, e mudam de lugar.
Coração de vento. Cérebro de areia.
Vida plastificada.

Sentimentos pseudo-humanizados.
Quase mortais. Quase reais.
A minha casa de cartão, também acabou por ruir.
Quase sono, quase inércia.
Tudo o que vou enfrentar, só por não poder fugir.
(Quando é que dormem as gaivotas?)

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Viernes, Julio 11, 2008 - 19:37

Poesia :

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JillyFall

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Comentarios

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Re: sonho de mim

Um poema com arte, razão e sentimento!!!

:-)

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Re: sonho de mim

Tem andado um pouco arredada e silenciosa, Jill, permite-me o reparo?
De todos os poemas que aqui deixou, (recentes) este foi sem dúvida aquele com que me identifiquei em pleno!
Está lindo... parabéns!
Vóny Ferreira

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