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SINUÁ

  No fim do bairro Velho, perto da estrada da Coxilha Alta, existia um curandeiro de nome Vô Tonho. Vivia sozinho em uma casa simples. Junto com ele, somente o cachorro de nome Napoleão, que carinhosamente chamava de “Napo”.
     Os dois pareciam ter a mesma idade. Alguns consideravam que o velho deveria ter mais de um século de vida e o cachorro também. Pois, como dizia a Dona Mercinda, uma das mais velhas moradoras do lugar, desde que se conheceu por gente já ouvia falar do Vô Tonho. Um morador dali, Seu João do Berro, dizia que ele tinha pacto com o diabo. Várias vezes era visto perambulando pelos matos e pelos campos de longe, perto do rio Boiucuva. Quando questionado sobre essa história, o velho dava uma risadinha e explicava que as pessoas viam coisas em tudo e que ele ia procurar plantas que utilizava em benzeduras e curas. Mas isso é coisa de gente que gosta de inventar histórias...
     Seu Tonho Preto curava de tudo: dor de vista, bexiguinha, barriga d'água, zóio amarelo, canseira, má digestão, bucho duro, pé de prego, espasmo. Todas as mães levavam seus filhos e filhas para as rezas do Vô Tonho. Não cobrava por seus serviços e era querido por todos recebendo, em troca de seus serviços,  alimentação, roupas e dinheiro da gente do lugar
     Na mesma área, vivia Moraezinho. Sujeito violento, dado a bebida e que descontava a frustração de ter nascido agredindo sua mulher e no filho único. Várias vezes os vizinhos chamaram a polícia. Porém, a mulher, com medo de que acontecesse algo pior, testemunhava a favor do marido e a coisa acabava por ali. Ele vivia incomodando os vizinhos, chamando briga nas bodegas do lugar.
     A esposa, que sofria com aquele temperamento, chegou até a fugir com o filho. Ele os alcançou e só não deu cabo da vida dos dois porque fora contido por alguns operários de uma obra que viram o desenrolar da cena.
     Um certo dia, o destino resolveu, através de seus misteriosos caprichos, fazer com que a história de Moraezinho cruzasse com a de Vô Tonho. Os dois se conheciam. Porém, nunca haviam trocado uma palavra sequer.
     Numa terça-feira a tarde, Moraezinho foi ter com o Vô Tonho. Entrou, pedindo licença,  na casinha com as paredes repletas de imagens de santos e fotos de pessoas curadas. Havia de tudo: crianças fotografadas em fantasias de anjinhos, homens, mulheres, até mesmo animais cuja saúde fora normalizada pelas mãos do velho.
O homem ficou observando durante algum tempo os detalhes de toda aquela tralha que, no final das contas, contava a história do velho curandeiro e, por conseguinte, de todo o bairro Velho. Havia esquecido de como estranho aquela morada lhe parecia: os cheiros, as sombras; Tudo era parte de um lugar onde o sobrenatural estava ao alcance das mãos.
     O pedido de Moraezinho era claro: queria que o velho lhe ajudasse a conquistar Mafira. A filha mais nova de João Pedreiro. A moça tinha 19 anos e era uma morena muito bonita.
     O fato é que o homem ficava assediando a menina diariamente. Ela mesmo já havia se queixado ao pai e este avisou Moraezinho: mais uma investida e ele iria ser “disciplinado”.
      Vô Tonho ouviu o pedido de Moraezinho com a sua paciência peculiar. Depois, enrolou um cigarro de palha, levantou-se de sua velha cadeira de palha trançada e foi buscar algo.
     O homem ficou esperando que o velho viesse trazer algum amuleto ou então, alguma erva para um chá milagroso. Porém, ao voltar, trouxe uma pequena bolsa de tecido a tiracolo. Apanhou um cajado que estava escorado na parede da casa, passou por Moraezinho, encaminhando-se para fora. Parou em frente a porta. O cão, que parecia adivinhar os pensamentos, já pôs-se em pé e foi seguindo uma pequena trilha que passava ao lado da casa. Vô Tonho olhou para o homem e fez um sinal com a mão para que o acompanhasse.
     A princípio, Moraezinho ficou parado, sem entender nada. No entanto, ergueu-se e foi seguindo o velho, logo atrás deste. Os dois seguiram a trilha, passando os limites do bairro, passando pelas cercas de arame liso que delimitavam as terras aquém do rio Boiucuva.
     Por mais de duas horas, seguiram a velha trilha, contornando o rio e chegando a uma velha ponte abandonada. Continuaram a caminhada. Moraezinho praguejava o tempo todo, reclamando dos mosquitos, do calor e da distância.
     Haviam seguido sem descanso por mais de três horas até que chegaram a um lugar aonde Moraezinho nunca havia estado antes. Muito além do rio, chegando perto das coxilhas da fazenda Miranda. Um capão, um pedaço de mata nativa. A trilha desaparecia por entre a vegetação cerrada. O homem corria os olhos por todo o lugar, buscando alguma referência. Tudo em vão. Enquanto isso, Vô Tonho, sempre antecedido pelo velho companheiro de quatro patas, continuava resoluto na caminhada. Parecia não cansar-se. Não havia uma gota de suor em sua face. Muito pelo contrário: parecia revigorado!
     De repente, chegaram a uma enorme clareira na mata. No lado oposto de onde estavam, encontrava-se uma velha casa. Era uma construção incomum para o lugar: alta, dois pisos, como os modelos vitorianos que os grandes fazendeiros do Texas, nos Estados Unidos da América,  construíram e que, vez por outra, apareciam em filmes na televisão.
Os dois e o cachorro chegaram em frente a casa. A porta com a pintura descascada, ladeada por duas grandes janelas, estava semi aberta. Cuidadosamente, o velho passou a alça da bolsa por sobre a cabeça e levou-a com suas mãos. Abriu a porta e foi entrando, como se não quisesse que sua presença fosse revelada.
Moraezinho seguiu o curandeiro. Olhou para trás e viu o cachorro deitado, olhado para ele. Era como se o animal soubesse que não poderia entrar naquele lugar. “-mas, afinal”, pensou ele “- o que estou fazendo aqui?”. Não teve tempo de responder. Quando deu por si, havia atravessado a porta e penetrado na penumbra que reinava no lugar. Pode notar que o velho ia logo a frente, movendo-se cautelosamente. As falhas no telhado deixavam entrar pequenos fachos de luz solar que projetavam-se sobre o assoalho. Não havia coisa alguma dentro da casa. Somente poeira e algumas folhas secas que deviam ter entrado pelas frestas das janelas. Chegaram a um grande aposento: uma ampla sala parcamente iluminada pela luz que conseguia passar pelas janelas semi destruidas. Notou que havia uma grande lareira. O velho curandeiro aproximou-se da lareira, abaixou-se e retirou algo da bolsa que levava consigo.
    Antes mesmo de dar o próximo passo, Moraezinho sentiu um arrepio que lhe percorreu todo o corpo. Pensou ter ouvido algo, como se algo arrastava-se pelo assoalho. Vasculhou todo o aposento até aonde a penumbra permitia que seus olhos alcançassem. Não conseguir notar nada de diferente. Ao virar-se para a direção aonde estava Vô Tonho, seus olhos captaram uma imagem que lhe deixou petrificado: uma imensa cobra negra saia de dentro da lareira. O gigantesco réptil, cujo diâmetro tinha quase a metade da lareira, foi em direção ao velho que parecia estar em transe.
     A cobra parou em frente ao velho que estava ajoelhado. Moraezinho pensou que ela iria devorá-lo mas, para sua surpresa, apenas fitou-o de muito perto, quase que tocando a sua face. Assim ficou durante alguns segundos e, para aumentar ainda mais o temor que sentia, agora era para ele que os olhos vermelhos da serpente estavam voltados. Quando pensou em fugir dali, o réptil já o havia cercado. Ela ergueu-se e ficou a poucos centímetros de seu rosto. Ele Fechou os olhos, apertou os lábios fortemente e quando pensou que o seu fim havia chegado, sentiu que a criatura se afastara. Abriu lentamente os olhos e viu que ela estava voltada em direção da lareira abandonada. Lentamente fez o mesmo, acreditando que estava momentaneamente a salvo. Sem mover-se, notou algo que retirou todo o calor de seu corpo.
     De dentro da lareira, saia uma criança. Um menino de cabelos vermelhos desgrenhados, olhos da mesma cor contrastando com uma pele muito branca. Vestia apenas uma túnica passada, à moda dos gregos antigos. A pequena criatura aproximou-se do velho e recolheu o que estava dentro da bolsa colocada em frente: eram seis ou sete ratos mortos. O menino os apanhou e levou-os consigo, de volta a lareira. Porém, antes disto, deixou em frente ao curandeiro algumas ervas.
     Até aonde os olhos de Moraezinho puderam acompanhar, a lareira era a entrada de uma espécie de caverna. Porém, não teve tempo para pensar mais sobre isto. A serpente estava novamente próxima a sua face. Ele não havia notado. Ela aproximou-se mais, agora pela lateral de sua cabeça e parou próximo ao seu ouvido esquerdo.O homem não acreditou quando a cobra sussurrou: “- Sinuá”.
     Então ele entendeu o que se passava naquele local: ali era o lar da lenda do menino demônio do cabelo vermelho e da cobra gigante que eram vistos brincando juntos nos campos próximos das coxilhas da fazenda Miranda, em noites de lua cheia.
     O velho recuperou-se do transe. Pôs-se em pé, apanhou as ervas e voltou para a porta da frente da velha casa. A cobra também já retornava para a lareira. Moraezinho permanecia petrificado até que o toque da mão do curandeiro em seu ombro fê-lo mover-se de volta a entrada.
     O retorno foi tranquilo. Nenhuma palavra. Moraezinho apertava o passo mais do que podia e olhando para trás a todo momento, talvez esperando que a cobra viesse em seu encalço.
     Ao chegar na casa de Vô Tonho, chegou a esquecer do que havia pedido. Voltou apressado para casa. Todos estranharam  Moraezinho após aquele dia: o homem parou de beber, tornou-se um pai exemplar. Voltou a frequentar a igreja do bairro e ajudava os pobres e necessitados. Começou a melhorar de vida até que abriu o seu próprio negócio: um oficina de conserto de eletrodomésticos.
     O tempo passou e, dizem que Moraezinho, em seu leito de morte, murmurava várias palavras sem sentido. Sendo que a mais repetida era “Sinuá”.
     Vô Tonho continua até hoje atendendo o povo em sua casinha, no final do bairro. Dona Mercinda continua a afirmar que o velho tem pacto com o coisa ruim. A viúva de Moraezinho e o filho mudaram-se para outra cidade e levam uma vida tranquila. Alguns caçadores dizem que ainda hoje se pode avistar uma estranha aparição nas noites de lua cheia, lá para os lados das coxilhas da fazenda Miranda.  Um menino de olhos e cabelos vermelhos e uma imensa cobra brincando juntos.
     Mas isso é coisa de gente que gosta de inventar histórias....

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sexta-feira, agosto 23, 2013 - 11:52

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