IGUAL

Podes chamar-me mil vezes
Que mil vezes me esconderei
Cobrirei os tímpanos à tua voz
Até ela ser muda de sentido…

Cerrarei lábios à tua palavra
Fecharei punhos ao teu gesto
Cairão minhas pálpebras à tua luz
Levantarão meus pés na presença do teu rasto

Deverá toda a gente saber
Por mais difícil de entender
Que sou um homem gasto
Que cem de mim são zero
Que como sou não me gosto
Que como me tornei não me quero

Que sou palavras de outros
Consumidas no fogo próprio…
Que sou acções minhas
De alguém impróprio

Sou coisas que vejo
Com olhos de outros
Ou coisas de outros
Que com os meus vejo…

Sou tinta que escreve
Em papel que não dura
Sou um pensamento breve
Que a memória não segura

Sou toque dormente
Numa bebedeira de aguardente
Sou toque fantasma
Que quase ninguém sente

Sou vento invisível
Sou a água imprescindível
Sou tudo como os outros,
E ainda gelo insensível…

De: NESTA ESTADIA EM NADA

Submited by

Monday, May 25, 2009 - 13:33

Poesia :

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RicardoSantos

RicardoSantos's picture
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Comments

Henrique's picture

Re: IGUAL

Bom poema, gostei de ler! :-)

LUNARDO29's picture

Re: IGUAL

BELÍSSIMO TEXTO. 8-)

Patty's picture

Re: IGUAL

"Sou tinta que escreve
Em papel que não dura
Sou um pensamento breve
Que a memória não segura"
Gostei bastante.
bjs

jopeman's picture

Re: IGUAL

Destaco
"Que como sou não me gosto
Que como me tornei não me quero

Que sou palavras de outros
Consumidas no fogo próprio…
Que sou acções minhas
De alguém impróprio

Sou coisas que vejo
Com olhos de outros
Ou coisas de outros
Que com os meus vejo…"

A luta interior é sempre das mais sangrentas. E quando buscamos nos outros as ideias (pré-concebidas) de felicidade o mais provável é não satisfazermos as nossas
Gostei imenso
Abraço

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