IMENSIDÂO
Palco a meia luz, na penumbra uma idosa quase rasteja,
Ao fundo uma Grande cruz ensaguentada, Uma capela sem Sino.
Rasteja a idosa, em direcção á luz, beijando um retrato que abraçava com força,chorando enquanto declama:
"
Trago na memória a solidão
Revejo a tua glória, Gratidão
Os teus olhos, ah Ilusão
Em meus braços, Negação.
Oh Suave Imensidão
Oh doce frustração
Em ti me encantei
Em ti, Delirei!
Cai o retrato, a idosa se levanta e de costas para a plateia, geme:
Profundo o meu murmurio
Longo todo este infortunio
Vazia, despida de mim
Nessas Trevas sem fim
Oh, Suave Imensidão
Oh, doce Solidão
Em Ti me encantei
Por ti eu chorei
Sai o Padre, de biblia no braço, portas abertas da Capela, aproxima-se dela, e canta:
Gentil dama, assim abandonada
Covarde, o cavalheiro desta trama
Sois Casta e temente a Deus
Não choreis, Ainda á esperança.
Creio, senhora que A vida é uma Dança
e o verdadeiro sonho, sempre se alcança
A fé em nós, é sempre verdadeira
O amor, isso é Vil cegueira!
Atónita a idosa se refugia da figura eclesiástica.
Bradando em alta voz:
Assim canta quem nunca ama
Me chamais de Dama, coitado
Tens em ti um outro retrato
Diferente do meu, Crucificado
Acaso te Julgas superior
Só por não provares o Amor
Acaso te julgas grande
Se não provas-te a Carne!
O padre arreliado, de braços erguidos, retorquiu:
Eu amo todas as coisas, Temene ao Senhor
Por todas elas tenho real Amor
Fui ensinado a respeitar e perdoar
Mas fui proibido de a carne provar
Insana...
Desesperada a Idosa, saca a faca, no centro da luz, ajoelha-se e encara a Cruz ensaguentada:
Ès parte insolucionável
Mistério da fé, descartável
ÈS a essência e o Verso
Na mente do padre submerso
Ès falsa imagem de esperança
Levas sempre quem te Ama
E nós? Abandonadas
Por ti atraiçoadas!
Chega de rompante um sejeito de Negro, de bengala, e sorriso sarcástico. Ao ver tal cena,encara o padre cantando:
Ès velhaco como o vento
Só sentes e não vês
Possuis na alma Talento
Nunca te questionas os Porquês?
Não vês....????????
Não vês que a Mulher mastas-te
ao escolheres quem nunca vis-te
deixas-te só, quem sempre te quiz
Ah, Otário Ingénuo e Infeliz
O padre , aproxima-se da Mulher, tira-lhe gentilmente a faca e encara o Ser de negro:
Como um campo sem flores
Cravos, Rosas e perfeitos-Amores
E os outros, os loucos estupores
Sabesm lá, vocês, os meus Terrores
Sabem lá o que é ter fé
O que é arrependimento
Vivi para um ideal
Fiz do amor pelos outros
O meu Tormento!
Ri o ser de negro, dizendo em segredo á plateia
Louco aquele que ama
Covarde aquele que se esconde
O primeiro, do Inferno Reclama
O segundo, A Deus Responde.
Não sabem eles, a loucura do Amor
Que está assim, catalogado
Na ausência do vil Sabor
Nada é que seja Pecado
E o pobre padre e a mulher
Só podem viver, e morrer
Se um dia puderem o Amor entender
Atira a Mulher o retrato para um canto, tira o padre a batina, sai de cena o Ser negro.
E os dois De braço dado sentenciam:
Triste fardo ser pela fé separado
Triste fardo de não cometer pecado
Agora voltemos onde o tempo parou
Agora recuperemos o sabor que Gongelou
Oh, suave Imensidão
Feito no amor perdão
Em ti me encantei
E por ti viverei
---------------FIM-----------------------------------
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Comments
Re: IMENSIDÂO
"Ès velhaco como o vento
Só sentes e não vês
Possuis na alma Talento
Nunca te questionas os Porquês?
Não vês....????????"
Então não vemos... se vemos tamanho talento! Encontra a inspiração onde mais precisares... Mas escreve, escreve... escreve!
Vive na imensidão de talentos.
Beijinho
Carla
Re: IMENSIDÂO
Deverás magnifica como somente você poderia criar.
Aplausos ao mestre.
Beijo.
Re: IMENSIDÂO
Que peça fantástica. Bravo!!
Vai para os favoritos*
Abraço
Nuno
Re: IMENSIDÂO
Bem, ainda estou sem palavras...
Eu que amo o teatro, amo representar, imaginei perfeitamente as personagens em cena!
Perfeito, mais que perfeito!
Tu e o teatro, dupla fantástica...
Um final feliz! :-)
Beijinho com carinho...
Re: IMENSIDÂO
Meu querido amigo Mefistus,
Tu és nas tuas trovas e nesta alma doce a própria imensidão! Que amplitude tem este teu texto! Que saudade estava de ler-te...
LINDO!!!
Favorito!
Eu te adoro.
Um grande beijo.
Re: IMENSIDÂO
Fantástico, Lírico,
bíblico,
profano e eclesiástico
Meu querido amigo
de verbo elástico
para mim és um pouco de todos
o rimado Gil vicente
o bocage rindo gemente
a Florbela, triste em letras florescente
o Pessoa louco e coerente
O Camões em seus sonetos
camaleões
és pura poesia
adoro-te ler-te todo dia
amigo, querido irmão
fraterno em meu coração!!!!!
Favoritasso!!! Tua escrita transcende o usual.
Palmas ao grande arauto
que fez de minha mente um palco!!!!
Re: IMENSIDÂO
Olá Mefistus
uma vez mais estás de parabéns pela peça que escreveste... é mesmo um dom teu
Um abraço :-)
Re: IMENSIDÂO
De início, caro Mefistus, agradeço a ti por haver criado em mim o bom hábito de ler-te com maior frequência.
Esse grau de loucura que tens encanta; faz os giros inexoráveis pararem por tua obra - tens a categoria de grande poeta/escritor.
Texto fabuloso, que permite uma viagem bem acomodada aos teus mundos, numa nave real-imaginária de notável senso de humor e discernimento quanto as coisas da vida: a religião (religiosidade) como neste poema teatral.
Abraços fraternos, Robson!
Re: IMENSIDÂO
Bem... Q fabulosa peça de teatro, juro q me senti, ali mesmo na plateia, de olhos arregalados a ver todo o movimento das personagens... Tu tens um talento fantástico, o teatro tem de ser um dia o teu futuro e eu quero assistir a peças escritas por ti! O drama, a tragédia descritos com mestria e em POESIA é fantástico, fantástico, fantástico!
Adoro estes teus poemas q montam cenas e actos perfeitos na minha imaginação!
Adoro!
Beijinho grande em ti, doce trovador!
Inês