Limbo da existência.
Da luz fez-se chama e derramou-se sobre mim. Escaldou toda minha pele, tal qual lava que brotava eruptiva do olhar. Foi uma grande reação: A lava e minha epiderme fria, gélida, advinda de uma grande hibernação. Aturdida vi o mundo apagar-se ao redor, envolto na bruma criada pelo encontro do magma com minha pele fria. Silenciosamente a lava derretia e petrificava meu corpo prendendo ele para sempre nesta crosta de gelo e rocha que desde então, eternamente, envolveu minha epiderme por todas as demais vida que um dia eu viria a ter. Eu estava hipotérmica, estive morta e nem sabia, congelada, tanto que nem mais sentia ou percebia a falta de coesão do mundo em que eu me encontrava. Sentir novamente o calor da vida deixou-me aturdida, acho que liberou alguma substância entorpecente que toldou-me os sentidos e amputou-me a razão. O peito ardia em uma angina que irradiava-se por todos os nervos, uma espécie de eletricidade percorreu meu tórax, meus membros, minhas pernas, cauterizou meu senso de direção, escureceu o mundo ao redor. Eu tinha sede, sedenta joguei-me na fonte, que refrescante parecia aliviar o calor da lava que ainda ardia em mim. Confusa, acostumada a neve das escarpas longínquas dos montes solitários onde habitava anteriormente, não percebi-me do perigo que encerrava a convidativa, cristalina e límpida fonte que saciava a minha sede de sentir.Quando vi já quase me afogava na ânsia de beber da água da vida. Escorreguei no grande rochedo em que me segurava, naquele momento apenas conheci a morte. Era um abismo onde flutuei na suavidade do ar rarefeito das grandes altitudes, era uma queda no nada, eterna, sem perspectiva de chão para apaziguar a ziguezaguear labiríntico dos sentidos. Acho que era a embriagues que antecede a morte. Vi todas os momentos, todas as bocas e todos os lamentos que elas me causaram, passarem a sussurrar súplicas de amor em meus ouvidos em uma velocidade assombrosa, mas em segundos calaram-se à suavidade do abismo. Despertei assustada em outro mundo, o tempo tardava e eu não sabia. Morri naquele instante.
Submited by
Poesia :
- Login to post comments
- 1390 reads
Add comment
other contents of analyra
| Topic | Title | Replies | Views |
Last Post |
Language | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Poesia/General | Que seria? | 8 | 1.566 | 09/27/2009 - 17:45 | Portuguese | |
| Poesia/Comedy | Neuro-poema de amor | 5 | 4.366 | 09/27/2009 - 03:52 | Portuguese | |
| Poesia/Poetrix | A eterna busca e o inesperado encontro. | 3 | 2.106 | 09/27/2009 - 02:27 | Portuguese | |
| Prosas/Ficção Cientifica | Sabedoria popular... | 2 | 2.033 | 09/26/2009 - 13:05 | Portuguese | |
| Poesia/Love | A cada dia teu amor me renova. | 5 | 1.913 | 09/26/2009 - 05:52 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Poema existencial. | 6 | 1.848 | 09/24/2009 - 22:30 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Sertão do meu querer | 1 | 1.087 | 09/23/2009 - 08:17 | Portuguese | |
| Poesia/Fantasy | Onde estão os afestos concretos | 3 | 1.966 | 09/23/2009 - 00:32 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Até onde vai a minha liberdade de criticar... | 7 | 1.203 | 09/23/2009 - 00:23 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Amor virtual | 1 | 1.560 | 09/22/2009 - 23:58 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicated | Perdoa-me? | 4 | 1.843 | 09/22/2009 - 19:41 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Meus olhos ... | 6 | 1.981 | 09/22/2009 - 11:33 | Portuguese | |
| Poesia/Fantasy | Ai de mim... | 2 | 2.249 | 09/22/2009 - 02:44 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicated | Experimentação sentimental e poética | 11 | 2.000 | 09/21/2009 - 20:55 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Vida normal | 9 | 1.649 | 09/21/2009 - 16:16 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Derradeira hora. | 5 | 1.744 | 09/17/2009 - 23:27 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Beijos IV ( Declamado por Giraldoff) | 9 | 2.689 | 09/17/2009 - 15:59 | Portuguese | |
| Poesia/General | Evolução de um sentimento | 1 | 1.519 | 09/15/2009 - 15:47 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Aurora lilás | 4 | 1.702 | 09/15/2009 - 01:07 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Transmutação | 4 | 1.556 | 09/14/2009 - 18:48 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Mortalha luminosa de meu corpo | 4 | 2.010 | 09/14/2009 - 01:48 | Portuguese | |
| Poesia/Disillusion | Adeus ao quase amor. | 3 | 1.749 | 09/14/2009 - 00:44 | Portuguese | |
| Poesia/Disillusion | Porque? | 6 | 1.948 | 09/13/2009 - 23:42 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Depressão | 9 | 1.328 | 09/13/2009 - 23:24 | Portuguese | |
| Poesia/General | Dor | 3 | 1.608 | 09/13/2009 - 23:02 | Portuguese |






Comments
Re: Limbo da existência.
Quantas vezes avida nos vai matando para que finalmente
ressuscitemos de novo?
sempre mais fortes. por mais que as cicatrizes por vezes teimem em sarar.
Absorve-se facilmente a imensa tristeza que te vai na alma. mas também é verdade que é precisamente nestes momentos que soltamos mais facilmente as palavras que nos definem.
Beijo, Ana. Continuo apreciar imenso estas tuas prosas.
Vóny Ferreira
Re: Limbo da existência.
Um belo texto.
Um encontro com
a vida.
:-)