CRÔNICA: "SEU PEDIM"

          Seu Pêdim abriu as portas da sua pequena barbearia que ficava num beco que desembocava na praça da igreja de Nossa Senhora do Rosário. Varreu os fiapos de cabelos cortados no dia anterior, sacudiu a velha cadeira de cortar cabelo (daquelas que girava) e o pequeno móvel de madeira com um espelho onde ficavam as navalhas, a máquina de cortar cabelo manual e os cosméticos usados no seu trabalho com os clientes. Vestido numa bata branca usada por cima da calça, com a careca sempre reluzente e um sorriso sempre no rosto, Seu Pêdim era um dos “Barbeiros” mais conhecidos e concorridos de Serra Talhada. Mais, segundo me contavam, gostava de “escorregar” um pouco no português; o que não é vergonha, posto que nossa língua pátria se reveste de uma dificuldade imensa, principalmente naquela época, onde a cultura do estudo aprofundado não era muito cultivada. Havendo um habitante do município que, num descomunal exagero, falou-me um certo dia que de cada dez palavras faladas por esse Senhor, onze eram erradas.
          Naquele dia, como todos os outros, Seu Pêdim recebeu o primeiro cliente bem cedinho. As lojas de Jarim Carvalho e Gilberto Godoy, mais famosas da cidade, ainda não tinham aberto as suas portas de aço para receber os seus primeiros clientes. Não era o dia de sorte do “Barbeiro”, o cliente era daqueles que gostam de “gozar” das pessoas, mais mesmo assim o atendeu de forma educada e sempre contando suas histórias, que era costume de todo “Barbeiro” naquela época. A uma certa altura da conversa, o “Barbeiro” querendo mudar de assunto perguntou ao cliente:
- O Sinhô qué taico, qué aico ou qué que eu mui? (O “Barbeiro” se referia ao uso de talco, álcool ou molhar)
- Seu Pêdim! – Exclamou o cliente.
- Ôi! – Respondeu o “Barbeiro.”
- Se o Senhor falar uma palavra certa, eu lhe dou “Dez Contos.”
- Cuma?
- Perdeu Seu Pêdim! É uma pena.
 

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Monday, March 28, 2011 - 02:06

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JANILSON BARROS DO AMARAL

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