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Dolores
–Adotou uma menina.
–É?
–Espancava-a.
–Ora!
–Diariamente.
–Por quê?
–Queria matar a criança que ainda existia dentro de si mesma.
O muro era alto, de tijolo, encimado por uma espécie de plataforma, longa e lisa. Ela, menina, por essa plataforma longa e lisa desfilava. Os meninos gritavam: “Voa, Dolores. Voa.”
Não voou.
E muito disso
ia-se arrepender.
Ainda não sabia
que, para ela, viver
ia-se tornar um peso
muito maior
do que morrer.
Entrou no mar, foi abraçado pelas águas, nelas se abraçou, nelas encontrou sereias, duendes, dragões, velhos sonhos, grandes navios que o conduziriam para países, terras distantes que sempre e sempre o tantalizaram e para as quais agora para sempre se ligava.
Foi o irmão,
foi o irmão
que da vida
se desgarrou.
Foi o irmão,
foi o irmão
que o grande mistério
desvendou.
E consigo para sempre
o segredo levou.
Troncho, do lado esquerdo, o pai. Puxava da perna, tinha o braço inerte.. A fala arrastava-se, difícil entender o que dizia. Derrame, ela aos doze anos. “Lá vem o doutor Mãozinha”- gritava a garotada, ele nem bem saído do longo corredor, aos fundos a casa onde moravam, ao lado do cinema. Médico, ali clinicava. Levava sempre a roupa amarfanhada, o paletó, o colarinho afrouxado, uma das abas da camisa para fora da calça. Passou também a atender numa clínica particular. Um dia surpreenderam-no, a cabeça perdida entre as coxas de uma enfermeira. Não muito depois, ela e a mãe, em madrugada ventosa, deixaram a casa, para sempre o abandonaram.
–Não se casou?
–Jamais pensou nisso.
–Amores?
–Nunca teve.
–Sempre só?
–Até adotar a menina. Depois da morte da mãe.
–E a menina?
–Morreu. Maus tratos e fome
–Credo!
–Ela que matou. Dizem.
–E ela?
–O quê?
–Encontrou o que buscava?
–Paz?
–Era isso?
–Não consegue mais dormir.
–Não?
–O fantasma da menina toda noite lhe aparece.
–E ela?
–Sente o coração escapar do peito.
–Sente?
–E cair no meio do quarto.
–Nossa!
–Passa o resto da noite com os olhos grudados nele, como se ele fosse uma enorme e ameaçadora papoula coberta de sangue.
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