As Filhas do Sapateiro VI (O Sapateiro)
O Sapateiro
O infeliz, vagueava sem razão aparente de caminhar por aqueles caminhos de vida premiados apenas pelo pó e pela escuridão em que o coração não intui na direcção a tomar. Sentia que o trilho da direita o iria levar ao mesmo trilho da esquerda. Sentou-se no chão e ficou parado como a pedra onde estava sentado e chorou como quem chora e grita com o mesmo poder aflito de quem quer derrubar o mundo com as próprias mãos. Sempre amou as suas filhas da mesma forma e agora o amor que tinha por uma erguia-se ao amor que sentira pelas outras. Deprimido, sentia-se num incapaz como um vagabundo que vagueia na sua própria existência e percebe que a sua vida vale menos que nada sem os outros.
Abraçado à sua depressão existencial, procurou dentro do farnel a agulha com que sempre brilhou no rigor da sua profissão, e, decidido num acto de submissão dirige o olhar ao céu pedindo pela última vez a Deus que olhasse pelos seus. A mão preparava já o momento certo e o olhar encobria o local indicado para cravar a afiada agulha quando os seus sentidos acordaram noutra direcção.
Mesmo à sua frente, estava um rasto dirigido ao rio e entoando um som abafado parecido com um animal selvagem. Deixou-se estar. Agora os pensamentos vagueavam entre a razão e o medo de ser morto por um animal qualquer. O som parecia-lhe conhecido! Não se tratava de um animal e não ouvia este som há muitos anos. Levantou-se e correu em direcção ao rio procurando descobrir a origem do som.
Com toda a clareza as suas preces foram atendidas, e o seu coração foi remetido ao auge da protecção daqueles seres pequeninos presenteados a seus pés.
O sapateiro rejuvenescia dia após dia a olhos vistos pelo sol, pela lua, pelo rio e pelas águas que nele corriam. Os seus netos cresciam fortes e astuciosos entre histórias inventadas numas certas, noutras erradas. Porém os anos passaram pelo sapateiro feliz e a morte encantou-o numa noite em que pescava para o sustento dos seus. Adormeceu enquanto esperava a entrada do peixe na rede, e não acordou.
(continua)
Carla Bordalo
Submited by
Prosas :
- Login to post comments
- 2339 reads
Add comment
other contents of mariacarla
| Topic | Title | Replies | Views |
Last Post |
Language | |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Poesia/Dedicated | Idiota Prazenteiro | 8 | 1.016 | 02/13/2010 - 07:40 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicated | Rabinhos Perfeitos | 8 | 1.952 | 02/11/2010 - 23:40 | Portuguese | |
| Poesia/Dedicated | Escrava da língua | 9 | 1.053 | 02/11/2010 - 00:06 | Portuguese | |
| Poesia/Sadness | Afortunada Agonia | 7 | 1.424 | 02/10/2010 - 04:33 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Amor Calado | 5 | 1.152 | 02/09/2010 - 18:23 | Portuguese | |
| Poesia/Sonnet | Noite de Magia | 6 | 1.282 | 02/08/2010 - 22:56 | Portuguese | |
| Poesia/Aphorism | Quero estar | 5 | 936 | 02/06/2010 - 23:57 | Portuguese | |
| Poesia/Sadness | Uma rosa para ti | 7 | 1.001 | 02/05/2010 - 21:30 | Portuguese | |
| Poesia/Joy | Primavera, Quase | 9 | 1.120 | 02/05/2010 - 18:39 | Portuguese | |
| Poesia/Aphorism | Que Farsa, Que Borga | 10 | 1.327 | 02/05/2010 - 03:28 | Portuguese | |
| Poesia/Disillusion | Sofrimento | 10 | 1.152 | 02/05/2010 - 03:19 | Portuguese | |
| Poesia/Fantasy | O Despertar | 4 | 1.179 | 02/04/2010 - 16:47 | Portuguese | |
| Poesia/Sadness | Porquê | 5 | 1.242 | 02/04/2010 - 10:39 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Sei que te amo | 4 | 1.014 | 02/04/2010 - 10:36 | Portuguese | |
| Poesia/Fantasy | Um Dia na Quinta | 5 | 1.103 | 02/02/2010 - 20:17 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Vontade de Viver | 8 | 1.050 | 02/02/2010 - 19:54 | Portuguese | |
| Poesia/Aphorism | Que Importa se Tudo é Poesia | 9 | 1.186 | 02/01/2010 - 00:38 | Portuguese | |
| Poesia/Aphorism | Acentuado egoísmo | 6 | 1.529 | 01/31/2010 - 12:17 | Portuguese | |
| Poesia/Meditation | Pressentimento | 10 | 995 | 01/31/2010 - 12:13 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Volta | 4 | 1.523 | 01/30/2010 - 18:34 | Portuguese | |
| Poesia/Disillusion | Estranho Medo | 6 | 1.680 | 01/30/2010 - 18:28 | Portuguese | |
| Poesia/Sadness | Dor | 11 | 1.804 | 01/30/2010 - 16:47 | Portuguese | |
| Poesia/Love | Esperança do Poeta "Dueto" | 6 | 1.144 | 01/30/2010 - 11:28 | Portuguese | |
| Poesia/Passion | Paixão | 5 | 933 | 01/28/2010 - 23:19 | Portuguese | |
| Poesia/Sadness | Choro | 2 | 1.593 | 01/28/2010 - 01:55 | Portuguese |






Comments
Re: As Filhas do Sapateiro VI (O Sapateiro)
E o infeliz do sapateiro, chegou ao fim da caminhada, da cruzada.
Mas felizmente a história continua!
MAISSSS