Cidade sem Cabaré

Falo de uma cidade cheia de farmácias. Um lugar que representa uma sociedade doente, cheia de ratos e morcegos. Uma cidade onde você não encontra nenhum cabaré. Sinal de que não há promiscuidade? Pelo contrário. Pederastas, lascivos e outros devassos é o que mais se pode encontrar pelas penumbras dessa cidade.

Bares. Inúmeros. Pelo menos dois em cada quarteirão. Uma mistura de poluição sonora com poluição visual que ofuscam a visão e fedem nas narinas de gente séria que nela tentam sobreviver. Bares que escondem o pecado original em suas bases. No fundo são antros de prostituição e distribuição de entorpecentes.

Ratos e morcegos são literais. Existem milhares deles pelas valas e bueiros. Mas, também, são simbólicos. São pessoas que sujam essa cidade com suas imundícias e perversões e a transformam neste limbo indescritível. Morcegos que sugam nossas energias com suas mandíbulas doentias. Farmácias imponentes em cada esquina mostram o quanto à cidade é doente.

Sodoma e Gomorra parecem o paraíso diante das atrocidades cometidas nessa cidade. Fogo e enxofre são insuficientes para extinguir o mal enraizado nas ruas e vielas dessa cidade. Uma bomba atômica varreria do mapa essa que é um antro de perdição, mas não conseguiria purificar tanto mal.

Pode-se ouvir, dependendo do poder de audição, o choro contido em almas que perambulam pelas praças e avenidas dessa cidade. Um choro contido e sufocado pela agressão verbal e espiritual impostas sobre essas almas. Não existem pessoas para gritar contra essa opressão desenfreada que toma conta da cidade.

Onde estão as casas de luz vermelha que mostram de forma clara onde se podem esquecer os dissabores de vidas medíocres encurraladas entre quatro paredes? Casas que oferecem um ponto de fuga. Um refúgio para almas incontidas. Como buscar remédio para um mal que não se encontra no corpo e sim no íntimo de cada um.

Mulheres insatisfeitas, mal amadas (ou incompreendidas) que se arrastam e se dobram ao primeiro galanteio de um ser qualquer. Que são conduzidas à promiscuidade e se entregam aos prazeres a ponto de esquecer até de seus filhos. Sanguessugas que espreitam suas vítimas nas mesas de bares e botecos maquinando qual a melhor forma de dar o bote certo. Querem sanar as frustrações que passam nos lares enquanto espera seus maridos chegarem do trabalho.

Nessa ânsia de curar essa dor incurável acabam contribuindo para o crescimento dos motéis e dormitórios secretos. E como um abismo puxa outro abismo contribui também para o crescimento do consumo de bebidas e entorpecentes que, consequentemente, corrobora com o tráfico e crimes.

A cidade não dorme. O silêncio não existe por aqui.

Ouve-se o grito agonizante de almas que rastejam nessa lama de indecência e buscam, de forma desesperada, um braço estendido para salvá-las. Demônios sobrevoam os espaços e lançam seus grilhões de invejas e ciúmes. Mortes bárbaras se tornam corriqueiras e banais diante de uma sociedade que se acostumou com a miséria de vidas sem sentido.

Submited by

Thursday, April 29, 2010 - 21:21

Prosas :

No votes yet

Odairjsilva

Odairjsilva's picture
Offline
Title: Membro
Last seen: 1 day 21 hours ago
Joined: 04/07/2009
Posts:
Points: 21892

Comments

Susan's picture

Re: Cidade sem Cabaré

Odair fiquei sem palavras ao te ler.
A cidade não dorme. O silêncio não existe por aqui.
Sem mais parabéns!
Abraços
Susan

Add comment

Login to post comments

other contents of Odairjsilva

Topic Title Replies Views Last Postsort icon Language
Poesia/Intervention Capitalismo religioso 7 108 03/30/2026 - 19:12 Portuguese
Poesia/Disillusion Distante, não ausente 7 307 03/29/2026 - 14:10 Portuguese
Poesia/Meditation Passado mal resolvido 7 338 03/28/2026 - 00:22 Portuguese
Poesia/Disillusion Se a ausência dói 7 356 03/27/2026 - 19:16 Portuguese
Poesia/Love Essa morada indomável 7 311 03/27/2026 - 11:27 Portuguese
Poesia/Thoughts Apologia ao conhecimento IV 7 424 03/24/2026 - 21:03 Portuguese
Poesia/Dedicated Pantanal 7 146 03/24/2026 - 20:58 Portuguese
Poesia/Meditation Não tenho tempo a perder 7 160 03/24/2026 - 20:52 Portuguese
Poesia/Meditation Como quem evita um abismo 7 378 03/21/2026 - 23:30 Portuguese
Poesia/Meditation Não toleram a superfície 7 511 03/21/2026 - 13:14 Portuguese
Poesia/Thoughts Apologia ao conhecimento III 7 466 03/19/2026 - 22:24 Portuguese
Poesia/Love Até quero falar 7 346 03/19/2026 - 22:20 Portuguese
Poesia/Intervention Quebre o roteiro 7 347 03/18/2026 - 00:42 Portuguese
Poesia/Love Não sei deixar de amar você 7 367 03/17/2026 - 11:26 Portuguese
Poesia/Thoughts Apologia ao conhecimento II 7 844 03/06/2026 - 22:17 Portuguese
Poesia/Love Agora vou dizer 7 539 03/06/2026 - 22:12 Portuguese
Poesia/Love Todas as vezes que olho pra você 7 838 03/06/2026 - 00:47 Portuguese
Poesia/Thoughts Apologia ao conhecimento I 7 728 03/03/2026 - 02:27 Portuguese
Poesia/Love Sem garantias 7 927 03/01/2026 - 14:04 Portuguese
Poesia/Sonnet Um eco em velha história 7 614 03/01/2026 - 13:59 Portuguese
Poesia/Meditation Aquilo que o tempo revela 7 684 02/28/2026 - 23:03 Portuguese
Poesia/Love Um segredo antigo 7 3.514 02/21/2026 - 14:33 Portuguese
Poesia/Passion Teu olhar não pedia devoção 7 2.921 02/21/2026 - 14:27 Portuguese
Poesia/Love Quando falo de você 7 269 02/21/2026 - 14:22 Portuguese
Poesia/Thoughts Poética da euforia 7 753 02/16/2026 - 13:18 Portuguese