Cascata de jade

Sexta-feira, dia de descer até ao mercado Laitai em busca de flores. Distam quase três quarteirões até lá, trinta minutos em passo acelerado, passo normal e desafogado pela brisa do fim da madrugada, entre o sono e o amanhecer, no adeus da noite escura à luz quente e nublada da manhã. Hoje. Sexta-feira.
Dizem que são provavelmente as mais belas flores de todo o continente Asiático, que em nenhum outro lugar se pode encontrar a frescura e a luminosidade de tantas e tão harmoniosas flores. Verdade? Provavelmente sim, provavelmente uma alegoria demasiado credível, visto que quase todas elas, algumas em particular, desaparecem num ápice, tão rápido quem nem o sol se chega a recompor de uma noite em descanso. Dizem que as flores têm sentimentos. Que choram quando estão tristes. Que se revigoram quando sentem alegria. Todas elas têm um significado diferente. O lírio, por exemplo, é geralmente usado nos matrimónios, não só porque fortalece o espírito da união, como também representa cem anos de amor e de sorte. Para adultos de sucesso as flores de ameixa, lindíssimas e aromáticas. As orquídeas simulam classe e bom carácter, bem como os narcisos que representam virtudes inigualáveis e elegância eterna. Às flores de crisântemo chamam-lhes despedidas-de-verão. Destas, as mais desejadas são as encarnadas porque simbolizam uma vida forte e saudável, as amarelas e as brancas usam-se nas cerimónias fúnebres e como adornos nos túmulos. Dizem que nunca se deve oferecer despedidas-de-verão amarelas, traz mau agoiro e antecipa a morte. Algumas têm até importância medicinal, e os chineses mais antigos vêem-nas como prioridade, não como alternativa. As orquídeas, por exemplo, curam doenças pulmonares e tosses possantes. As despedidas-de-verão curam o frio aos idosos. As flores de ameixa fazem milagres no calor e curam até a diarreia.
Hoje, sexta-feira, além das habituais explanações de cactos, bonsais, rosas chinesas, alas de culto de orquídeas com diversos complementos de folhagem, existe uma atmosfera especial em torno de toda a azáfama floral. É o dia da festa de Yuan- Xiao. O dia dos namorados para os cidadãos da China. Em torno das bancas, os rapazes mais fortes sobem aos pontos mais altos para prepararem a decoração tradicional. Irão adornar todo o mercado com lanternas, assim como quase todos os lugares de Beinjin se vestem por estes artefactos luminosos. Lanternas de vidro, de papel, de seda, cada uma delas transmitindo mensagens diferentes através de desenhos paisagísticos, de representações de animais, de seres humanos, e até mesmo de flores que vão combinando com o rebrilhar das pétalas naturais. Há um crescendo de exultação e felicidade em todo o mercado. Vêem-se caras novas, caras jovens. Vêem-se muitos rapazes que procuram ramais perfeitos para oferecer a quem mais amam - até a floreira dos ramos horríveis vende hoje três ou quatro vezes mais - Não fosse eu saber que dia é hoje, quase diria que o amor teria descido à terra e transformaria este lugar num misto de paixão, frescura e fraternidade.
Para além da festa das lanternas, Yuan Xiao, é o que dá nome à comida típica da temporada. Figura o fim da primavera e reza-se para que surjam boas colheitas durante o resto do ano. Pequenos bolos de arroz viscoso, com a forma de um ovo, recheados com as mais variadas especiarias e imaginativos doces. Diz-se que os de cá são os mais doces de toda a China, mas de tudo um pouco se encontra. Ora com açúcar, ora com feijão, com frutas secas, amendoim, chocolate, noz-moscada, tâmaras, uvas, tiras de melão… Hoje, comer Yuan Xiao faz parte da descarga de alegria que rebenta do coração das pessoas.
Vou deambulando entre o perfume dos bazares e os discursos ricocheteados dos comerciantes. A cada passo me sinto surpreendida, estupidamente surpreendida, com a visível necessidade que temos em viver na companhia de outras pessoas, de criar mundos em grupo, de viver apenas para que possamos agradar alguém de que da nossa vida faça parte, e desse modo, sentirmo-nos felizes ou irremediavelmente conformados de que fazemos o que está correcto e que redigimos assim, o circulo perfeito daquilo a que chamamos vida.

***


Ainda não caiu a noite mas já se pode vislumbrar a lua. Também ela parece sentir-se entusiasmada com o espírito festivo e a ventura que paira no ar. Com o céu limpo e energicamente azul, vai surgindo parcialmente apagada, mas com os limites perfeitos que realçam a sua vasta dimensão. É a primeira lua cheia do calendário lunar chinês. E como eu a adoro! E me identifico com a sua paz e a sua feminilidade!
É certo que Pequim é uma cidade imaginária, espectacularmente brilhante e caótica. Mas do seu jeito. No aconchego das montanhas. Na mais segura palma dos mais vigorosos Deuses. Por isso, esta noite, enquanto a lua brilha de janela em janela, não me deixarei seduzir pela fragrância exótica, nem pela gula, nem pelo amor, nem pelos já tão habituais e verdadeiros sorrisos que ornamentam não só as faces conhecidas e desconhecidas, como também as esquinas, as ruas, as luzes, as sedas, as encostas, o submundo, os palácios, as noites e os dias. Beinjin! Aos olhos de todos e de todo o mundo. Não me deixarei seduzir pelo rossio Tian-An-Men, nem por cânticos de pavilhões de cor, nem por escadarias infindáveis, por bosques pitorescos e incomparáveis! Não! Esta noite, noite de sexta-feira, que me enternece a alma e me defuma o coração, apenas poiso confortável no eterno balanço do assento de bambu. Miro, pela pequena janela de vista privilegiada, o imenso, a bruma, e os deuses que de cima olham o burgo da proibição. Indiferente aos habituais solavancos, coices e arrastões do andar de cima - décimo quinto - delicio-me com a vista e com uma chávena de chá preto, como manda a boa tradição de uma boa noite Chinesa.
Pena que não tenha ninguém. Ou um animal. Ter um cão seria excessivamente perigoso e um gato é demasiado aventureiro. Ainda assim, é bom ouvir os festejos por entre o reflexo das lanternas, assustar-me com o fogo-de-artifício, seguir com o olhar o embalo da dança do dragão, e sentir o cheiro do amor. Cheiro que outrora fora desejo. Desejo de amar, outrora um flagício resultante em castigo severo. Castigo que desde sempre, nesta noite - noite de fim de primavera - era excepcionalmente tolerado fazendo as delícias de rapazes e raparigas apaixonados.
Vazo o chá na chávena branca, sentando o bule de bico apontado que não em minha direçao. E espreito o céu e a lua, o altar da madrugada, sem que não haja um novo dia. Sem que não haja uma alvorada. (…)
 

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Thursday, January 13, 2011 - 02:48

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EliasFreitas

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o altar da madrugada

Uma história muito bem desenrolada, o chegar a tempo a nós próprios!

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