"Ansiedade" - prosa poética completa

Quando encontrei essa riqueza por tantos anos perdida, tolamente afastada da realidade, tolamente esquecida, não a soube fazer crer o quão belo seria renascer, pedir perdão à alma e subir os degraus de tão singela confiança que me levasse a terras nunca antes descobertas, disfarçadas pelo anoitecer.
Sorria ao saber que poderia ter tempo para respirar, abrir as asas e pairar sobre o vale de cantos floridos onde nasceu solene magia que incendiou meus olhos como o Sol que incendeia os dias.
Vivo, distante da tempestade que me deixou cabisbaixo, sem sentidos, sem esperança onde me deitar e desejo para retribuir, voava pelo oceano que se estendia entre o poente e a aurora, lânguidos momentos que já não tocam a alma como quem quer escutar a negligência que tanto magoa.
Sentia o vento forte tocar meu peito nu, a dança espectral de mantos sem cor onde pousava a Lua com beijos de doce Senhora que recolhe nos seus braços, os filhos de desejos por nascer…
Ah! Quase me esquecia de vos contar as peripécias que tive aquando naveguei pelo ar como folha já liberta da árvore que corroía o coração, a alma, a mente que visava atenção e vesti o esplêndido véu de maravilhas a descobrir…
Dessas histórias que o Tempo contou, de duendes sem juízo, vampiros que nada sabem do riso aqui estou para a ténebre volúpia enaltecer, desejos libertados de um desconhecido inquietante onde, infelizmente, nada mais se sabe, onde, cobardemente, nada mais se quer saber…
Já vivi muitas eras, todas dentro de uma alma atribulada que sempre quis fugir da prisão do que chorar por ter sido eternamente condenada. Uniu-se sempre a mim, a vontade de renascer, de ter milhares de contos para ler que sempre com sorrisos me enfeitiçaram, que sempre com suspiros me acariciaram e nada de agreste, terror pior do que a peste, pôde os meus olhos para sempre abater.
Essas melodias que os Deuses deram ao Homem a conhecer, que trouxe alegria, vontade de sair de tão revoltada nostalgia para nunca mais apodrecer, que me fazem sentir perdido na beleza de uma qualquer insana Natureza que me fecha os olhos para que não sonhe com nenhum outro jardim...
As vestes de doçura inaudita cuja alma verte desejos tão belos como a alegria da mais requintada celebração... Sonhar é, então, o mais absurdo pecado quando se ama e para a tragédia apenas cantam vultos sem magia, espectros que corroem os céus e de tão inusitada vilania nascem mistérios de sombras sem perfeição.
Encostado à muralha que cobre o meu passado, cabisbaixo e de coração pesado, soluço a dor que cerca a riqueza que já antes me cobriu… Não queria ser seduzido pela mágoa nem pela dor mas sim pela memória da beleza que outra alma possui como o orvalho que cai de manhã e seduz o Sol com o encanto de um outro início, de uma outra meta... Afinal, porque não desejar a felicidade se apenas a memória nos resta?
Tocado pela frescura de invernos, esquecido pelo mais odioso dos infernos, serei ser de alma altiva, poeta que abre os braços para os carinhos de quem pela paixão for cativa... No entanto, não haverá paixão maior do que aquela que já foi, aquela que aqui está e que toca meus olhos com as lágrimas de lábios mudos onde já nada vive para mim…
Agora sei, o amor e a eternidade não combinam... e a dor, nem com a morte tem fim…

Publicada na revista "Origens" em Junho de 2004

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Sábado, Abril 4, 2009 - 22:50

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Parabéns

gostei bué

bjo :-?

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