Bairro do fim do mundo

Na entrada do jardim iniciava o princípio do mundo.
O recorte dos canteiros, ensombravam meios metros de calçada, que desalinhavam em redondos, um xadrez de pedras pretas e brancas que se encovavam com a erosão e se fechavam em labirintos geométricos.
No princípio do mundo, erguiam-se eucaliptos que elevavam copas sombrias e reflectiam em desenhos brisas gentis.
Rumores de ventos e sois, a concluir a fotossíntese das coroas concertadas de amarelos, vermelhos e violetas, que compunham em harmonia o palco de um teatro de insectos e pombos que bebiam água no lago.
Sobre umas mesas que tinham sido plantadas antes do sol me ser luz, o adorno dos tampos em cimento contavam histórias sem meada de pássaros que voavam estáticos em gaiolas de ladrilho que jogavam dominó com os velhos em espera…
O princípio do mundo acabava onde começava o fim do mundo.
Criei-me entre o jardim do princípio e o bairro do fim.
Sempre assimilei com discrição e silêncios, o que era assimétrico entre a serenidade dos pássaros em canto livre do meu jardim sonolento e o frenesim que embarrancava apelos e gritos no bairro do fim do mundo.
Era me estranho e novo de cada vez que a bola chutada com auxilio da brisa e dos apelos, transpunha o jardim e eu me encontrava de corpo crescido a extasiar entre barracas e pobres quase que fascinado com a miséria do mundo envolto em poeira.
Como que por magia, ou assuntos mal resolvidos com a noção do destino, apareciam atrás da bola crianças crescidas que ficavam num deambulo hipnótico a jogar no meio do pó.
Começamos, primeiro por acidente a ir buscar a bola…
Depois, apareceram mais crianças para jogar, o jardim tornou-se pequeno no dominó que embrutecia os dias em espera…
Os pássaros, os velhos, a calçada em xadrez e a fotossíntese da vida, esmoreceram…
O princípio do mundo ficou vazio.
No fim do mundo, encontrava-se de toda a gente…os betos de Cascais impressionados com a adrenalina provocada por jogar na poeira e fartos da rotina que enchia o verão nos seus vagares burgueses, entre a Rua Direita e a Baía a olhar o mar,
as queridas “avant-gard” da linha que habitavam em apartamentos classe média alta, em Oeiras ou Paço de Arcos , os pescadores de Caxias que assobiavam com o cigarro na boca ladainhas imperceptíveis que só os ciganos do bairro entendiam, filhos de empresários do Estoril, empresários do Estoril e uma mescla de liceais e vadios, que davam vida ao fim do mundo e sentido ao jogo.
O fim do mundo era uma espécie de Casbah da linha, dada a delírios consumistas que enfeitavam as almas de cores…castanha e branca.
Não havia noite nem dia no fim do mundo e as crianças crescidas já não dormiam nem paravam no jardim.
O jogo não parava, não cansava, não amávamos, não riamos, não chorávamos, não falávamos…jogávamos e jogávamos, lesionados, com os braços em ferida, com os pés inchados, com a barriga vazia e a morte ao lado, os ciganos a gritar, suplentes a vomitar, as betas possuídas as queridas que se vendiam, os empresários empobrecidos, o bairro entristecido carregado de mortos vivos…que não jogavam dominó!
A praia ali em baixo…e o meu jardim vazio.
Estou agora sentado…
A entrada do jardim inicia o princípio do mundo.
O recorte dos canteiros, ensombram meios metros de calçada, que desalinham em redondos, um xadrez de pedras pretas e brancas que se encovam com a erosão e se fecham em labirintos geométricos.
No princípio do mundo, erguem-se eucaliptos que elevam copas sombrias e reflectem em desenhos brisas gentis.
Rumores de ventos e sois, a concluir a fotossíntese das coroas concertadas de amarelos, vermelhos e violetas, que compõem em harmonia o palco de um teatro de insectos e pombos que bebem água no lago.
Sobre umas mesas que foram plantadas antes do sol me ser luz, o adorno dos tampos em cimento contam histórias sem meada de pássaros que voam estáticos em gaiolas de ladrilho que jogam dominó com os velhos em espera…
Tem de haver o momento em paramos de jogar.
Há o momento que paramos de jogar.
Estou de novo sentado no jardim…há mais de uma década que tento aprender o dominó...sem nunca aprender!
Já não levo a bola...
Mas sempre que vejo uma criança a crescer, para chutar com força…Corro a agarra-la.
Para que possa correr pelas alamedas da vida, sem nunca se perder na poeira dos dias.
Nos bairros do fim do mundo...empoeirados pela tristeza.

Submited by

Jueves, Abril 1, 2010 - 23:54

Poesia :

Sin votos aún

Lapis-Lazuli

Imagen de Lapis-Lazuli
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 11 años 40 semanas
Integró: 01/12/2010
Posts:
Points: 1178

Comentarios

Imagen de Henrique

Re: Bairro do fim do mundo

Bom poema!!!

:-)

Imagen de cecilia

Re: Bairro do fim do mundo

Amigo poeta, a cada frase que leio perco-me nas mil interpretações fantásticas a qual viajo em meditação.
O jogo da vida sempre nos levará ao fim do mundo, cabe a nós transforma-la em jardim florido ou pó.

Favoritos nele.

Beijos
Cecilia Iacona

Imagen de robsondesouza

Re: Bairro do fim do mundo

Lindo texto!!

Entre o jardim do ínicio e o bairro do fim há um grande poeta!

Abraços, Robson!

Imagen de vitor

Re: Bairro do fim do mundo

Este texto poético é simplesmente fabuloso meu caro Lapis-Lazuli!
Tem tudo.Forma poética, prosa corrente, conteúdo, tudo o que um grande autor faz quando ganha um Óscar.
Claro, por vezes não acontece porque o júri está viciado.
Gostei muito.
Abraço.

Vitor.

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Lapis-Lazuli

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Aforismo As arvores não morrem de pé 1 1.410 04/05/2010 - 18:58 Portuguese
Poesia/Pensamientos Bairro do fim do mundo 4 1.407 04/05/2010 - 18:58 Portuguese
Poesia/Aforismo Em solo ébrio 1 1.296 04/05/2010 - 18:09 Portuguese
Poesia/Pensamientos Por onde voam mariposas 5 1.275 04/01/2010 - 02:54 Portuguese
Poesia/Intervención A rir será 5 1.164 03/30/2010 - 08:01 Portuguese
Poesia/Pensamientos Aparte de mim 2 1.297 03/28/2010 - 17:08 Portuguese
Poesia/Aforismo Intendente 2 1.316 03/26/2010 - 16:43 Portuguese
Poesia/Amor Amo-te as coisas pequenas 6 1.032 03/26/2010 - 09:51 Portuguese
Poesia/Dedicada O homem que fazia chover 5 1.213 03/25/2010 - 00:05 Portuguese
Poesia/Pasión Eu quero um Volkswagen 2 1.562 03/22/2010 - 18:25 Portuguese
Poesia/Dedicada Terra Pintada 2 1.076 03/19/2010 - 20:29 Portuguese
Poesia/Aforismo Foste inverno que passou 3 1.340 03/18/2010 - 19:35 Portuguese
Poesia/Aforismo O cagão 1 1.636 03/18/2010 - 18:13 Portuguese
Poesia/Pensamientos Apogeu da inquietude 2 1.291 03/18/2010 - 17:50 Portuguese
Poesia/Meditación Não vou morrer sem chorar 2 1.202 03/17/2010 - 11:51 Portuguese
Poesia/Aforismo Está calor...não está? 3 1.207 03/16/2010 - 21:46 Portuguese
Poesia/Aforismo Bacalhau com natas 3 1.161 03/13/2010 - 18:57 Portuguese
Poesia/Aforismo Lado a Lado 2 1.370 03/13/2010 - 18:52 Portuguese
Poesia/Aforismo De manhã submerso 4 1.485 03/13/2010 - 09:47 Portuguese
Poesia/Aforismo Era uma vez na América 2 1.855 03/09/2010 - 01:52 Portuguese
Poesia/Aforismo You can't always get what you want… 2 793 03/06/2010 - 16:37 Portuguese
Poesia/Intervención Vigília 3 998 03/06/2010 - 16:26 Portuguese
Poesia/Aforismo Hora de ponta 2 1.204 03/06/2010 - 16:22 Portuguese
Poesia/Aforismo Um abraço...porque sim! 7 787 03/05/2010 - 20:10 Portuguese
Poesia/Aforismo Rua dos Mercadores 2 1.016 03/05/2010 - 01:08 Portuguese