Lisboa toda

Avenida 24 de Julho 4.50 A.M…

Quem sabe desta cidade?
Quem pisa as suas calçadas?
Tomara em mim outros olhos, para contemplar nos olhos de um outro que não a soubesse…amor.
Tomara esquecer o cheiro, a luz, as lajes tatuadas de um sombrio secular e salina espumante na boca varina e nos velhos andrajos, vestidos marujos em canastra sardinha nas vielas vadias do tinto e do fado.
Esquecer enforcados estendais rendados de rio com lençóis ao vento que brisa os verões nas escadarias de Alfama.
Quem sabe desta cidade…
Desta cidade toda nua, com frio e penumbra no enregelo nocturno da Rocha Conde de Óbidos…
Do musgo e das putas com cigarros vencidos por acasos da noite sopradas de Brandy, copos de três, bagaços e facas estendidos no chão versos fadistas no embriago das estrelas.
Sou daqui…
É daqui que saio a partir e voltar com respiro de Tejo…
Há um cacilheiro a que dei o nome de “Sempre Regresso”, para aprender a saudade nos meus ires, traidores e viajantes.
Tenho horas da vida com rebocadores bêbados na doca de Alcântara.
Amores juvenis de pátio e de escola com dedilhados sentidos de guitarras mulheres que se foram embora pelos becos mouriscos na Rua da Palma.
Étnico estilo de alfacinha do mundo que descobriu índios negros, ciganos albinos, e Espanhóis rendidos no Martim Moniz…
Sou daqui, sou daqui…
Do Jardim da Travessa dos Pentes, da Rua do Poço dos Negros, do Camões, do poema, em liberdade lusíada no Largo do Carmo.
Sou o fundo e o meio do rio, que draga lembranças e bijutarias na Feira da Ladra…sou santo…
Santo Estêvão, Santa Engrácia, Santo Condestável, sou ateu parido por S. Sebastião numa pedreira de sete colinas na cidade do sol.
Tenho tudo o que é de mim nesta cidade onde não estátua a liberdade mas vê o Cristo Rei…sou a Rua da Gáveas, a Escola Politécnica e a Rua do Sol ao Rato.
Já fui o Castelo e as Avenidas de ar portentoso…
Os Sete Moinhos, o Bairro Santana, Casal ventoso…
É por isso que volto com olhar amargo á minha roda…
Eu não sou daqui, não sou só daqui…
Sou Lisboa toda.

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Domingo, Abril 4, 2010 - 23:48

Poesia :

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Lapis-Lazuli

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Comentarios

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Re: Lisboa toda

Lisboa Lisboa!!!

Bom poema!!!

:-)

Imagen de vitor

Re: Lisboa toda

Sou daqui... mas agora vivo fora.
No entanto, com este portentoso texto poético, senti Lisboa a correr nas veias da saudade, senti reviver o meu passado bons e maus bocados... mas todos da minha cidade do Tejo.
É sempre uma bênção ler-te.
Abraço.

Vitor.

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Re: Lisboa toda

Ler-te é viajar pelas calçadas, abraçar os cheiros, provar as gentes, lamber os monumentos e as historias!
Eu tb sou daqui...
Adorei!
Beijinho em ti!
Inês

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Re: Lisboa toda

Que linda homenagem a cidade que está contida nas suas veias .
Beijos
Susan

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