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FASTOS DAS METAMORPHOSES XII

Cinyras e Myrrha

(Traduzido do Livro X)

Do crime os quadros a virtude apuram.
Esmalta-se a moral no horror ao crime.

O TRADUCTOR.

Cinyras, um dos reis da equorea Chypre,
Podéra numerar-se entre os ditosos,
Se próle não tivesse. Eu determino
Cantar cousas terriveis: longe, oh filhas,
Lono-e, oh paes!... E se acaso as mentes vossas
Ficaram de meus versos attrahidas,
Não julgueis verdadeiro o que me ouvirdes;
Ou, crendo o caso atroz, crêde o castigo:
Se permitte, com tudo, a Natureza
Que tão negros horrores a enxovalhem.
Feliz a Ismária gente, o mundo nosso,
Que jáz distante do brutal, do indigno
Paiz onde nasceu paixão nefanda !
Embora seja fertil, seja rica
De mil perfumes a Panchaica terra,
Tenha alta fama em arvores, em flôres,
Dê costo redolente, e grato amomo,
N'ella cheiroso incenso os troncos súem,
Que a myrrha, que produz, a faz odiosa:
Não vale o que ha custado a nova planta.
Nega o filho de Venus que em teu peito
Seus lustrosos farpões cravasse, oh Myrrha!
Vinga seu facho da supposta infamia.
Com o estygio tição, e inchadas cobras
Vibrou lethal vapor sobre a tua alma
Uma das tres irmãs. Ao pae ter odio
Se é gravissimo crime, é crime horrendo
Amal-o como tu. Por ti suspiram,
Ardem por ti mil principes famosos;
Mil brilhantes mancebos do oriente
Contendem pela gloria de gosar-te:
Um de tantos heróes escolhe, oh Myrrha,
Mas não seja o que tens no pensamento.
Em criminoso amor ella se inflamma,
Em criminoso amor ella repugna,
E diz comsigo: «Onde me leva a, mente !
Que espero, que imagino ! Eternos deuses !
Sancta religião ! Sanctos deveres !
Direitos paternaes ! Tolher-me o crime,
Refreae meu furor, minha maldade;
Se com tudo é maldade o que em mim sinto.
Tão dôce propensão porque a reprovam ?
Os livres animaes amam sem culpa,
Sem culpa gosam, e a união do sangue
Mais suave união lhes não prohibe.
Felizes animaes, feliz destino !
Creou penosas leis o orgulho humano,
Negando o que permitte a natureza.
E' constante porém que existem povos,
Que ha gentes entre as quaes a mãe ao filho,
A filha se une ao pae, e as leis do sangue
Com duplicado amor se arreigam n'alma.
Oh ! misera de mim ! Porque não tive
A dita de nascer n'aquelles climas?
Minha patria é meu mal... que idéas nutro !
Vedadas, importunas esperanças,
Ah! Ide-vos: o pae de amor é digno,
Mas sómente do amor que aos paes se deve.
Se filha de Cinyras eu não fosse,
Podéra de outro modo amar Cinyras;
E' meu como o céo quer, não como eu quero,
Aparta-nos fatal proximidade:
Se não fôra o que sou, feliz seria.
A remoto paiz correr desejo,
Fugindo á patria por fugir ao crime;
Mas o nocivo Amor detem meus passos;
Quer que veja Cinyras, que lhe falle,
Que o beije, se aspirar a mais não posso...
E mais, oh impia, a cubicar te atreves !
Não vês que nomes, que razões confundes !
Rival da mãe serás ! Irmã do filho !
Mãe do irmão ! Não recêas, não te aterram
As negras Furias, de vipérea grenha,
Que os olhos dos perversos horrorizam,
Que ás almas corrompidas se arremessam,
Brandindo o facho de sulphurea chamma !
Pura no corpo, no animo sê pura ;
Não profanes, oh cega, não profanes
Da. natureza o vinculo sagrado !
Suppõe que affecto egual no pae fervia,
Suppõe que era comtigo o que és com elle:
Alta virtude lhe opprimira o gosto,
Sacrosanto dever a amor obstára...
Mas se o que sente a filha o pae sentisse,
Que importára o dever...» — Calou-se, e em tanto
Cinyras, a quem traz irresoluto
A turba dos excelsos pretensores,
Para em fim decidir consulta a filha,
Um a um lh'os nomêa, e d'ella inquire
Qual d'elles mais lhe apraz, que esposo elege.
Em silencio, no pae fitando os olhos,
Arde a triste, e lhe luz na face o pranto.
De virgineo temor crê isto effeito
O illudido Cinyras: que não chore
A' filha pede, as lagrimas lhe enxuga,
E une a ternas palavras ternos beijos.
Myrrha folga com elles; e, obrigada
Do pae que lhe insta, que outra vez pergunta
Qual dos amantes quer: «Um (lhe diz ella)
Um quero egual a ti.» Louva Cinyras
A resposta sagaz, que não penetra.
«Tão pios sentimentos nutre, oh filha,
Conserva essa virtude.» (O rei lhe torna)
A' palavra «virtude» abaixa os olhos
A misera, por vêr que a desmerece.
Era alta noute; os corpos, e os cuidados
Em suave prisão ligára o somno;
Mas a Cinyrea virgem desvelada,
Da indomita paixão curtia as furias,
Louca, fóra de si. Já desespera,
Já quer tentar abominosa empreza:
Pejo, remorso, amor lhe luctam n'alma;
Não sabe o que fará. Qual tronco ingente
Em que abriu fenda o rustico instrumento,
Agora pende a um lado, agora ao outro,
Por toda a parte ameaçando a queda:
Assim, de impulsos varios combatido,
Vacilla o coração da acceza virgem;
Anda de sentimento em sentimento,
E asylo contra Amor só vê na morte.
A morte em fim lhe agrada, e quer, e ordena
Perder n'um laço urgente a vida acerba.
Em alta, longa trave o cinto prende,
E diz com surda voz: «Adeus, Cinyras,
Do meu tragico fim percebe a causa.»
N'isto accommoda o laço ao niveo collo.
Mas o murmurio das sentidas vozes
Vae aos ouvidos da fiel matrona,
Que aos peitos a creou, que a serve, e guarda,
Repousando no proximo aposento.
Surge, corre, abre as portas, vê pendente
O instrumento da morte, e solta um grito;
Magôa o peito, as faces, e lançando
As mãos ao duro laço, o tira, o rompe,
Em pranto se desfaz, abraça a triste,
Da desesperação lhe inquire a causa.
Muda fica a donzella, e de olhos baixos,
Com pena de escapar-lhe o bem da morte.
Insta a velha matrona amargurada,
E ora lhe mostra o peito a que a nutrira,
Ora os cabellos, que mudou a edade;
E pelo antigo, maternal desvelo,
Pelo dôce alimento, e dôce afago
Com que a tractára na mimosa infancia,
Lhe implora a confissão do mal que sente.
Myrrha volta o semblante, e geme, e cala;
Mas a velha importuna as preces dobra,
E, além de prometter- lhe alto segredo,
Lhe diz: «Consente, que eu te preste auxilio;
Frouxa, inutil não é minha velhice.
Se um phrenesi te deu, com magos versos,
Com hervas virtuosas sei cural-os:
Se olhos maus te empeceram, não te assustes,
Serás purificada em mago rito.
Se é cholera dos céos abrandaremos
A cholera dos céos com sacrificios.
Que mais te hei de suppôr ? Tu não provaste
Golpe algum da fortuna: és adorada,
És feliz: tua mãe, teu pae são vivos...»
Ao patrio nome um ai do peito arranca
A inflammada princeza, e bem que a velha
Do suspiro não vê a origem torpe,
Que nascera de amor suppõe comtudo.
Tenaz em seu proposito, não cessa
De explorar-lhe a razão do que padece;
Ao seio a chega, e n'um estreito abraço,
«Amas, bem sei (lhe diz) temor não tenhas;
Falla, quem é o amante? A industria minha
Fará com que teu pae nunca o suspeite.»
N'um subito furor lhe sáe dos braços
A anciosa donzella, e sobre o leito
As faces apertando, eis diz: «Ah! Foge,
Ah ! deixa-me, cruel, poupa-me o pejo,
Deixa-me, ou cessa de indagar meus males:
O que intentas saber é crime horrendo.»
A rugosa matrona, ouvindo-a, treme;
As mãos, co'a edade, e c'o temor convulsas,
Levanta, aos pés lhe cáe, e ora com mimos,
Ora com ameaços quer vencel-a.
Protesta-lhe, se em fim lhe não descobre
O terrivel segredo, ir accusal-a,
Ir declarar ao pae tudo o que vira:
Protesta-lhe tambem que, se a contenta,
Ha de ajudar-lhe os tácitos amores.
Ergue a cabeça a misera donzella,
De lagrimas lhe inunda o seio annoso;
Mil vezes quer fallar, fallar não póde,
E o lacrimoso aspecto envergonhado
Tapa co'as lindas mãos, até que exclama:
«Oh feliz minha mãe com tal consorte !»
Mais não disse, e gemeu. Subito á velha
Um frígido tremor penetra os membros,
As carnes, os cabellos arripia.
Ella entende o terrifico mysterio,
E quer com mil conselhos vêr se applaca
A detestavel chamma incestuosa.
Que nenhum lhe aproveita a virgem sabe,
Sabe que morrerá, se o fim não logra
Dos activos, phreneticos desejos.
«Vive (lhe torna a fragil conselheira)
Em breve gosarás de teu...» Não ousa
Dizer pae, e com sacro juramento
Sellou no mesmo instante impia promessa.
As festas annuaes da flava Céres
Então as mães piedosas celebravam;
Com roupas côr de neve então cobertas,
Davam louras primicias das searas
A' deusa tutelar, urdiam c'rôas
Das proveitosas messes, e se abstinham
Do tacto varonil por nove noutes:
De amor lhe era o prazer então defeso.
Do Paphio rei a esposa ás mais se aggrega,
E com ellas exerce o rito augusto.
No tóro conjugal só jaz Cinyras.
Eis a velha subtil vae ter com elle,
Que perturbado está de cyprio nectar,
E de uma illustre virgem lhe declara
Verdadeira paixão com falso nome.
Louva-lhe as faces, louva-lhe os cabellos,
Louva-lhe os olhos, tudo o mais lhe louva,
* D'elle exigindo consentir que expire
* O virginal pudor na escuridade.
Os annos da donzella o rei pergunta:
«E' (lhe torna a sagaz) egual a Myrrha.»
Ordena-lhe que subito a conduza;
Volve ao seu aposento a seductora,
E á virgem diz: Alegra-te, princeza,
Vencemos.» — Não sentiu a malfadada
Gosto completo, o coração presago
Não sei que lhe annuncia; inda assim folga:
Tanto em discordia traz os pensamentos !
Era o tempo em que reina alto silencio;
Na immensa esphera o gélido Bootes
Entre os frios Triões volvia o carro.
A donzella infeliz caminha ao crime:
Envolvem densos véos a eburnea lua,
Negro, térreo vapor enluta os astros,
Dos claros lumes seus carece a noute.
Icaro, tu primeiro o rosto escondes,
E Erígone piedosa, a prole tua,
Do filial amor sagrado exemplo.
Tres vezes a misérrima tropeça:
Como que o céo lhe diz que retroceda:
Tres vezes sólta ao ar agouro infausto
No lugubre clamor funéreo môcho:
Ella, comtudo, não suspende o passo;
A muda escuridão minora o pejo.
Leva a sinistra mão na mão rugosa
Da torpe, abominavel conductora,
E vae co'a dextra tenteando as trévas.
Da estancia paternal já chega á porta,
Abrem-lh'a já, já entra: os pés fraquêam,
Foge a côr, foge o sangue, e cáe o alento.
Quanto da atrocidade está mais perto,
Tanto mais se horrorisa, e se arrepende,
E deseja voltar desconhecida.
A infame confidente a vae puxando;
Do rei com ella ao thalamo se encosta,
E diz-lhe: «o que eu conduzo é teu, recebe-o.»
Eis no thalamo o pae recebe a prole,
E, sentindo-a tremer, quer dissipar-lhe
Com mil caricias o virgineo medo.
Pela edade, talvez, lhe chama filha,
E ella chama-lhe pae (ao negro crime
Nem taes nomes faltaram). D'entre os braços
Do incestuoso amante em fim se aparta
Myrrha, levando em si da culpa o fructo.
Coube á noute seguinte o mesmo opprobrio,
E outras mais d'este horror manchadas foram.
Finalmente Cinyras, cubiçoso
De vêr o objecto, que entre sombras gosa,
Com repentina luz, que tinha occulta,
Encara, e reconhece o crime, e a filha.
O excesso da paixão lhe embarga as vozes;
Cholerico se arroja ao duro ferro.
Foge Myrrha, e da morte a noute a salva,
Foge Myrrha infeliz, discorre os campos,
Sáe da Arabia Palmífera, e Panchéa.
Nove luas vagar sem tino a viram,
Té que no chão Sabêo parou cançada.
Já do fructo recondito, e molesto
Apenas sustentar podia o pezo.
Sem saber o que faça, o que deseje,
Temendo a morte, aborrecendo a vida,
Dest'arte implora o céo: «Numes ! Oh numes !
Se ante vós aproveita ao delinquente
Confessar seus delictos, eu confesso
Que o meu crime é crédor d'alto castigo.
E á pena que mereço eu me conformo.
Mas porque nem vivendo affronte os vivos
Oh deuses, nem morrendo affronte os mortos,
Mudando a minha essencia, a minha fórma,
A morte me negae, negae-me a vida.»
Taes preces algum deus lhe ouviu propicio:
Eis, abrindo-se a terra, os pés lhe sorve,
E em subita raiz ao chão se afferram,
Alicerce tenaz do tronco altivo.
Os ossos ganham forças mais que humanas,
Em succos vegetaes se torna o sangue,
Os braços, que ergue ao céo, mudam-se em ramos,
Os dedos em raminhos se convertem,
E a lisa pelle em desigual cortiça.
Crescendo a planta, já lhe cinge o peito,
Já vae cobrindo o collo: esta demora
Não soffreu a infeliz, curvou-se um tanto,
E o semblante gentil sumiu no tronco.
Bem que despisse a antiga intelligencia,
Chora comtudo, e d'arvore sensivel
Tépidas gotas inda estão manando.
Co'as lagrimas dá honra, co'a figura
Myrrha não perde o nome, e de evo em evo
Sua historia fatal será lembrada.

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domingo, novembro 1, 2009 - 21:10

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