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FASTOS DAS METAMORPHOSES XVII

Pico e Canente

(Traduzido do Livro XIV)

Pico, de Ansonia, rei, S a t u r n i a prole,
Nas graças corporaes era estremado,
Do espirito nos dons não menos bello.
Quarta vez o espectaculo guerreiro,
Que em Elide se usou de lustro em lustro,
Não podendo o mancebo inda ter visto,
Já olhos, já suspiros attraía
Das Dryades gentis nos Lacios cumes.
Vós o amaveis também, vós o seguieis,
Candidas filhas das serenas fontes,
Oh Nayades do Tibre, e do Numicio,
Deusas do Nar veloz, do Arno pequeno,
Do Farfaro sombrio, e do Anio puro,
Co'as outras, que da Scythica Diana
Moram nos bosques, nos visinhos lagos.
Mas todas enjeitava, e quiz só uma,
Só uma o captivou, penhor mimoso,
Que lá no monte Palatino a Jano
(Segundo é tradição) Venilia dera.
Nos annos de hvmeneu florecc a nympha;
Preferido entre mil competidores
Eis a Pico em Laurento Amor a entrega.
Rara na gentileza era Canente
Rarissima porém na voz, no canto:
Com elle pedras, arvores movia,
Detinha os rios, amansava as feras,
Tirando ás aves o temor, e o vôo.
Ella o seu dôce amor cantava um dia,
Quando aos Laurentes campos contra os bravos,
Cerdosos javalís saiu o esposo.
De alentado ginete o dorso opprime,
Tem na dextra, e sinistra agudas lanças,
Preso o phenicio manto em laço de ouro.
Fôra a filha do Sol aos mesmos bosques
Para colher no monte as hervas novas,
Distante dos Circêos, a quem deu nome.
D'uns ramos escondida o moço vendo,
Se assombra, cáem-lhe as hervas que apanhára;
Já lhe lavra a paixão de vêa em vêa.
Apenas volve a si do vivo assalto
Tenta manifestar o ardor interno,
Mas do ginete a fervida, presteza,
E os circumstantes guardas o estorvaram.
«Nem que te roube o vento has de escapar-me,
Se inda eu sou a que fui, se inda ha virtude
Nas plantas, e meus versos não me enganam.»

Diz: e eis um javalí de aereo corpo,
Finge-o, perante o rei correr o manda,
E mostrar que se acolhe aos densos matos
Em parte onde o cavallo entrar não possa.
De imaginaria presa hallucinado,
Salta o mancebo das fumantes costas,
Segue esperança vã, fallaz objecto,
Discorre aqui, e ali pela alta selva.

Já Circe principia as magas preces,
Em verso ignoto adora ignotos deuses,
Verso com que ennegrece, esconde a Lua,
Com que o Sol, com que o pae de sombras mancha.
Assim que os sons do encanto o céo condensam,
Que um vapor tenebroso a terra exhala,
E pelo bosque os mais vaguêam cegos,
No escuro as guardas já do rei perdidas,
Apto o logar, e o tempo achando a amante:
«Oh tu entre os mortaes o mais formoso,
(Suspirando lhe diz) por esse aspecto,
Por esses que os meus olhos encantaram,
E fazem com que eu deusa te supplique,
Premêa activo amor, em que me inflammas;
O Sol, que tudo vê, por sogro acceita,
Duro não fujas da Titânia Circe.»

Disse, porém feroz elle a regeita,
Elle rogos, e affagos lhe repulsa,
Responde: «Não sou teu, quem quer que sejas;
«Outra me tem captivo, e praza aos numes
Que dure longamente o captiveiro.
Os laços conjugaes, os puros laços
Não hei de enxovalhar de amor externo
Em quanto amigos fados me guardarem
De Jano a filha, a singular Canente.»
Circe (enfadada de lhe instar sem fructo)
Diz: «Não, não has de impunemente amal-a,
Nem jámais tornarás a vêr a esposa.
Mulher depois d'amante, e de offendida
Conhecerás o que é para teu damno
Sou mulher, offendida, amante, e Circe.»
Ao occaso, ao nascente então se volta,
Duas vezes áquelle, a este duas;
Depois no corpo do gentil mancebo
Tres toques dá co'a vara, e diz tres versos.
Elle foge, e da propria ligeireza,
Da nímia rapidez vae admirado:
Eis que subitamente em si vê azas.
Affrontado, raivoso de sentir-se
Ave nova adejar nos lacios bosques,
Despede o féro bico aos duros troncos.
Com furia aqui, e ali golpêa os ramos.
Côr de purpureo manto as pennas ficam,
Em pennas o aureo nó tambem se torna,
Lista dourada lhe rodêa o colo,
E a Pico do que foi só resta o nome.
Entretanto por elle os seus clamavam,
Sem podel-o encontrar na longa selva.
Circe em fim lhe apparece (as auras tinha
Adelgaçado já, já pernittido
Que o sol, e o vento as nevoas dissipassem)
Mil crimes exprobrando á vingativa,
Guardas, monteiros o seu rei lhe pedem,
E dispõe-se a cravar-lhe as ferreas lanças.
Succos de atro veneno a maga entorna,
A Noute, os numes d'ella, o Cahos, o Averno
Pelo forçoso encanto ali convoca,
E óra á terrivel Hecate, ululando.
Eis salta do logar (que espanto !) o bosque,
Amarellece a folha, e geme a terra,
Tingem-se as hervas de sanguineas manchas,
Roucos bramidos sáem das rotas penhas,
Ouvem-se cães latir, silvar serpentes,
Vê-se o chão d'ellas negro, e tenues sombras
Nos ares em silencio andar girando.
Attonitos de horror descoram todos:
Mas co'a vara tremenda, e venenosa
Toca-lhes Circe as bocas assombradas.
Pelo tacto fatal se tornam monstros
De improviso os mancebos lastimosos,
E nenbum permanece a antiga fórma.
Já no occidente o sol fechara o dia,
E com olhos, com alma em vão Canente
Pelo perdido esposo inda esperava.
Pizam bosques, e bosques servos, povo
E com fachos nas mãos exploram tudo.
A nympha de chorar não se contenta,
Aos ais, aos gritos, e arrancando as tranças,
Quantos extremos ha, todos pratíca;
Sae, corre, vaga, insana, os lacios campos.
Seis luas (infeliz!) seis sóes a viram
Em continuo jejum, continua véla
Por valles, por floresta, por montanhas,
Por onde o desacordo a foi levando.
Do pranto, e do caminho emfim cancada,
O Tibre a viu caír na margem sua,
Ali ao desamparo, ali sósinha
A triste, modulando acerbas magoas,
Soltava um tenue som, qual canta o cysne
O debil verso precursor da morte.
A amante deploravel manso, e manso
Em lagrimas saudosas se liquida,
Vae-se ali pouco a pouco attenuando,
E nas auras subtis se desvanece.
Pelo caso o logar ficou famoso:
Vós, do nome da sympha miseranda
Canente, oh priscas Musas, lhe puzestes.

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domingo, novembro 1, 2009 - 21:26

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