A insustentavel dureza de Ser...
Não.
Não te perdoo.
Porque não há nada a perdoar,
as magoas já há muito que rumaram a sul,
juntamente com as outras aves migratórias...
E eu, que nunca fui nómada,
deixei-me ficar no azul dos meus sonhos,
a vasculhar se havia alguma coisa p'ra comer...
Não.
Não te ofendo.
Nem me prendo a provocações estúpidas,
porque as discussões só fazem sentido
quando gritamos ao ouvido de alguém:
OUVE-ME!
E eu tenho as cordas vocais delicadas...
E tu nasceste sem ouvidos...
Um dia,
há muito tempo atrás,
talvez ontem,
ou a semana passada,
ou há décadas,
nem sei...
Acreditei que havia um homem dentro de ti,
e agarrei-me a um destroço de esperança
com unhas, com dentes, com tudo...
Mas o destroço desfazia-se dentro da agua do teu silêncio...
E eu morri na praia, a olhar para ti,
mudo e sem reacção alguma...
Gritei por ti,
uma,
e mais uma
e mais outra
e outra vez ainda...
E Tu viraste as costas e foste fumar um cigarro,
enquanto poluías o teu ar, o meu ar morria...
E eu dividi-me e vi-me morrer,
deitei-me ao meu lado e chorei comigo,
porque não havia mais ninguém...
Limpei-me as lágrimas,
abri um buraco na areia,
com as mãos...
E sepultei-me o mais fundo que pude...
Inês Dunas
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Poesia :
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Comments
Re: A insustentavel dureza de Ser...
Acreditei que havia um homem dentro de ti,
e agarrei-me a um destroço de esperança
com unhas, com dentes, com tudo...
Mas o destroço desfazia-se dentro da agua do teu silêncio...
E eu morri na praia, a olhar para ti,
mudo e sem reacção alguma...
Gritei por ti,
uma,
e mais uma
e mais outra
e outra vez ainda...
E Tu viraste as costas e foste fumar um cigarro,
enquanto poluías o teu ar, o meu ar morria...
A desilusão aqui bem expressa!!!
Bom poema!
:-)
Re: A insustentavel dureza de Ser...
Posso nem sempre o dizer, mas ler-te é sempre um assombramente. Maravilhamento. Sei que o (a) poeta é um instrumento das palavras, mas serve-as melhor, se polido pela força viva da nossa própria "insustentável dureza de ser". E acredito que tu sustentas as palavras de sentimento que por ser nosso, é teu, é de todos. E diz à sensibilidade de todos.
Beijooooo
Re: A insustentavel dureza de Ser...
Desgraçado de quem te fez isso...
Diz-me quem é que vou lá dar-lhe uns tabefes ;-)
Beijo...
Re: A insustentavel dureza de Ser...
E eu dividi-me e vi-me morrer,
deitei-me ao meu lado e chorei comigo,
porque não havia mais ninguém...
Limpei-me as lágrimas,
abri um buraco na areia,
com as mãos...
E sepultei-me o mais fundo que pude...
Tenho para mim, que uma boa conversa, começa com "Eu".
Adoro como caminha no papel, se torna algo irresistível.
Beijo pra ti Inês
Re: A insustentavel dureza de Ser...
ainda ontem os silêncios martelavam-me pregos nas mãos , pregavam-nas a um corpo que só tinha ar por dentro. um silêncio, mais grave, martelou com força demais e o prego furou-lhe a pele. foi vê-lo desaparecer numa nuvem qual balão insuflado. desta vez morri com as mãos em sangue e os tímpanos rasgados pelo silêncio de uma sombra. amanhã só quero ouvir o canto dos pássaros
abraço
Re: A insustentavel dureza de Ser...
E Tu viraste as costas e foste fumar um cigarro,
enquanto poluías o teu ar, o meu ar morria...
E eu dividi-me e vi-me morrer,
deitei-me ao meu lado e chorei comigo,
porque não havia mais ninguém...
Limpei-me as lágrimas,
abri um buraco na areia,
com as mãos...
E sepultei-me o mais fundo que pude...
Contrapondo com a "insustentável leveza do Ser", este é um modo de sentir e ver as coisas por todos os ângulos possíveis, até nada mais restar, a não ser viver o nosso fado até ao mais profundo de nós
Belo como sempre, Inês
Beijos