Escrever é pra mim outra coisa

Escrever é pra mim outra coisa e uma coisa outra qualquer assim como o terror absoluto do qual não se acorda nem nos deixa alerta,

Assim como um esquecimento desconhecido
que se conhece, mesmo que não se queira assumir, desonesto quanto uma medalha que tem dois lados,

Escrever é pra mim,
Todo o mal e toda a cura, a asneira grotesca,
Escrever é para mim uma tesoura dura, o corte e a cesura,
Não é o efêmero nem é pura aposta, não dura nem perdura,

Escrever pra mim é o maior mal,
A menor derrota,
A maior paixão e a mais crua agonia,
Ou a pior venérea doença da qual padeço,

Como um mau fármaco que abomino e me mata,
Ao qual volto sempre e torno,
torno a tomar, a hora mais dura na noite escura, no breu,

A cansativa falha de caráter
que desprezo e me empobrece, os olhos da nuca quais não vejo nem esqueço,

Qual feitiço me apodrece a alma,
A farsa que fede grosseira, a voz que não se me cala, o vírus endêmico e a cela

E em que vivo ritualmente por viver
e por não ter outra pior coisa, ou angústia mais tétrica na vida

Nem o que fazer ou sentir que mais abomine,
nem mal maior que possa infligir a mim próprio ou exorcismo satânico,

Pântano de aguas podres onde me afogar uma e outra vez,
Num e noutro e outros piores momentos da vida,
E de novo a cada momento
Em que escrevo e me martirizo,

Entristeço por não querer ou não poder mais parar.

Escrever é para mim o “prozac” do desencanto,
o desencontro com a real realidade,

O mau olhado, o receio profundo e factual,
o medo inexplicável do abismo,
a perca da dignidade assumida linha a linha,

O fio da navalho e a feia mão do barbeiro,
o barbante, a corda ou guita,
uma mistura de covardia mística e cedência que ninguém deseja
e faz doer sem queixa ou consolação,

Assim como a mais terrível doença venérea
escrupulosamente catada escarafunchada e esgravatada da mais sórdida
estrumeira humana que se conhece.

Assim é o escrever para mim, o frio da navalha,
o sofrimento pungente dilacerante e em estado puro,

A droga mais dura, a sífilis mais impura,
a prostituta mais suja e reles,
a hora mais negra e escura,
a honra que me falta

E a razão porque não choro nem mesmo perante o erro crasso, o facto de que me acusam em falso, a acha que me queimará vivo e em vida,
o ferro do machado, da hóstia a que me nego,

A guilhotina fatal ou o céu estrelado na sovina noite negra e preta,

Assim como o meu crustáceo ego.

Joel Matos 20 Outubro de 20/25

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Jueves, Diciembre 11, 2025 - 20:25

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Assim é o escrever para mim,

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