Por onde voam mariposas

Hoje acordei cansado!
Estaquei com demolidos joelhos á janela… e a chuva…
Cansado como os anos que terei quando o sol me comparecer em adeus.
Fumei de madrugada no quarto ás escuras pelas quatro embaciadas nos olhos acesos.
Queria que o mundo me soubesse as noites.
Das sangrias aos escorregões no encerado dos tempos.
Senti vontade de vós…de voz, de sós, todos juntos a falar a madrugada com estrelas do astro verbo em nossa boca.
A descompanhia fez-se gramática ás horas da solidão.
Não…não da minha solidão…mas das solidões da noite que abandonam o fim da estrada para lá desta janela.
Eu queria renascer…por onde voam mariposas...
Queria encarnar num pássaro ou em máquina voadora com coração de gente…
Queria ser meridiano ou movimento planetário em translação poética nos dias do mundo inteiro...hoje acordei cansado!
O rádio amanhecido com crónicas telegráficas em frequência modelada na manhã fecundada numa sintonia húmida dos meus olhos secos de noite.
Rezo para que uma avaria mantenha no vermelho todos os semáforos da cidade…
Para que uma paralisia celeste congele os corpos na rua e eu saia a desenhar traços de humanidade no rosto dos descampados…
Depois um exercito de mimos, de palhaços, trapezistas, a fazer malabarismos pelo meio da auto-estrada com lágrimas torrenciais onde nasce o sorriso grávido de primavera…
Uma invasão de louva-a-deus com milhões de borboletas a fantasiar o céu de cores e verdes esperanças…
Hoje acordei cansado!
Alinho os ângulos indiferentes da cidade por detrás de um vidro vingativo que só reflecte semáforos, de passageiros incógnitos…
Lavo a cara no café com as breves do jornal…hoje o mundo aconteceu…
Vou por florestas de pedra, veredas dos homens sós com pântanos anoitecidos…
Para lá da solidão sou uma fracção refém que respira olhos da gente…
E abraço o mundo inteiro tão longe da indiferença, muito longe desta estrada…
Onde vive colectiva a utopia dos homens que acordam cansados… porque sonham o mundo novo…
Hoje acordei cansado.
Por onde voam mariposas...

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Martes, Marzo 30, 2010 - 01:42

Poesia :

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Lapis-Lazuli

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Comentarios

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Re: Por onde voam mariposas

Lapis-Lazuli

A destreza com que referes ao teu dia, faz menção ao verdadeiro do que me faz agora sentir.
Bela escrita.
Abç
Cecilia Iacona

Imagen de Benedita

Re: Por onde voam mariposas

Confesso que não possuo a tua destreza no que toca aos comentários que me fazes. Podias fazer deles a tua própria poesia.

Beijo

Imagen de vitor

Re: Por onde voam mariposas

Hoje acordei cansado... senti o peso do mundo em cima,
com sono ressonado dormia, enxaqueca e corpo esmagado.

Abraço.
Vitor.

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Re: Por onde voam mariposas

Bom poema!!!

:-)

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Re: Por onde voam mariposas

Tocante e emocionado! Grande abraço

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