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EPISODIOS TRADUZIDOS XV

Sobre as façanhas dos Portuguezes
na expedição de Tripoli

Composto na lingua latina, e oíferecido ao Serenissimo Principe Regente
D. João, por José Francisco Cardoso, e traduzido por M. M.
de B du Bucage. Anno de 1800.

Tels ont été les grands, dont l'irmnortelle gloire
Se grave en lettres d''or au temple de Membire.
Le Roi DE PRUSSE, Epit. I.

Musa, não temas; vibra affouta o plectro.
Se tentas sublimar-te a grandes cousas,
Se mais que a força tua é tua empreza:
Eis numen bemfazejo inspira o canto,
Numen, de quem rival não fôra Apollo,
Nem de aonias irmãs turba engenhosa.
Sonham poetas vãos Parnaso, e Pindo;
Hippocrene é chimera: a ti dimana,
Do solio desce a ti feliz audacia,
Que a mente acobardada esforça, agita.
Assim remontarás segura os vôos;
Assim transpondo os céos, transpondo os mares,
Irás desentranhar, colher arcanos,
Não corruptos na voz da Fama incerta.
Outros (como que folguem de illndir-se)
Mandem rogo importuno aos deuses do estro;
Cubicem na Castalia mergulhar-se.
João, cujo poder no mundo é tanto,
E a cujo arbitrio cabe alçar o humilde,
O elevado abater, protege, oh Musa,
Teus sons, teu merito; e com benigno acêno
Ordena, que altos feitos apregôes:
Idéa, engenho, ardor de lá te influem.
A' sombra já de auspicios tão sagrados,
Claros louvores de immortaes guerreiros
Anhela celebrar fervendo a mente;
Dizer, com que perfidia atroz, e infanda
Foi pela maura estirpe despertado
Nos lusos corações o fogo antigo;
Qual soffreu nova pena a gente odiosa;
Té que Marte á justiça os constrangesse.
Longe, longe as ficções, tua alma ingenua
Só quer, Principe Augusto, a ingenuidade.
Onde o mar pelas terras mais se alonga,
Em cuja boca é fama erguera Alcides
Arduas columnas, das fadigas termo,
Jaz annosa cidade, que parece
Do Carthago ás ruinas esquivar-se,
Olhando ao longe de Sicilia as praias:
Outr'hora fundação nobre, opulenta,
Em tanto que do intrepido Navarro
Opprimida não foi com duro assedio:
Hoje triste enseada, e mal seguro
Surgidouro aos baixeis. Dali costuma
O rapido chaveco atraiçoado
As infestas rapinas arrojar se;
De miseros mortaes ali mil vezes
C 'os sanguentos despojos volve alegre;
Nem se apraz só do roubo a raça infame,
Nodoa, horror da razão, da natureza:
Aos fracos agrilhôa as mãos inermes;
Quaes brutos, os alhéa a preço de ouro,
Ou lhe esmaga a cerviz com jugo indigno:
Eis seu louvor, seu nome, a gloria sua.
Ali preside asperrimo tyranno,
De torpe multidão senhor mais torpe;
Monstro, que desde a infancia exercitado
Em tudo o que os mortaes nomeam crime,
Sacrilego infractor das leis mais sanctas,
Delicto algum não vê, que em si não queira,
E dóe-se de o perder, se algum lhe escapa:
Maldade horrivel, que prodigio fôra,
Se estes dos homens sórdido refugo,
Desparzidos no globo, o não manchassem.
Oh quanto mais se deve estrago, e morte
Ao barbaro tropel, que um tracto amigo,
E aquella mutua fé, que enlaça os povos !
Mas se robustas mãos, que o sceptro empunham,
Não chovem contra os féros inda o raio,
Tempo, tempo virá que exterminada
(O coração m'o diz com fausto agouro)
Apraza acantoar a iniqua turba
Lá onde os invernos carregado,
Junto ás extremas Ursas vai Bootes
Regendo a custo o vagaroso carro;
Ou lá onde rebrama o sul recente,
Haja taes cidadãos deserta plaga,
Até que a eternidade absorva as eras:
E das brenhas no horror, no horror das grutas,
Companheiros das féras, monstros novos,
Vivam de sangue, como as féras vivem,
Na garra, e condição peiores que ellas.
A maldade em caracter convertida
E' sempre mãe do crime, e a natureza
Já despir-vos não sabe, artes perversas.
Como ha de a voz saudavel do remorso
Melhorar corações, depois que n peste
De corrupta moral se arreiga n'elles;
Fermenta, lavra em fim de vêa em vêa,
De seculos a seculos medrando ?
Quando os dons se amontoam sobre a culpa?
Quando a penuria a probidade ancêa,
De um vulgo detestavel acossada?
A tudo a negra turma inverte os nomes;
O bom desapprovando, ao mau se afferra:
E é tanta nos crueis do crime a sede,
O exercicio do mal taes forças ganha,
Domina tanto ali, que nunca omittem
Opportuna estação de perpetral-o,
Ou do ardor de empecer, ou da cubiça
Da illegitima presa esporeados;
Como se a rectidão, como se a honra,
O que a todos illustra, os deslustrasse.
Não com lingua fallaz taes vozes sólto:
Ninguem no mundo o que descrevo, ignora.
Quem de olhos carecer, e quem de ouvidos,
Só não conhecerá, quão vis alumnos
Pela terra esparziu o audaz Mafoma,
O refalsado auctor da seita infanda.
Que dólos, que traições, que iniquidades
Da caterva brutal provaste ha pouco,
Tu dize, tu, magnanimo Donaldo;
Conta os varios successos, conta os riscos,
Os trabalhos, que a ti, e aos teus urdira
Atro perjurio do bilingue chefe;
Tudo porém trophéo das forças tuas.
Lustroso do esplendor de imperio summo,
Tu foste quem primeiro apresentara
A dadiva da paz, que, apadrinhado
De um rei potente, o barbaro implorava.
Quando é que as condições mais leves foram ?
«Entreguem-se os francezes acolhidos
Brandamente de Tripoli nos muros,
Ao throno do sultão pezada offensa,
Grave infracção tambem do jus britanno,
Da assentada concordia, e laço antigo.
Bachá, cumpre o dever, e a tens desejos
Verás a conclusão, verás o fructo
Grã penhor te dará na fé, na dextra
Aquelle, cujas leis adora o Tejo,
Ufano revolvendo arêas de ouro;
Cujas leis teme o Niger, teme o Ganges;
São freio, acatamento do Amazonas,
Do Argenteo, que em torrentes resonantes
Immensos cabedacs aos mares levam.»
D'alta alliança o régulo sedento,
Folga, exulta, accelera-se, convida
O animoso guerreiro ao forte alcaçar.
Quer, comtudo, exercer primeiro astucias,
Que o feio coração lhe está brotando,
Bem que tanto aproveite, o tanto alcance
No que diz co'a razão, no que é justiça.
Dá-se pressa: ameacem muito embora
Caso fatal as horridas muralhas,
Encerre o que encerrar ambigua estancia;
Todo firmodo em si, maior que o susto,
Vai demandar o heroe a hostil morada.
E' d'est'arte que só, que destemido
Carlos outr'hora ousou nos proprios lares
Encarar o inimigo exacerbado,
Volvendo illeso aos seus, depois de muito;
Ou tal, fieis annuncios desprezando.
Foi Cesar envolver-se entre os conscriptos,
Dispostos á catastrophe cruenta;
De indócil ao temor, de habituado
Só co'a presença a triumphar mil vezes.
Entre as sombras da noute absorto em tanto,
Mettido em pensamentos veladores,
Até que ás ondas volte o grande chefe,
(Se lhe é dado talvez tornar, qual fôra)
Impéra n'alta pôpa o delegado;
E o luto que'lhe cinge a phantasia,
Recata com semblante esperançoso.
Partindo prescrevera o cabo invicto,
Que, a negar-lhe o regresso indigna força,
Apenas alvejasse a grata Aurora,
Trazendo novo lustre ao céo, e á terra;
Com todo quanto impulso em lusos cabe,
Os perfidos contrarios commettessem.
Nada cura de si; nem quer ausente
Ser obstaculo aos seus: co'a idéa erguida
A bens de mais valor, de mais alteza,
A vida se lhe antólha um sonho, um nada.
A' mente perspicaz não se lhe esconde,
Sente no coração, votado á gloria,
Que da existencia a luz é luz de raio;
Que, se as tubas da Fama os não precedem,
Vastos nomes no Lethes se baralham
Entre escuro montão de escassos nomes.
O que affecta os sentidos deixa ao vulgo;
Enjeita o que o do vulgo, o que é da morte,
E mais que humano, e sobranceiro ao Fado,
Quer duração, que os seculos abranja.
Por que os Fabios direi, sós contra um povo
Todo o pezo da guerra em si tomando ?
E o rei, que deu, morrendo, aos seus victoria,
Rei derradeiro na Cecropia terra?
Ou porque os moços, que exhalando as almas,
Ferem, matam, derrubam densas hostes,
Estorvo das correntes, que bebiam?
Tropel dez vezes cento (oh maravilha!)
Maior que seis terríveis adversarios;
Não visto n'outro tempo, ou n'outros climas,
Nem por outrem guiado ao marcio jogo ?
Vetustos monumentos nada ensinam,
Que dê mais esplendor; ou antes nunca
Se affoutou a idear viril denodo
Empreza mais illustre, audaz, violenta.
Mas como transcender-se as métas podem,
Onde se crê parada a natureza,
Donaldo o manifesta, o prova ao mundo.
Alta fama de um só consente apenas
A Codro, aos Fabios, aos varões de Esparta
O secundario gráo Soltando a vida,
Chama o triumplio aos seus o heroe de Athenas,
Acção rara, exemplar; porém ao povo
O cidadão; e o rei deviam tanto,
E a tanto a voz dos céos o arrebatava.
Se os trezentos impavidos romanos
Aos arraiaes hostis se arremessaram,
Foram-lhe origem da proeza extranha
Velha aversão, trophéos imaginados,
E agouros de segura eternidade;
Além do outro incentivo inda mais caro:
Morrer nas armas, escudando a patria !
Laconios campeões, sim defendestes
Com requintado alento, e planta immovel
Da apertada Thermópylas o passo;
Mas os deuses, os filhos, paes. e esposas
Os objectos do culto, e do amor vosso
A' vossa heroicidade objectos foram;
E deram-vos os fados, que a vingança
Aligeirasse em vós da morte o pezo.
Porém de circumstancias mais sublimes
O egregio, immortal feito se rodêa,
Que me cumpro levar por toda a terra:
Graveza aos hombros meus descompassada,
E excessiva talvez de Atlante aos hombros.
Não, aqui não se off'rece abrilhantada
De attractivos externos a virtude:
Núa apparece aqui, por si formosa.
Donaldo, avesso ao crime, o crime odêa,
Por amor da virtude, ama a virtude.
Nada do que usa erguer ao alto as mentes,
Nem patria, nem desejos de vingança,
Nem propria utilidade, ou qualquer outra
Das humanas paixões Donaldo incita:
Ante si do dever só tem a imagem,
Seja qual fôr o effeito, ou ledo, ou triste.
Ai ! que tramas dispõe bando horroroso !
Que ciladas no astuto pensamento !
Plebe sem lei, sem fé prepara a furto
Traidores laços ao varão, que assoma.
Já na imaginação devóra a presa:
De engenho mais sagaz se crê dotado,
Mas jus colhe ao louvor quem da perfidia
No atroz invento sobresae aos outros;
Quem das negras, pestíferas entranhas
Crime inaudito, insólito attentado,
Nova abominação vomita, arranca,
Rugindo em torno rábida caterva.
Mal que na odiada arêa a planta imprima,
Esperar n'um punhal o incauto, e ás ondas
Em pedaços (que horror!) lançar-lhe os membros:
E' d'este opinião;—voto é d'aquelle,
Que subito assaltêe impia cohorte
O immune orgão da paz, e ferreas pontas
Daqui, d'ali no coração lhe embebam,
Quando a infiel cidade entrar seguro.
Quer outro, que de longe á fronte heroica,
De inviolavel caracter decorada,
D'entre o lume sulphureo vôe a morte.
Outro, que subterranea estrada infensa
Debaixo de seus pés ardendo estoure.
Nem occorre isto só: aevezam todos
Horrores, que requintam sobre horrores.
Emulo ardor nos animos damnados
Tanta aos delictos affeição lhe atêa !
Tão preciosa lhe é, tão doce a infamia !
Mas o Eterno desfez insidia enorme.
Nos olhos do varão, na voz, no aspecto
Tal reverencia pôz, pôz tal grandeza,
Que vai por entre a luz, e os inimigos
Incólume, e sereno. Eram famosos
Por sanguineas, innumeras brutezas,
Quantos d'esta (a maior) se encarregaram.
Mas quando o pensamento abominoso,
Lá já fito na presa, a mão dirige,
Nega-se a mão (que assombro !) ao acto horrendo.
Tres vezes a vontade resoluta
Se abalança á traição: descáe tres vezes
N'um frigido pavor o algoz congresso:
Tres vezes foge o ferro ás mãos, que tremem;
E, a seu pezar, baldada a vil perfidia,
Conduz pela cidade insidiosa
Inerme o vencedor triumpho insigne.
Já pisa do tyranno os pavimentos,
(Não indignos de Caco) ou para dar-lhe
Penhor de amiga paz, ou o ameaço
Do trovão, que no bronze o pólo atrôa.
Eia, em que te deténs, varão prestante?
Porque inda não rebomba o som do raio
Nos insanos ouvidos? Porque em terra
Os féros baluartes não baqueam ?
Porque o regio baixel não solta os pannos,
E o barbaro palacio não fulmina ?
Crês, que te é dado achar sobre essa plaga
Uma só vez a fé ? Jámais Astrea,
Desde que o globo é globo, estancia teve
N'esse terreno infesto, onde a verdade,
Onde os tractados, a razão se volvem
N'estes dous eixos só: ou ouro, ou medo.
Rompe, rompe as tardanças, não perdôes
A' malvada nação: com ella expendam
Donativos os mais, tu ferro, e fogo.
A Politica em vão, que tudo aplana,
Em vão contradicções compôr quizera,
Com que as palavras entre si repugnam:
A progenie de Agar só teme a força.
Em quanto implora a paz subtis pretextos
Tece o arteiro bachá, para que frustre
Clausula, em que sómente a paz se estriba.
Não é porque o francez cubice amigo;
Mas é porque o francez, e o luso engane;
Debalde, que a sisuda sapiencia
Rege, illustre Donaldo, as vozes tuas;
E ao doloso africano o dólo argue.
Tu primeiro lhe expões, quão mal conforma
Co'a honra, de que túmido alardêa,
Dar manso gasalhado aos inimigos
Dos alliados seus, do gran monarcha,
A cujo imperio vassallagem deve.
Tu promettes depois, já que ao falsario
Egualmente o sultão de côr servia,
Mandar-lhe sobre a pôpa lusitana
A origem do debate, os prisioneiros,
De barbudas escoltas ladeados,
(Gloria nunca outhorgada a musulmanos).
Desmanchas do Agareno as fraudes todas;
Mas, aos mesmos princípios afferrado,
No objecto, em que insistiu, tenaz insiste,
E ás vozes da Equidade é surdo, é morto.
Colhido havias de experiencia funda,
Quanto a sanha mourisca apura extremos
Em odio da justiça, e quanto indóceis
Torne indulgencia os animos ferrenhos,
Que já da natureza assim vieram.
Mas prompto a derrocar soberbas torres,
E prompto a confundir no horror da morte
Mancebos, e anciãos, credores d'ella,
Artes macias sobre a impia turba
Todavia exhaurir primeiro intentas:
Vêr, se lugubre quadro de ruinas,
Pela voz da eloquencia reforçado,
Por dita amedrontava a casta imbelle,
Miserrimo espectaculo poupando,
Que o coração magnanimo te aggrava:
De insolito rubor as ondas tintas,
Em sangue humano as terras ensopadas.
Mas a dôce piedade que aproveita ?
Morre a esperança; infructuosos jazem
Cuidados, e fadigas: inda geme
A humanidade em ti, porém releva
Punir da humanidade os inimigos.
Em fim braveza hostil o heróe concebe;
Notando quanto é cega a gente infida,
Sáe dos horridos tectos infamados,
Sáe da féra cidade, e deixa o porto,
Quem facil até'gora ouvia as preces,
Já ferve por calcar insano orgulho:
Não de outra sorte pela selva umbrosa,
Ou quando sobre as lybicas arêas
Famulento caminha o rei das féras,
Desdenha generoso o passageiro,
Que, preso do terror, no chão palpita;
Mas se a pé firme alguem lhe está defronte,
Co'as garras o derruba, o despedaça;
E audaz, e truculento, e com rugidos
Onde ha mais resistencia, ali mais arde:
Succeda que o provoque, e desafie
Duro esquadrão, de lanças erriçado:
Arremessa-se a todas; e se morre,
Morre, como leão, sem côr de medo.

Dos lusos entre os vivas sôa o bronze;
E eis sanguinea bandeira açouta os ares,
Presagio de terrifica matança,
A bellicosa turba em si não cabe;
«Armas, armas, (vozeam) guerra, guerra:»
Tudo se apresta, e tudo aos postos vôa,
Em quanto a náo desfere as pandas vélas.
Luz na dextra o murrão; e em fim patentes
As éneas bocas cento agouram mortes.

Já treme a desleal cidade impura;
Já para os céos estende as mãos profanas;
Já se diz criminosa, e se pragueja.
Breve espaço, em que o animo repouse,
Em que dispa o temor, e se consulte,
Manda ao luso implorar, que annue ao rogo.
Retarda-se horas doze a justa pena,
Justa ha muito, e que em fim será vibrada
Sobre as inf amias da nação proterva.

Lume sereno, que azulava o pólo,
Medonhas nuvens entretanto abafam;
Sombras pezadas prognosticam males.
E' voz, que lá no centro dos infernos,
A bem dos consanguineos musulmanos,
E em despeito aos christãos, que Lysia nutre,
Que ora os muros mahométicos assombram
Com proximos estragos, ante o solio
Do torvo Dite eortezãos immensos
Co'as mãos erguidas longamente oraram,
Attento ouviu Sumano os impios votos;
E um dos ministros seus, que jaz mais perto,
Ordem recebe de surgir ao mundo,
De voar n'um momento á vasta Eolia,
E dos tufões ao rispido tyranno
Taes vozes transmittir: «Que altiva gente,
«Que indomita nação, capaz de tudo,
«(Por quem malquisto sempre, e defraudado
«O reino do pavor carece de almas)
«Sobre quilha arrogante aparta as ondas,
«Os dominios do equóreo irmão lhe insulta,
«Que tambem da intenção quer advertido;
«Para que ambos co'as forças apostadas,
«No mar cavando, erguendo abysmos, serras,
«O lenho injusto, audaz sacudam, rompam,
«Que apavóra de Tripoli as muralhas,
«A elle, stygio rei tão importantes:
«Perdidos os pilotos, e arrancada
«Do alto pégo, ou nas férvidas arêas,
«Ou nas sumidas rochas arrebente:
«Os fremitos do auxilio em vão rogado,
«A festiva cidade escute, e veja
«Nas aguas os christãos bebendo a morte.»
Disse, e o nuncio veloz ao mundo surge,
A' basta Eolia vôa, e cumpre o mando.
Já rompem da masmorra os Euros bravos;
Já comsigo arrebatam quanto encontram.
Foje o molle Favonio, foge o dia:
Os campos de Nerêo a inchar começam:
Ao longe horrendamente o pégo ronca:
Eis subito encanece, e todo é montes.
Quasi, quasi a cair d'um, d'outro lado.
Os mastros vergam, as cavernas rangem:
Qual (se alguem a jogou) saltante péla,
Roça o pinho os infernos, roça os astros;
Vai, e vem vezes cento abaixo, acima.
Carrancudos tres sóes a luz negaram,
Por tres noutes o céo não teve estrellas !
E se Éolo, em seu impeto afracando,
Deu ao dia segundo algum repouso,
O experto general o ardil penetra:
A' guerra apercebidos cbamma, e ferro,
Em tanto que, Neptuno fraudulento,
Tomas serena face; ao alto a prôa
Que se enderece, ordena, assim que os ventos
As vagas sobre as vagas encapellam:
Não succeda, que o pélago fervente,
Os insanos tufões contra as arêas
Com um, com outro embate o lenho atirem.
Então, quanto se dá vigor em numes,
Na lide porfiosa os dous esmeram:
Em roda novo horror carrega os mares.
Os sanhudos irmãos guerreara, berram,
De regiões oppostas rebentando:
Escarcéos, e escarcéos lá se atropellam:
Por longo espaço treme o fundo aquoso;
Como que está Plutão do stygio centro
CVos duros hombros abalando a terra.
De taes, e tantas furias assaltado,
Que arte guiar podia o lenho indocil?
Nem lignea robustez, nem cabos valem:
Cáe com ruidoso estalo a rija antena,
E batem susurrando as rotas vélas.
D'estes gravames nada oppresso em tanto,
Por tudo se divide, a tudo acode,
Todos co'a voz, e exemplo aviva o chefe,
Grassando em todos émula virtude:
Não ha frouxos: maream, saltam, correm.
A engenhosa prudencia em fim triumpha;
Vence a constancia audaz; e a largos pannos
Vae-se amarando ovante a náo veleira.
Aquelle, cujo aceno os astros move,
Que rege o mar, o vento, o mundo, o Averno,
Progresso não permitte á raiva undosa:
E se até'li soffreu, que encarniçados
Marulhos, furacões travassem guerra,
Foi para que altamente as memorandas
Forças do luso peito reluzissem.
Noto, Austro, Boreas, Áquillo emmudecem
Manso, e manso: e, despindo as prenhes nuvens,
O céo veste um azul sereno, extreme.
Volve o molle Favonio, volve o dia,
E volvem mais que d'antes amorosos.
Fôra imposto a Tritão pegar do buzio,
Com que as ondas revoque: o buzio toma;
Surde por entre espumas orvalhoso,
A encher co'a voz sonora em torno os mares.
Eis sópra a concha ingente, e mal que sópra,
Resôa pela Aurora, e pelo Occaso.
Tornam violentas a seu leito as vagas:
Esta recua ás siculas paragens
Por não vasto caminho; aquella ás Syrtes
Fervendo em rolos vae; remotas margens
Mais tarde outra revê, d'onde corrêra
Ao nome, que a attraíu, que á patria sua,
E a Tripoli é commum: tambem alguma
Foi visinhar co'as aguas do Oceano:
Tal que d'antes jámais deixára o fundo,
Ao fundo se desliza, e jaz, e dorme.
Na quarta luz emfim desde as alturas
Tostada multidão, que lá vigia,
Presume illusa descobrir ao longe
Cadaveres boiantes, vergas, taboas:
Ha entre elles alguem, que derramados
Té de Lysia os thesouros vê nas ondas;
E quem menos de lynce arroga os olhos,
Se atreve a assoalhar, credulo, insano:
«Que se o pégo poupára algum dos lusos,
«Só reliquias a náo desmantelada
«Ia reconduzindo aos patrios lares.»
Mas em quanto delira o povo adusto,
A gavea se desfaz ao sopro amigo:
Tentam de novo defrontar co'as praias,
Que á merecida pena em vão se furtam.
Bem que findasse a noite, o róseo Phebo
Não com tudo esmaltava, o mar, e a terra;
Não era o tempo então nem luz, nem sombra.
Porém como surgiu dos Thétios braços
O filho de Hyperion, e os céos lustrando,
Com seu raio expulsou de todo as trévas,
Alcança de mais perto, e vê primeiro
Navegante polaca a véla, e remos,
Que aos nautas patentêa: o lenho a segue;
Rapida foge: o remo, o vento a ajudam.
Como no espaço azul medrosa pomba,
Apenas a aguia sente, apressa os vôos,
Contra as unhas crueis buscando asylo;
E em seus tremores incapaz de escolha,
De logar em logar sem tino adeja,
Por ferinos covis, palacios, bosques,
Assim (quão raramente!) escape ás garras:
Cegual modo, apurando ás tenues forças,
A curta embarcação, para salvar-se
Do inimigo fatal, varia os bordos:
Mas vendo que evital-o é vão projecto,
Tomada do receio, a prôa inclina
A' conhecida arêa, e quasi encalha.
Já com menos affronta aqui respira;
Porque os baixios arenosos védam
A tremenda invasão da lusa quilha.
Então jactanciosa eleva a frente:
As flamulas no tópe lhe floream;
Guerra ameaça então, e á guerra chama
Braços, a que a distancia tólhe o raio.
Esta audacia, porém, não fica impune:
Que obsta a mortaes de espirito arrojado,
Quando iroso calor lhe accende o peito?
Ao mar leves bateis subito descem,
E commandados. de um, que os sobrepuja,
Vão co'a vingança fulminar o aggravo.
Sobre elles, á porfia, a flôr dos lusos
Enceta heroicamente a grave empreza.
Gentilezas á Fama deram todos;
Todos em feitos grandes se estremaram.
Mas o louvor primeiro a ti compete,
Que d'arvore de Pallas te appellidas,
E cinges vencedor com ella a fronte.
Em saltar ao batel tu te anticipas;
Tu dos igneos pelouros não detido,
Fórças os remos, a inimiga aferras,
Quando a fusca equipagem temerosa,
Ao fragil seu baixel picando a amarra,
Nas praias dá com elle, dá comsigo,
E n'ellas imagina resoguardar-se:
Tu primeiro tambem sobre os contrarios
Disparas ferreos globos, que os cyclópes
Forjaram, fabricando a Jove as armas.
Mais inda remanesce, inda te sobram
No ensejo marcial discrimes duros,
Assombrosas acções, que te levantem
Ao cimo de fragoso, aereo monte,
Lá onde em paços de ouro a Gloria reina
Com sceptro diamantino, e circumdada
De numerosa, esplendida assembléa;
Entre a qual pela mão da Eternidade
Teu vulto surgirá, marmoreo todo.
Para tanto não basta, que empolgasses
O curvo bordo opposto, ou que o subissem
Os companheiros teus, depois de expulsa
A vil tripulação por vis terrores.
Os azares, e os jubilos se enleam,
Porque a mesma desgraça, o que no mundo
E' mal, é damno a todos, te aproveite.
Repentina resaca a dous comtigo
Constrange a recuar no debil casco,
E á praia arroja os tres, quando refine.
Aqui se vê, qual és, que ardor, que alento
Te abrange o coração, te anima o pulso:
N'um feito herculeos feitos escureces,
E quando as musas fabularam d'elles.
Féra gente, de arabica linhagem,
De torva catadura, hirsuta, e negra,
Pelos serros contiguos vagueando
A' maneira de lobos, se apascenta
Nas rezes dos rebanhos desgarradas;
Ou, émula do tigre, as selvas rouba,
Rouba os redis: e o medo, o sangue, a morte
Diffunde aqui, e ali. Muniu-se agora
De armas de toda a especie: uns vibram lanças,
Outros forçosa vara, espadas outros,
Ou pedras, ou punhaes, ou fogo, ou settas.
Eil-os das agras serras vem correndo
Acudir aos irmãos: (quem ha que os conte ?
São quaes manadas, que devastam campos).
Como hardida phalange escalar tenta
Castello situado em cume alpestre,
Ou romper torreões de alta cidade:
Uma, e outra caterva os tres investe,
E quanto esforço tem, no ataque emprega.
Se a cada qual dos tres té'li se oppunham
Mouros cincoenta, os arabes, que occorrem,
A cada qual dos tres oppoem milhares;
Todos bravios, formidaveis todos !
Em que facudia taes portentos cabem ?
Quem ha que pasme assás de taes portentos ?
Quem, se não fôra testemunha o mundo,
Por fabula, ou por sonho os não teria ?
Troam da Fama no clamor; e vivem
Olhos, que os viram, braços, que os fizeram.
Era para attentar tão nova scena !
O denodado heróe, e os dous. que inflamma,
As bravuras sustêm de um povo inteiro.
Rue a raivosa, rustica torrente;
Retumba em valle, e valle a grita horrenda.
D'ambos os lados o guerreiro apertam:
Sibilam tiros, golpes se redobram;
Mas elle eo'a sinistra, elle co'a dextra
A multidão rechaça, illeso, immoto.
Aos barbaros o pejo atiça as furias:
De artes mil desusadas se refazem
Na espantosa refrega; mas sem fructo:
O varão permanece invulneravel,
E nas stygias aguas cem mergulha.
Para aqui, para ali a espada é raio,
Nunca em vão. D'um, que audaz de perto o arrosta,
Enterra-a nas entranhas; outro que era
De membros gigantêos, de lança enorme,
E exhortava na frente á guerra os tardos,
À dous golpes, não mais, do luso Achilles
Jaz inerme; e com um, com outro arranco
O espirito feroz lhe cáe no inferno.
A este, que na terra ancioso arqueja,
Vão as auras vitaes desamparando;
Aquelle é tronco só: por toda a parte
Voam braços, cabeças, fervem mortes.
Oh tu, que dos Almeidas tens o agnome,
Tu, que ligar podeste em nó lustroso
A's honras de Mavorte as de Minerva,
Tambem te faz eterno este aureo dia.
Se os lusos, que pelejam sobre as praias,
E aquelles, que a polaca prisioneira
(Sossobrado o batel) retêm no bojo,
Onde de longe os vexa o mauro insulto;
Se todos volvem salvos, obra é tua.
Em quanto por auxilio a uns, e a outros
Envias Alexandre, nunca esquivo
Da nobre estrada, que trilhara o Grande,
Ignivomo canhão, que infatigavel
Respondera a dezoito bronzeas bocas,
E silencio lhe impôz, de novo esparge
Por entre horrivel som, e opáca nuvem
No centro dos cerrados africanos
Granizo de lethifera metralha.
O primeiro terror tu lhe infundiste,
Tanto que a de Mafoma agreste chusma
Viu córados de sangue arêas, mares:
O mandado varão cr'oou a empreza.
Rapidamente o remo as ondas varre,
E Sousa impetuoso aos socios chega:
Contra os donos assesta o bronze adverso.
E assim lhes restitue as ferreas balas.
Já cede, já fraquêa a tropa escura,
De convulso temor enregelada.
Eil-os fugindo vão, nem que aves fossem;
Por uma, e outra parte se tresmalham,
Crendo sentir estrépito, que os segue.
Á bordo então Donaldo os seus convoca:
Corre a abraçal-os, e na voz, na face
O cordeal prazer exprime a todos.
Memorando as façanhas uma a uma,
Do condigno louvor as enche, as orna,
Altivo de reger tão brava gente.
Mal que o descanço os animos sanêa,
( J á declinante o sol do ethereo cume)
A' terra se avisinha o mais que póde
A bellicosa náo; e c'os primeiros
Coriscos marciaes vareja o bando,
Que em mór tumulto as praias enxamêa.
Do grande lenho á sombra os lenhos breves,
(Porque estanhado o mar jaz em silencio)
Artes, e forças empenhando, intentam
A maura presa despegar da margem;
Vãmente; que folgando o lindo côro
Das filhas de Nerêo, sobre ella salta,
A querem para si, lhe chamam sua.
E quem de um nume á prole, aos seus direitos
No patrio senhorio obstar podéra?
Ou pulsos briarêos onde acharia,
Para o trabalho immenso? Ella, com tudo,
Nereidas, não foi vossa, inda que dignas
Sois de mil dons, e como Venus bellas.
O que á victoria escapa, engole a chamma;
De jus: damno menor maiores véda;
Mais facilmente detrimentos leves
Caracter pertinaz subjugam, domam,
Do que meigo favor o torna grato.
Arde o pinho, o furor vulcaneo reina:
Nutre o pez, e o betume as pingues flammas,
Tanto á pressa, que em vão, inda recentes,
Extinguil-as quizera industria humana.
Crebros estalos se ouvem: d'entre o fumo
Brotam centelhas mil, como que aspiram
Às estrellas volver, d'onde emanaram.
A lignea contextura, eis toda é fogo;
E o fogo em linguas cento as nuvens lambe.
D'entre penedos, e arvores, que a abrigam,
Ao longo da ribeira a má progenie,
Acceza em furias vãs, o incendio nota:
Cuidadosa de si, da luz não fia;
Artes, porém, que póde, a salvo exerce.
D'ali com mira attenta os marcios tubos
Uma vez, e outra vez dão som baldado;
D'àqui baldados seixos vem zunindo,
Ai! não todos baldados: mão tyranna
Em alvo, que lhe apraz, co'a morte acerta:
E aquelles, que a bem custo um só poderam
Tocar com leve golpe em campo aberto,
Da perfidia amparados, se gloriam
Ao vêr que um senvi-morto os socios levam.
De Marte a crua irmã quer este sangue.
Havendo de lavar aos vencedores
Tudo quanto é mortal e dar-lhes vida,
Com que assuberbem as idades todas.
Silva por isto os seculos invade
Em rapida carreira irresistivel;
França por mãos da Gloria enloura a fronte;
Rocha morrer não sabe; o mesmo ignora
Esse, a quem de Homem o appellido ajusta;
E o que chamam da Guerra, e que o merece:
E tu, claro Avellar, com elles vives,
Com elles viverás, em quanto a Honra
Tiver cultores, e existencia o mundo:
Ri-se Virtude assim das leis do Fado.
Era o tempo, em que a lassa Natureza
Appetece o repouso; em que os Ethontes
De nectar se roboram; quando a noute,
Diurnos pezadumes ameigando,
Desdobra sobre a torra o véo dos astros.
A quebrantada força então renovam
Os descançados, os jacentes nautas:
Inda estão repisando o que lidaram.
Este a aquelle refere, aquelle a este,
Que riscos evitára e que feridas;
E quantos despenhou na sombra eterna.
Fallam uns, outros fallam, té que o somno,
Nunca tão brando, lhe entorpece as linguas.
Mas da fallaz cidade o chefe injusto,
De importunos cuidados perseguido,
Os mimos de Morphêo gosar não póde.
Seu negro coração ralam remorsos:
Toma, pela desgraça, o pezo ao crime,
Ao crime, indole sua, e seu costume.
O baixel, que perdeu, não dóe ao féro;
Os mortos cidadãos tambem não chóra;
Olha sómente a si: já vê, já ouve
As flammas vingadoras; sente o ferro
Ir-lhe sobre a cerviz; escuta o baque
Das muralhas, das torres: pendem, pasmam
Alvedrio, Razão; que escolha ha n'elle ?
«Novamente o varão, que vezes tantas
Illudiram traições (diz o tyranno)
Emprehenderei mover ? Submisso rogo
Ha de sempre acalmar-lhe as justas iras ?
Se os francezes lhe der, tão mal negados,
Será bastante ? O que exigia, havendo,
Não ousará tambem quebrar promessas,
E no abuso da fé regosijar-se ?
Vingança é deleitosa ao resentido;
Sómente se não vinga o que não póde.
Que, p o i s ? . . . Á dubia sorte dos combates
A mim proprio exporei, e os meus prazeres ?
Dubia disse?. . . Tental-a é perder tudo.
Se poderam só tres pôr medo a tantos,
E esses mesmos a vida (oh pasmo! oh pejo!)
A tantos arrancar, ficando illesos,
Quem ha que lhe resista, unidos todos ?
Foge, infeliz; e o que podéres, salva;
Foge: assim pouparás vergonha, e morte.
Mas ah! triste! Em que plaga irei sumir-me?. . .
Que mar, ou que paiz, bem que deserto,
Guarida me dará, profugo, errante?. . .
Quem terei, que me siga, amigo, ou servo,
Já nua de esplendor minha grandeza ?
Antes vulgo infiel apoz meus passos
Bramindo correrá; e ou da existencia,
Ou dos haveres meus, ou d'ella, e d'elles
Por carniceiras mãos serei privado.
Não, não; nossos desastres custem caro;
Usemos toda a fraude, os crimes todos.
Cerque-se de traições esse guerreiro,
Vaidoso do trophéo: co'a falsa offerta
De tudo o que de mim quizer o avaro,
Posso aqui outra vez, posso attrail-o.
E quando imaginaria utilidade,
Vã cubica o trouxer, se das ciladas
Intacto apparecer ante meus olhos,
Em pedaços farei co'as mãos, co'a bôca
A nefanda cabeça: ao peito aberto
O coração maldicto hei de arrancar-lhe;
Roel-o, devoral-o inda fumante.»
Tal esbraveja; e nem a si perdôa,
A si labios, e mãos morde, remorde:
Qual horrida serpente, encarcerada
Entre ferreos varões, se alguem a assanha,
Com rapido furor se desenvolve,
Cem vezes arremette ao que a provoca;
Mas vendo que debalde exerce a furia,
De sangue os olhos tinge, agudos silvos
D'entre as fauces veneficas despede,
Com que a farpada lingua está vibrando;
Em tudo o que rodeia, em tudo ferra
Os espumosos dentes, e em si mesma,
Enxovalhando o chão, e a varia cauda
Co'as sordidas peçonhas, que vomita:
Em tanto o mofador se ri seguro.
Da Aurora o nuncio amiudara o canto;
O matutino humor tempéra as magoas,
E os somnos insinúa até no afflicto:
Por isso do bachá desatinado
Virtude soporifera se apossa,
Lhe amansa os phrenesis, lhe cerra os olhos.
Como quem fatigado está das iras,
Pezadamente o barbaro resomna:
A seus males, porém, não colhe allivio,
Nem demorada paz lhe rega os membros.
Phantasmas, que velando o espavoriam,
Inda entre a dôce languidez o aterram;
Vê-se indigente, só desamparado,
Ermos em outro mundo a pé trilhando,
Ermos sem rasto de homem, nem de féra;
Onde ave alguma não discorre os ares.
Já sévo abutre de implacavel fome
Lhe atassalha as entranhas; já querendo
Fugir de hasta inimiga, que o persegue,
Que lhe toca as espaldas quasi, quasi
Treme todo, e mover não póde a planta;
Já pende de ardua rocha sobre as ondas.
Eis entre estas visões, que traça o medo,
Imagem verdadeira, agigantada,
Clara, como o que a luz nos apresenta,
Surge aos olhos do attonito agareno.
Aquelle a quem venera ainda o Ganges,
E o rio, que Imaús na origem banha;
Aquelle, que de jus nomeam Grande,
De Marte émulo não, mas luso Marte,
Albuquerque immortal, de amor eterno
Pelos seus penhorado, esquece o néctar;
E, escusando um momento os bens celestes,
Não desdenha baixar aos impios muros,
Nem co'a palavra serenar discordias.
A' náo, que do seu nome se engrandece,
Arde por madurar devidos louros.
Com vozes ponderosas accommette
O aterrado tyranno, que machina
Na desesperação atrocidades.
Resplandece o guerreiro; é tal, é tanto,
Como quando o temeu por vezes duas
A que do indico estado hoje é cabeça;
Como quando Malaca o viu triumphante;
E em ti, pomposa Ormuz, pendões erguia:
No magestoso olhar, na longa barba
Traz a veneração, e arnez e todo.
«Que intentas, miseravel? Que revolves
No espirito dobrado ? (a sombra exclama).
Crês acaso afastar o mal, que te insta,
Perfídia com perfídia encadeando ?
Não sabes, por ventura, a quem te atreves ?
Que nação contra ti, que throno irritas ?
Esquece-te, que nunca impunes deixam
Taes crimes? Quem melhor que mouros, deve
De Luso conhecer a ousada estirpe ?
Inda que até dos teus a historia ignores,
Força é que saibas o que sabem todos:
Que estragos, que deshonras grangeaste
D'este povo de heróes, em resistir-lhe.
«Sobre esmagados collos de reis mouros
O maior dos Affònsos, o primeiro
Impõe da monarchia a base eterna.
Flagello assolador da maura gente,
Em quanto a regia mão fulmina o ferro,
E o gran Mendo, nas portas entalado,
Abre caminho aos seus; eis se apoderam
Da celsa fortaleza, e da cidade,
Que é longa tradição fundára Ulysses;
Essa, que do aureo Tejo honrando as margens,
Alterosa, escorada em septe montes,
Taes fados mereceu, que ambos os pólos
Tiveram de acatar-lhe as leis sagradas.
Sancho, digno do. pae, com quantas mortes
Injustas possessões ao mouro arranca,
E ajunta novo reino ao reino avito !
Ondas de negro sangue mauritano
Pela terra, visinha, e pela herdada
Derramam, coriscando, outros Affonsos.
«Nem maculou sómente os nossos campos
A mortandade vossa. O quinto Affonso,
E o primeiro João restavam inda,
Que ao proprio seio d'Africa levaram
Ferro, e flamma, e terror: Manuel restava,
Feliz, (e com razão feliz chamado)
Que, maior do que o seu, quiz ter mais mundos,
E a quem prostrados reis seu rei quizeram.
Tangere o sabe; Arzilla, e Ceuta o dizem;
O attestam indios, númidas o attestam.
Relatar uma e uma acções tamanhas
Para que ? Dos heróes sómente os nomes,
Sem o immenso louvor, que os acompanha,
Pedem horas: sobeja o que has ouvido,
Para attentares bem, que lance estreito
E' o lance, em que estás, e com que gente.
Pondéra ainda mais, quão despreziveis
São para o portuguez ciladas tuas:
Ha muito que a experiencia nos ensina
Até que altura o mouro enganos sobe:
A prudencia, e valor nos meus competem.
«Porque, pois, te detens ? Supplice, e curvo
Uma vez, outra vez, porque não rogas
Aos lusos teu perdão, bem que indevido ?
Se elles se pagam de calcar soberbas,
Se de punir delictos se comprazem,
Apiedar-se do réo tambem lhe é uso,
Quando os implora. Ao tempo, em que vingado
O sol tenha o zenith, a náo possante,
A maior, que teus portos fortalece,
Será do vencedor; sel-o-hão com ella
Dois menores baixeis recem-captivos,
E o chefe, e as equipagens numerosas.
Mas não temas; co'a supplica rendida
Tudo recobrarás. Cubiça de ouro
Jámais vicía o peito aos generosos:
Náo quer servos, nem presas; quer amigos
Minha honrada nação. Eia, aproveita
O tempo, que te é dado: olha, que foge.»
Disse, e voou sem que resposta espere:
Salta do leito o mouro arripiado,
Volve em torno, e revolve os turvos olhos.
Quasi arrombando as portas, corre tudo,
Tudo vê, chama, brada, acodem servos;
Mas não sabe o que diga, absorto, insano.
N'isto ao mar de repente os olhos volta:
Por todo elle os alonga, e fica immovel.
Em quanto as ondas sofrego examina,
Não ser sonho a visão, no effeito observa.
Vê como a lusa náo demanda o porto:
Como proxima a elle, em roda vira;
Como enfunada, e mais veloz que os Euros,
Vae dar caça ao baixel, que ao longe aponta
Com remeira galé; vê como as toma:
Como as prezas conduz, e audaz campêa:
Como sobre a maior em fim subido
Castro, e nada tardio, á voz do chefe,
Outra, que sobrevem, combate, e rende.
Fôra melhor á triste o dar-se logo.
Daquella, bem que inutil resistencia,
Gloria, afouto Avellar, houveste em dobro.
Usado a presumir que a morte é nada,
Com poucos, e munido de ti mesmo,
Eis o mauro convez ganhas de um salto;
Gira o ferro, e triumphas, dous prostrando.
Tudo isto, verdadeiro em demasia,
E d'alta apparição vaticinado,
Caramáli do alcáçar descortina.
Primeiro o coração lhe agitam furias;
Não pára; vae, e vem; doudeja, freme;
As melenas arranca, arranca as barbas:
Pouco a pouco depois temor o abranda.
Gravado tem o heróe na phantasia;
E porque em tudo o mais o vê sincero,
No resto da visão firma esperanças.
Hesitando, com tudo, em si murmura:
«Quem do contrario seu fiar-se deve?»
Mas, passado um momento, assim não pensa.
« Em tentar que me vae? Senão, que resta ?»
Disse, e a um, entre os seus auctorisado,
Que lhe provara fé n'outros extremos,
Envia de Albuquerque á náo temida
C'os «francezes» fataes, que á similhança
Da gorgónea carranca damnam vistos.
Diz-lhe (se tanto ousar) «que em troco d'elles
Peça os varões, os lenhos apresados;
E tudo facilite ao grato assenso.»
Além das esperanças vae o effeito:
De nada para si querendo a posse,
Donaldo restitue (acordes todos)
O almirante infiel, varões, e lenhos:
E prende a tantos dons o dom brilhante,
Que suspira o bachá, de amigo o nome,
Promettendo que o throno ha de approval-o.
O coração do régulo não basta
Ao jubilo inesp'rado. Alegres vivas
A voz dos cortezãos, e a voz do povo
Manda aos ares: no pélago reflectem,
E tocam dos lusiadas o ouvido.
Que nectareas correntes inundaram
Portuguezes espiritos, olhando
Sobre as amêas das profanas torres
As bandeiras de um Deus, de Christo as quinas,
Do reino occidental eterno abono !
Em quanto acclamações da infida plebe,
E a espaços o trovão da artilheria,
Já do mar, já da terra, os céos atroam !
Eis de tanto suor o idóneo preço:
Quem seu Deus, e seu rei a um tempo serve,
Que mais quer, on da. Gloria, ou da Ventura ?
A ti, oh Lima, conductor supremo
Da lusitana esquadra, a ti, que és grande
Na ascendencia de reis, no gráo, nos fados,
Inda maior no engenho, e na virtude:
Tambem no caso illustre se deriva
Applauso não vulgar: por ti mandado
Fez o patrio valor tão raras cousas:
Foi sua a execução, teu fôra o plano.
Nem menores pregões te deve a Fama,
Nelson preclaro, da victoria filho,
Que usurpas a Neptuno o gran tridente:
O que o luso acabou, tu lhe apontaste.
Mas a origem de tudo a quem respeita,
A quem melhor quinhão de gloria cabe,
Ou falle a Musa, ou não, ninguem o ignora;.
Soam praias seu nome, e soam mares.
A nautica pericia, que afamados
Outr'hora os portuguezes fez no mundo,
Que os levou a reinar a extremas plagas,
Sem cultura jazia (oh vilipendio !)
Do centro das brasilicas florestas
Desarreigadas quilhas inda arfavam
Sobre as tágicas ondas, mas em ócio:
E se alguma imprudente ousava acaso
Ás Hyadas expôr-se, expôr-se a Arcturo,
Ronceira dividia o lago immenso,
Dos mares, e dos ventos esquecida;
incapaz do conflicto, e da procella.
Raro o nauta, e com alma entorpecida,
O ministerio seu desaprendera:
Obedecer, mandar nenhum sabia.
Eis Coutinho!... Eis o genio antigo acorda;
Eis nova geração com elle assoma.
Para Marte, e Nerêo sabia academia
Cultiva cidadãos: escolhe entre elles
O illustrado varão, quem se avantaja:
E, bem que repartido em mil cuidados,
O pezo de altas cousas sustentando,
C'o louvor afervora o que é louvavel,
E em quem merece o premio, os amontôa:
D'esta arte a mocidade aos astros sobe;
Assim com socios taes luziu Donaldo.
Oh três, e quatro vezes venturosos
Nós, a quem dado foi, que respiremos
Subditos de João, serenas vidas;
E ser de tanto bem participantes !
João, da patria pae, renovo insigne
De monarchas, de. heróes, de semideuses;
Amor, gloria, esperança, e luz da gente,
Que, os mares invadindo, ousou primeira.
Vêr, e affrontar o adamastóreo vulto;
Desde a ultima Hesperia ir lá na Aurora
Arvorar contra as torridas phalanges
O estandarte dos céos, penhor do imperio;
João, que em quanto as guerras tudo abrazam,
Em quanto Erinnys senhorêa o mundo,
Afaga, justo, pio, optimo, ingente
Com amorosa paz os largos povos,
Que o jugo lhe idolatram, perto, e longe;
Do exemplo dos avós illuminado,
D'elles nutrindo em si toda a virtude,
Na principal, na egregia se realça
De eleger (tudo o mais d'aqui depende)
Almas, com quem do sceptro adoce o pezo.
Astuto cortezão, que ambiciosos,
Sinistros, devorantes pensamentos
Com zelo vão fallaz, pallia, e doura,
E' por elle repulso; e chama aquelles,
Que as honras merecendo, ás honras fogem.
O veneno dos paços, a lisonja
Ante seus olhos em silencio treme:
Só da verdade oraculos attende,
Só da sciencia oraculos escuta:
Pallas, Themis presidem-lhe aos conselhos;
Ás acções lhe presidem Themis, Pallas.
Não, para subjugar nações, imperios,
Não despe o ferro aqui Gradivo iroso;
Mas só porque na força a paz se estêe,
E só porque sem nodoa permaneçam
O decóro, os brazões de altos maiores.
Não é seu, para si João não reina:
O povo, a que dá leis, prefere a tudo.
Orem nobre, plebeu, nautas, colonos.
Ou diante do solio, ou não presentes;
Ore o commerciante, ore o soldado;
Provam merecimento ? Os premios levam,
Volve feliz o que infeliz o busca :
A todos satisfaz, egual com todos;
E até mesmo ao desejo o dom precede:
Só com pezado pé se move a pena.
Oh Lysia! Oh patria! Surge, altêa a fronte:
Que não cumpre esperar com taes auspicios?
Eia, applaude a ti mesma, oh Lysia, applaude.
As tres, em cuja voz os Fados soam,
Prazeres de ouro para ti já fiam.
Sáe (reinando João) sáe das estrellas
Ordem nova de seculos ao mundo:
Folga: Assombros tens já; — virão portentos.
Soltas do coração, mil preces manda
Aos climas immortaes; fatiga os numes,
Porque da esposa ao lado excelsa, e cara
O consorte real no throno exulte;
Porque orvalho do céo fecunde, anime
Os tempos de João, de nuvens limpos;
Porque idolo dos seus, terror d'estranhos,
Brilhe, viva, e dos netos netos veja;
Até que tardas eras o arrebatem
Aos astros, d'onde veiu honrar a terra:
Elle é digno de ti, tu digna d'elle.

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domingo, novembro 1, 2009 - 19:31

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