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Canto ao dia, pra que à noite não…

Conto-te o que sei, do que sei
E do que me não atrevo saber,
Não conseguirei eu jamais ignorar
Conto-te do sol que transborda e sobe
P’los meus olhos, da palavra primeva
Secreta que abre nos sonhos a cesta
Do profeta, do que prometeu Eufrates
Ao Tibre, da Maria, da alegria do parto
Sem dor, conto-te da desilusão do desencanto
E do actor sem paixão ter nem a ilusão
De sentir melancolia sem choro do esperar
P’la lotaria sem jogar no gamão
A perda de Deus sem querer conquistar céus
Conto-te o que sei do que sei, do encontro
De mim em mim e não do que fiz d’assim tão
Mal em transportar etéreos sonhos, quantos
Que não entendo mas não abro mão,
Conto-te da inveja que o filósofo tinha
Em rapaz, plo choro dos desterrados,
C ’mo Juíz p’las Tábuas da lei em silencio,
Conto-te quanto me tornei incapaz,
Inversamente à razão, ao vento, ao ar
Que me traz saudade do ser que não sou,
Nem me atrevo cedo a ser o sonhar laudo,
Conto-te tudo o que à minha lembrança
Vier, pois tudo regressa, excepto aquilo
Que a gente perde depois da manhã negar-se,
Em chegar cedo.
Jorge Santos (12/2014)
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