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Desculpa Se Sou Puta -Parte 1 - Capítulo 2

As crianças já não perguntam nada aos malmequeres...
E os pais só as querem astutas e com conversas adultas
porque sofreram sempre de ejaculações precoces...
As crianças já não se querem puras, nem doces...
Já não se querem crianças..

Inês Dunas : Ama Dure Ser

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2012/08/amadure-ser.html

Como lágrimas atiradas violentamente contra o vidro do carro, as gotas de chuva sucumbiam ao arremesso frenético do limpa-vidros do Ford Fiesta cinzento perante o meu olhar inquieto.
Não sabia ao certo o que dizer, nem como iniciar uma conversa interessante que fosse de modo a cativar o pai de A.
Habitualmente nunca ficava nervosa perante cotas, pois armava-me em adulta, empinava o nariz e mantinha-me preparada para responder uma frase feita, como uma víbora a cuspir o veneno, mas por qualquer razão, o rosto que me sorria pelo espelho retrovisor do carro inquietava-me.
P. não era um arquétipo do meu pai, nem tão pouco o olhar dele era afável como o do meu herói. P tinha um olhar penetrante, com uns olhos verdes tão profundos como um oceano e a mesma tranquilidade de um dia de verão. A ia falando e gesticulando acerca de tudo e do nada, como sempre fazia e eu muda e calada presa naquele olhar que me inquietava e sossegava ao mesmo tempo.
Por duas vezes, fingia ignorar a sua barba de dois dias, o seu queixo duplo saliente, concentrava-me apenas na voz de A e não percebia como um homem assim podia ser pai de alguém. Um sujeito assim só podia e devia ser actor de cinema, perpetuar-se no tempo tipo James Dean e nós as mortais eclipsadas por aquele olhar, testemunhas vivas da perfeição sem dono, ou melhor, dona….
-Não achas? – Inquiria A no banco da frente.
-O quê? – Interroguei perdida nos meus pensamentos
-Que devia ser feriado...
-Ah sim, devia…
O sorriso dele rasgado, os lábios finos, o meu coração a bater acelerado, inexplicavelmente acelerado e eu a tremer, não pelo frio ou por estar molhada da chuva…Que raiva sentia em não me conseguir concentrar no timbre agudo da voz de A.
-A . já me tinha falado de ti, mas nunca me disse que eras tão bonita. – Atirou ele, numa voz doce, piscando o olho pelo retrovisor.
Habitualmente escarnecia de um piropo desse tipo, quer fosse dito por colegas de escola, quer por qualquer cota a tentar ganhar a minha simpatia, mas nesse momento permaneci calada e talvez até tenha corado.
- Eu disse-te pai, ela é super fixe!
-Estou a ver e muito faladora também. – Retorquiu num tom sarcástico.
Por qualquer razão que não conseguia explicar, em plena manhã chuvosa de Janeiro eu estava a suar nas palmas das mãos. Odiava sentir-me assim, perdida, intranquila, nervosa pois invariavelmente tornava-me desajeitada.
Ao fundo da estrada, reconhecia os portões da escola, o pesadelo acabaria ali no entanto a minha vontade residia em permanecer naquele carro, preferencialmente no lugar da frente. Com ele ao volante iria até ao fim do mundo, embora não pretendesse emitir qualquer som. Para nós, miúdas crescidas, os cotas não contam para estatística. São aves raras, criadores de regras absurdas, ininteligíveis e absolutamente desprovidas de bom senso, pelo que a incapacidade de encetar um diálogo com P me deixava com um ataque de nervos, como se por mais vontade que tivesse em articular uma frase, receasse que apenas saíssem das minhas cordas vocais, sons imperceptíveis, grotescos.
O Ford parou suavemente a poucos metros da entrada da escola. Lá fora o dilúvio continuava enão havia qualquer indício de melhoria. Esperei pacientemente que A. saísse da viatura pois queria ficar a sós com ele, nem que fosse por míseros segundos e absorver todo aquele olhar.
Como se ele tivesse percebido a minha vontade, colocou-me a mão no ombro, pouco antes de eu abrir a porta e pausadamente indagou, à laia de tentar ganhar tempo:
-A tua mãe não te pôde levar?
-Não. Estamos sem carro. - Atirei na fraqueza do meu ser.
-Ah sim? Avariado suponho?
-Não. Penso que o meu pai o tenha levado... - Menti já desesperada por mudar o assunto.
-Eu soube que os teu pais se separaram. Lamento!

“Lamento?” - Articulei eu mentalmente, como que tentando digerir de uma só vez dez bolachas Maria. Que raio de cena era esta de lamento? Ninguém morreu, ninguém saiu do meu círculo de vida...Lamento? Fiquei furiosa por A. ter contado todo o meu drama aos seus pais. Que mais saberia ele?
Afinal, tinha sido apenas ingénua. O sorriso, o olhar não eram para mim, mas um gesto de piedade pelo que estaria a passar. Que lorpa tinha sido em, achar que com catorze anos poderia de certa forma ser alvo de um sorriso daqueles  . Que poderia ele lamentar? Tem mulher, tem filha, vivem felizes...O que raio sabe ele de lamentos?
Toda eu tremia, era rastilho ardente em barril de pólvora, fervendo para estourar. Estouvadamente quis sair rápido dali , abri a porta do carro, rodopiei sobre o assento e saí erguendo a mochila como escudo de um novo olhar e precipitei-me para o exterior.
Na pressa da saída aconteceu o inevitável. Ou seja, o inevitável é aquela cena que só acontece a mim, uma sucessão de atabalhoamentos, como se o meu corpo sofresse choques eléctricos e eu perdesse o controle.
Fazendo questão de sair rapidamente não vi a poça de água bem aos meus pés, após sair para o passeio e quando a vi já era tarde demais, não evitando meter os dois pés lá dentro. Apressando-me a reagir, saltei para o lado, esperançada que nem A. nem P. se tivessem apercebido, não reparando num ciclista que circulava nesse mesmo passeio e literalmente atirei-me para a frente dele, levando em cheio com ele, mais a bicicleta e a mochila que entretanto parecera ganhar vida e voara, caindo em cheio em cima de nós.
Estatelada no chão, com a cabeça na poça de água da chuva, com o ciclista caído ao lado e a bicicleta e a mochila em cima de mim, insultava o Universo por só a mim acontecerem coisas deste tipo. Agora de certeza que seria gozada não só por toda a escola como por A.e P.
No entanto e para meu espanto, não obstante a quantidade de pessoas que se entretinham a olhar, P. apressou-se a sair do carro e ajoelhar-se perto de mim, analisando-me atentamente:
-Bem, não pareces ter nada partido!
Eu tentei sorrir nervosamente e apenas exclamei para mim mesma:
-Só o orgulho….Mas sobrevivo.

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sábado, fevereiro 7, 2015 - 11:11

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