No bar
Pediu para que não a deixassem com o encargo de ser a solução para todos os problemas daquele dia que teimava em espreguiçar-se por sobre o acosso da noite. Reflectia quando a espuma insolente daquela cerveja de últimos recursos já parecia conseguir desenhar corações no mármore do balcão de todos os dias. Soava mal. Soava-se mal ao lhe perguntarem as sombras menos insolentes que conhecera, se queria dançar. Era sensual estar ali à espera que o sol a beijasse da forma apaixonada, como sempre esperara que a beijassem. Seria interessante a perspectiva de um duelo de sintagmas nominais com aquele jazz meloso que lambusava de sal o doce da sua pele. Deixava-se sempre ficar há semanas naquele cantinho, do menor espaço de bem estar que conhecia. Apanhavam-lhe pequenas coisas de ansiedade, quando com os olhos rosados parecia pedir socorro. Queria ser resgatada do não ter nada que pedir. Do não ter sítio para onde ir. Das poucas coisas que lhe restavam para se sentir coisa do mundo das coisas. Daquelas gotas de chuva do último dia de felicidade que lhe pintou o céu de expectativas, restava pouco. Lembrava-se ainda menos de como era sorrir por se sentir bem tratada pelo mundo. Achava já escassa a ideia de que aquele canto, aquele redondel de monumentos mal desenhados em que se aconchegava, noite após noite, servia para a proteger.
Apetecia-lhe abusos. Queria que a tratassem mal, para depois saber a que sabe desnudar o bem. Nem pedia muito. Só noites em que falar mais alto, fosse igual a não conter suspiros de desejos incontidos. Ter a quem beijar, para depois desprezar o sentir que não se tem ninguém para desejar. E no fim, descrever tudo em redondos e planos sentidos de páginas escritas ao som do vento melodioso, e da chuva que se desfia em gemidos de dor
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