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Entenda de todas as vezes por uma
essa física sem meta:
somos a miniatura
da realidade objetiva –
compreendemos a Humanidade
na exata medida em que somos humanos;
os Animais, na proporção em que somos animais;
o Universo, na razão em que somos universo –
esse Sujeito não me é estranho,
faz parte da coisa-em-si,
fenomenologia quase mística!

Existir não é ação, nem estado, nem processo –
logo, por exclusão, existir é fenomenal!
Incompreensível de verdade
é a compreensibilidade das coisas.
Mas o amor até que é
um mal entendido de primeira!

Você pode amar qualquer pessoa
à primeira vista e desamá-la na segunda.
Não há amor como o primeiro
a acabar!
Os últimos serão os primeiros
a desistir da corrida.
Amor eterno mesmo
é o amor-próprio!

Apenas amar uma pessoa,
amar apenas uma pessoa,
amar a duras penas uma pessoa –
os três níveis de gravidade da doença
(em ordem crescente).
Na vida real, as histórias de amantes
divididos entre dois ou mais amores
são muito mais comuns
que as de amor único e verdadeiro
dos filmes romanescos.
Estas não raro colonizam
os devaneios das jovens,
mas como são muito fáceis
em creditar no amor,
acabam provando dúzias de amantes
ao longo de sua amabilidade,
e aprovando os mais entusiasmados
entre suas coxas.

A concepção platônica de amor
inclui a ideia de perfeição –
mas apenas a ideia platônica de perfeição…

E cada amor tem sua perfeição própria.
Amor-próprio, amor carnal, amor doentio…
E quem há de negar estes lhe são superiores?
Depois que os casórios deixaram
de ser só por conveniência
para serem por conivência,
viram só em quantos divórcios
acabaram as convivências?

Cada uma das pequenas obsessões
que dão sentido à falta de direção
dos podres de espírito!…

Fidelidade é obsessão
desses cornos filhos-da-pública.

A paixão é uma febre intermitente
que bate no coração da gente –
óia, sô! num é que dá inté uma moda sertaneja?!

O amor é a paixão crônica,
pra quem a repressão é vitamina.

A castidade é a punheta do asceta.

A posse é uma das ilusões mais ridículas
inventadas pelo bicho-que-usa-aliança –
vejam, exemplo grátis,
como é que se possui uma mulher:
é só se enfiar nela
e ficar entrando e saindo
até não se aguentar mais.
Embora apetecível,
depois de algumas consecutivas
essa tela explícita
dá até ânsia de vômito.

Numa coisa a moral cristã acertou:
o amor é uma coisa feia mesmo.
Boa ironia do criador
que os gestos mais sublimes
sejam feitos com os órgãos excrementícios!

E a coisa mais gostosa de se fazer,
depois do sexo, é dar uma bela cagada.

O amor é o que há
de diabólico em deus
e de divino no diabo?…

Até deus duvida
mas o diabo gosta
que se lambuza!

O romântico só quer
viver um grande amor,
o ultra-romântico
só quer morrer de amor.

Amar é…
correr ao seu encontro
em câmera lenta na praia,
mandar o buquê de rosas
vermelhas em botão e a caixa
de bombons em formato de coração,
levá-la ao restaurante,
ao cinema, ao motel, comprar-lhe
a aliança, propor-lhe o casamento –
amar é ilusão burguesa, meu amor.

Vale lembrar
que a deusa do amor
nasce de uma castração.
E se apaixona pelo deus da guerra.

E como é possível que a saudade,
essa senhora tão conservadora,
seja o que sobra
desse sentimento
tão supostamente liberal?

As mais belas histórias de amor
provam que o amor é só história.

O amor exclusivista
é um tipo de apego material,
ciúme é tipo uma avareza,
ridiqueza, ridicularia.

Quem não transa com você
já tá te traindo!
Pecuária, pecuniária –
nem patrão e nem patrono –
vaca que é vaca mesmo
não tem dono
nem perde o sono!

Vivam as profissionais liberais –
elas alugam o que as outras vendem!
Você reflete num soco:
sacerdotisa de Afrodite,
toda mulher o é,
porque as que o não são,
sê-lo-iam se pudessem,
o que já é sê-lo
em alguma medida.
Assim,
a crença popular
de que uma mulher de má reputação
não merece ser homenageada
nos levaria ao cúmulo
de não mais dar corda
no relógio de pulso,
ou, como diz o vulgo,
de não bater mais ampulheta.
Desencana.
A melhor partitura
é a que se toca
nos nossos instrumentos de nascença.
E o sexo mais puro,
o amor mais puto,
é aquele intransitivo e sem compromisso.
Pelo menos, a relação é mais honesta –
chupeta é vinte, buceta é cem,
sem camisinha é trezentos, e pronto!

Paixão é essa doença
que já vem no aumentativo?

Uma paixinha antiga
fica uma camiseta velha:
nunca tão aconchegante,
mas só usamos pra dormir.

É quando você descobre
que os sonhos também envelhecem,
como as pedras e as estrelas.
Somente as sombras não têm idade –
mas que fugazes!

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Domingo, Diciembre 20, 2009 - 02:43

Ministério da Poesia :

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MauroBartolomeu

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