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CONTACTO ALIENÍGENA - A GAIOLA

A GAIOLA

1

O Papá ofereceu-me há pouco tempo um novo bichinho de estimação.
É pequenino e tem uma pele macia algo similar às teias que a Mamã tece. O Papá avisou-nos para nunca metermos as patas dentro da gaiola pois o bichinho parece ser agressivo.
Inicialmente era muito agitado e rebelde e fazia gestos estranhos e muito rápidos. Chegou mesmo a agredir-se a si próprio, de tal modo que se não fosse o reanimador automático, já teria morrido, em mais que uma situação.

A Mamã teceu-me uma teia para eu ficar deitado a contemplar o bichinho. Tentei dar-lhe algum ensino mas ele não compreende nada… A única coisa que faz é lançar uns gritos estridentes e agitar as duas patas da frente.
A Mamã acha que talvez cante instintivamente a sua alegria de estar vivo.

Mas o pior de tudo é que não pára de comer a fruta que lhe damos e assim que a come, larga uma sujidade na gaiola, de um fedor indescritível.
A gaiola precisa ser constantemente lavada e desinfectada para eliminar a imundície e todos os vírus que possam existir ali.
Ainda bem que a gaiola está equipada com o melhor da nossa tecnologia de apoio na área das mascotes.

2

“ Eis-me a viver o pior dos pesadelos que um ser humano alguma vez pode imaginar!...
Recordo com um misto de saudade e de angústia aquela noite em que, depois do jantar, fui caminhar calmamente para apanhar um pouco de ar fresco e de súbito senti uma dor aguda em todo o corpo e desmaiei. Nem sequer consigo perceber o tempo que estive desacordado…

Quando acordei vi-me preso nesta cela transparente de um material semelhante a vidro e num local absolutamente estranho. Uma janela no enorme edifício exterior
deu-me a perceber que estava num outro mundo com dois sóis e várias luas.
O calor aqui é aterrador e acho que nunca baixa dos sessenta graus – o suor não
pára de sair de mim. Aquilo a que se pode chamar noite é apenas uma breve
penumbra neste planeta sinistro.

Descobri horrorizado que umas criaturas de oito patas, misto de aranha e barata e
com uns doze metros de altura, reinam neste planeta abrasador e que parecem dar-se perfeitamente com as altas temperaturas existentes.
Vi apenas dois destes seres, um maior e outro mais pequeno – que parece ser a cria.
É este último que passa mais tempo a contemplar-me do lado de fora da minha prisão, como se eu não passasse de um mero brinquedo para ele se entreter.

Por vezes agita as 4 patas da frente e faz uns sons como se tentasse dizer algo.
Tentei desesperadamente responder, a gritar, a cantar e a gesticular, mas nada deu resultado. Eles comunicam entre si através de uns subtis estalidos metálicos – absolutamente indecifráveis – acredito que talvez nem concebam que eu pertença a
uma espécie inteligente.”

3

- Mamã!... Esse bicho é muito sujo!
- Tens de ter paciência, meu filho. O Papá trouxe-o muito entusiasmado por ser diferente de todos os outros que já tiveste.
- Além de sujo, também tenta fazer mal a si próprio…
- O Papá avisou acerca dessa possibilidade: No seu mundo de origem é o predador de topo que domina todas as outras espécies e ao que parece, utiliza a violência para conseguir os seus objetivos…
- A violência?!... Quem havia de imaginar tal coisa de um bicho tão insignificante...
- Nunca podemos prever o comportamento das espécies primitivas… De qualquer modo não deixa de ser uma lição para todos nós.
- Pois… e não aprende nada daquilo que lhe ensino: Apenas se preocupa em comer, fazer sujidade e barulho.
- Já te disso, meu filho, que esse ruído deve ser o seu cântico natural!...
- Que animal mais estúpido!... Como pode alguém estar preso e ter vontade de cantar?!...

4

“De algum modo não deixa de existir uma ironia mórbida quando recordo a minha juventude… Naquele tempo percorria os campos à procura de ninhos e depois tirava os pássaros jovens e colocava-os numa gaiola.
Observava o frenesim e aflição dos adultos a transportar comida para os filhotes. Entretanto estes aprendiam a comer por si e os pais aos poucos iam deixando de dar-lhe alimento. No entanto, ficavam por ali a cantar e os filhos pareciam responder.
Aos poucos tornavam-se ótimos cantores. Eu ia colocando comida e água e ouvia-os cantar na sua prisão.
Será que verdadeiramente cantavam?! Ou será que choravam a sua triste sina?!...

Agora, aqui na minha atroz gaiola canto, grito, choro e rezo, mas ninguém me escuta, ninguém se importa… Peço a Deus que me leve de vez e me liberte.
Já tentei o suicídio, mas não resulta: Existem câmaras a acompanhar todos os meus gestos e logo uns instrumentos metálicos me dão umas dolorosas injecções que causam dores até à alma e que me fazem perder toda a vontade de tentar de novo.

Para agravar o suplício dão-me apenas de comer umas frutas horríveis que me causam diarreias imediatas.
Mas foi assim que descobri a maneira de atenuar um pouco o meu suplício, pois como tudo aqui é tratado de maneira automática, logo surge um jacto de água para lavar toda a porcaria e aproveito para tomar banho e me refrescar um pouco.
Bom, estou a ficar de novo com muito calor… Preciso comer mais um pouco de fruta.”

5

Somos viajantes dos Cosmos, uma das espécies mais antigas e evoluídas que existem. Os mistérios do tempo e da distância já foram vencidos por nós há séculos.
Contudo o universo é vasto e misterioso e ainda existe muito mais para descobrir. Em cada viagem que faço recolho todos os dados que possam contribuir para enriquecer os conhecimentos da nossa gloriosa civilização.

Faço também trocas com outros povos e lembro-me de na última viagem ter comprado a um comerciante pouco escrupuloso, que se dedica a capturar espécies exóticas em mundos remotos, um bichinho bizarro com duas pernas e dois braços.
A sua carapaça era mole e frágil e parecia possuir um esqueleto interior.

O comerciante falou-me um pouco daquela espécie e do seu mundo, onde é dominante – um minúsculo planeta frio e muito primitivo com apenas um sol. Avisou-me que o animal devia estar em rigoroso isolamento, não apenas pelos vírus, mas também pela sua agressividade e tendências assassinas, até para com os da sua própria espécie.
E nada de complacências, nem tentativas de aproximação pois é conhecedor de inúmeras artimanhas para tentar escapar…

Fiz questão de o comprar para oferecer ao meu filho, Júnior, que gosta muito de animais exóticos. Ele é ainda uma criança e tem muito que aprender.
A Mamã já falou comigo para lhe oferecer outra mascote. Pelos vistos o Júnior fartou-se do bichinho mais depressa que é costume.
O seu destino é levar com uma dose do raio embalsamador e ficar junto dos outros a adornar a estante dos troféus do meu pequeno Júnior …

16.07.2012, Henricabilio

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segunda-feira, julho 23, 2012 - 21:55
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Henricabilio

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Comentários

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Por hora, meu caro Abílio,

Por hora, meu caro Abílio, dizer apenas que ADOREI o texto. Daqui a pouco comento um pouquinho mais... ((:

Até mais!

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É ótimo viajar pelos portões

É ótimo viajar pelos portões do Fantástico.

Gostaria de saber quem e porquê anda a percorrer estas dimensões.

Saudações!

Abilio

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